Combate de José Colatino
Com
o Carranca do Piauí
João
Melquíades Ferreira da Silva
(O Cantor da Borborema)
Vamos
ouvir a história
De
um rapaz valentão,
Que
andava de casa em casa
A
procura de questão,
Era
José Colatino
Que
tinha essa intenção.
O capitão
Deodato
Morava
no Quixadá,
Era
um homem muito rico
Dizia
o povo de lá:
---Que
sua família era
A
melhor do Ceará.
O
Capitão tinha uma filha
Mas
se ouvia dizer,
---Que
noivo para Chiquinha
Era
difícil aparecer,
Parece
que ele tinha
A
filha para vender.
Depois
de escolher noivos
Pela
sorte ou destino,
Apareceu
um rapaz
Mocinho
quase menino,
Então
casou-se Chiquinha
Com
o José Colatino.
José
era um rapaz que
Não
tinha comportamento,
Antes
de ser valentão
Justou
logo o casamento,
Contava
dezoito anos
Quase
ainda em crescimento.
Chiquinha
boa mulher
Tratava
bem do marido,
Porém
José Colatino
Empregou
o seu sentido,
Arrotando
valentia
Tornou-se
um rapaz perdido.
Um
dia José Colatino
Chegou
à inclinação,
Disse:
-- Chiquinha eu agora
Sou homem
de posição,
Quem
chegar em minha porta
É
com o chapéu na mão.
Chiquinha
disse: --- José
Repare
primeiramente,
Olha
que no Ceará
Tem
muita gente valente,
Vamos
fazer nossos queijos
Não
queira ser insolente.
---Chiquinha
eu tenho coragem
Fiado
numa oração,
Quando
boto – a no pescoço
Fico
logo valentão,
Você
vai ver este povo
Como
me toma “a benção”.
Chiquinha
pôs se a chorar
Com
muita pena dizia:
---José
eu tenho desgosto
Desta
tua valentia,
Que
só vem me dar trabalho
Casei
porque não sabia.
Uma
noite Colatino
Na
festa do Quixadá,
Perdeu
dinheiro no jogo
Pois
não sabia jogar,
Fez
o primeiro barulho
Deu
começo ao seu azar.
José
apagou a luz
Rasgou
carta de baralho,
Virou
mesa quebrou louça
Fazendo
grande esbandalho,
Quis
dar no dono da casa
Para
mostrar seu trabalho.
Então
o dono da casa
Não
alisava menino,
Disse:
-- Cabra malcriado
Eu
quero dar- lhe um ensino,
Deu
uma surra de pau
No
tal José Colatino.
O
Capitão Deodato
Ficou
muito conspirado,
Porque
seu genro Zezinho
Se
achava desfeitado,
Mas
disseram que o rapaz
Ele
mesmo foi culpado.
Depois
José Colatino
Foi
dar em um Inspetor,
Porque
não tinha cercado
A
casa do jogador,
Levou
a segunda surra
Para
não ser agressor.
Colatino
estava na feira
E
queria dar num soldado,
Ainda
abanou os queixos
De
um sub-delegado,
Levou
a terceira surra
Ficou
muito maltratado.
O
capitão Deodato
Estava
muito desgostoso,
Dizia:
-- Este meu genro
Inda
briga de teimoso,
Quer
brigar sem ter idade
Não
pode com criminoso.
Depois
foi visto José
Na
beira de uma estrada,
Emboscando
um inspetor
Armado
de espingarda,
Lá
levou a quarta surra
E a
arma lhe foi tomada.
E
José chegou em casa
Falando
muito zangado,
Disse:
-- Chiquinha eu agora
Só
não matei um safado,
Porque
me tomou a arma
Mas
pegou-me descuidado.
Chiquinha
disse: -- José
Tu
vais te acomodar,
Tu
és ainda criança
Não
sabe o que é brigar,
Ou
tu endireitas a vida
Ou
morres de apanhar.
---Chiquinha
eu vou agora
Sair
no mundo a brigar,
Eu quando
vejo um barbado
Minha
vontade é matar,
Só
com sessenta processos
É
quando posso voltar.
Seguiu
José Colatino
Nas
feiras onde passava,
Queria
mostrar coragem
A
todo mundo insultava,
No
barulho de fim de feira
Sempre
José apanhava.
Onde
José via teima
Queria
ser muito mau,
Gritava:
-- Que é isto aqui!
Eu
já meto o bacalhau
Eu
aqui não vejo homem...
Com
pouco estava no pau.
José
voltou com dois anos
Das
fronteiras do Estado,
Com
noventa e nove surras
Que
o povo tinha lhe dado,
O capitão
Deodato
De
tudo estava informado.
O
capitão Deodato
Arrojou-se
nessa hora,
Dizendo:
-- “Seu Colatino
Aqui
o senhor não mora,
Se
suma da minha vista
Desde
já pode ir embora.
---Por
isso a minha família
Está
muito injuriada,
E
você levando a surra
Sem
nenhuma ser vingada,
Não
me serve ter um genro
Feito
armazém de pancada.
Colatino
disse: -- Chiquinha
O
Quixadá não tem vantagem,
Você
fique com seu pai
Que
eu vou uma viagem,
Até
encontrar um homem
Que
aguente minha coragem.
---Nesta
terra não tem homem
Que
eu me ocupe a brigar,
Vou
caçar um valentão
Que
faça eu me zangar,
Chiquinha,
do Piauí
Inda
mando lhe buscar.
Logo
montou a cavalo
Cheio
de animação,
Despediu-se
de Chiquinha
Depois
de apertar-lhe a mão,
Seguiu
para o Piauí
Castigar
um valentão.
Nesse
tempo no Piauí
Na
cidade de Ueira,
Havia
um valentão
Que
veio duma fronteira,
Vivia
dando de peia
No
pessoal da ribeira.
Todo
mundo tinha medo
Da
cara do valentão,
Pôs
a vassoura da barba
Presa
pelo o cinturão,
Quando
ele assanhava a barba
Atropelava
o sertão.
Dizia
que estava em guerra
Andava
de perna manca,
E
carregava um punhal
Do
tamanho duma alavanca,
O
povo só lhe chamava
O
comandante Carranca.
Os
bigodes dele tinha
As
pontas tão estiradas,
Que
por detrás das orelhas
Ele
dava nós de laçadas,
Quando
ele ia dar num
Fazia
as barbas assanhadas.
As
moças desta cidade
Só
justavam casamento,
No
dia que o Carranca
Desse
o seu consentimento,
Governava
as casas alheias
Com
crime e atrevimento.
Toda
casa de negócio
Só
comprava ou só vendia,
Se o
Carranca quisesse
Isso
mesmo consentia,
Que
os caixeiros só vendesse
Em
cada semana um dia.
Assim
o povo vivia
Sujeito
a esse assassino,
Apanhava
do Carranca
Homem,
mulher e menino,
Quando
ninguém esperava
Chegou
José Colatino.
Entrou
José Colatino
Fedendo
a chifre queimado,
Não
achando venda aberta
Perguntou
admirado,
Por
qual motivo a cidade
Tinha
o comércio fechado.
Saiu-lhe
uma mulher
Que
lhe deu a explicação,
Dizendo:
-- Fale mais baixo
Aqui
tem um valentão,
Que
mata só com a vista
É a
fera do sertão.
---A
riqueza dos fazendeiros
Aqui
ele tem tomado,
Obriga
os homens rico
Lhe
trabalhar alugado,
As
moças não casam mais
O
povo vive assombrado.
---Se
o senhor quer escapar
Corra
e vá se esconder,
Pois
só a barba do homem
Faz
todo mundo tremer,
Carrega
as moças que quer
Quem
falar tem que morrer.
Colatino
disse: --- Dona
Onde
mora esse danado?
Eu
quero dar-lhe uma surra
Porque
estou destinado,
Arrancar
o cavanhaque
Dum criminoso
barbado.
Todo
povo abriu as portas
Fazendo
reunião,
Colatino
deu dois tiros
Insultando
o valentão,
Com
pouco vinha o Carranca
Rugindo
como um leão.
Assanhou
barba e bigode
E
gritou de cara feia,
---Canalha
sem minha ordem
Na
rua ninguém passeia,
Quem
mandou abrir as portas
Leva
uma surra de peia.
Colatino
pulou e disse:
---Está
bêbado assassino,
Barbado,
cara de sola
Ladrão
perverso e mofino,
Se
prepare pra morrer
Nas
mãos de Zé Colatino.
---Eu
venho do Ceará
Nunca
temi a ninguém,
Quando
eu pego um criminoso
É o
dia que passo bem,
Com
99 nas costas
E doido
pra fazer cem.
Colatino
já estava
Acostumado
a apanhar
Se Carranca
pegasse armas
Ele
ia se ajoelhar,
Mas
Carranca esmoreceu
Que
não podia falar.
Com
pouco Zé Colatino
Gritava
mais animado,
---Me
tragam fósforo e gás
O
Carranca está pegado,
Pois
eu quero tocar fogo
Nas
barbas deste danado
O
cavanhaque do Carranca
José
enrolou na mão,
Cuspiu
na cara do bruto
Deu-lhe
mais um empurrão,
O
Carranca tremia tanto
Que
as armas caíram ao chão.
O
Carranca arrependeu-se
De
se meter no cangaço,
Sentiu
a faca nas barbas
Com
violento talhaço,
Viu
que do seu cavanhaque
José
tirou um pedaço.
Carranca
nunca ouviu
Falar
em tanta vantagem,
José
com noventa e nove
Se
era morte ou pabulagem,
Assombrou-se
com os gritos
Pensando
que era coragem.
Abriu
da perna a correr
Saiu
coberto de poeira.
Colatino
inda atirou-lhe
Deu-lhe
mais uma carreira,
O
Carranca ganhou a mata
Que
ia quebrando a madeira.
Ficou
José Colatino
Como
chefe respeitado,
Entregou
as terras todas
Que
Carranca tinha tomado,
E
mandou prender Carranca
Que
morreu sentenciado.
Após
José Colatino
Muito
rico e respeitado,
Escreveu
para Chiquinha
Que
viesse ao seu chamado,
Na
cidade de Ueira
Foram
viver descansados.
F I M
_____________________
---
Poema ---
No
bosque da Borborema
Onde
a tarde é mais fagueira
Vi a
brisa na palmeira
Fazendo
leque e capela
Vi
as fontes derramando
Seus
cristais que a terra banha
E as
donzelas da montanha
Discute
quem é mais bela.
Vi o
sol em seu cortejo
Espargir
seu lampadário
E ao
terminar seu horário
Encontrou-se
na cortina
E a
lua açoitando as trevas
Por
ser estrela rainha
Seguidores
para a vinha
Só
na hora matutina.
No
dorso da Borborema
Orgulhoso
laranjar
Namorando
um parreirar
É
sitio da Natureza
Vi
cavaleiro da noite
Vaquejando
pelas selvas
Mesmo
orvalhados nas relvas
Buscando
uma camponesa.
Brilhava
essa camponesa
Sonhando
em leito de flores
Em
bailes cantando amores
Minha
lira está dileta
A
camponesa era criança
Em
anos tão bem verdosos
Libamos
laços ditosos
Viva
Deus e seu poeta.
DOIS
COLEGAS QUE SE
FORAM
Com
pensamentos imersos
Em
sentimentos cilóstomos
Tenho
escrito trechos póstumos
Uns
em crônicas outro em versos
Pois
eu conheci diversos
Poetas
que bem comporam
Bons
romances, como foram
Athayde
e Zé Camelo
Sendo
o último um modelo
De
muitos que já se foram.
Numa
canção saudei
Cinquenta
já falecidos
Alguns
meus desconhecidos
Porém
eu os relembrei
Agora
saudarei
Nestes
versos, desta vez
Dois
dos melhores talvez
De
consciências visaula
Que
foi Francisco de Paula
E
Severino Milanês.
Em
gipso de alabastro
Estes
helênicos poetas
De
clâmides níveas diretas
Divagaram
pelos astros
O
cíclame cavalastros
Levou-os
á imensidade
Milanês
por ter bondade
E
Chico por ser amável
Estão
lá no inefável
O
reino da divindade.
História de Mariquinha
e José de Sousa Leão
(João Ferreira de Lima)
Nessa
história se vê
A força
que o amor tem,
E Deus
o quanto protege
O homem
que pensa bem,
Tendo
força de vontade
Só a
negra falsidade
Nunca
valeu a ninguém.
A força
que o amor tem
Não há
quem possa vencer,
Dá
coragem ao homem fraco
Perde o
medo de morrer,
Fica
veloz como o vento
Cria
ferida por dentro,
Quem
está fora não ver.
No
século próximo passado
José de
Sousa Leão,
Era
almocreve e morava
No
interior do sertão,
Rapaz
de tipo elegante
Andava
sempre ambulante
Na sua
especulação.
José de
Sousa Leão
Morava
no Ceará,
Numa
seca muito grande
Ele
migrou de lá,
Perdeu
o que tinha lucro
Veio
para o Pernambuco
Remir a
vida por cá.
José
percorreu o Sul
Sem
achar colocação,
Lhe disseram
adiante tem
O
engenho dum capitão,
Apontaram
com o dedo
—Se o
senhor não tiver medo
O homem
lá é valentão.
Disse
José: - Eu vou lá
E
seguiu na direção,
Um
velho ainda lhe disse:
--Não
vá lá meu cidadão
Dou-lhe
esse parecer
Faz
medo até se dizer
Quem é
esse capitão.
O velho
disse: - Seu moço
Você me
guarde o segredo,
Nosso
capitão aqui
Mata
gente por brinquedo,
E não
tem dó de ninguém
Já
enterrou mais de cem
Dentro
daquele arvoredo.
José
lhe disse: - Meu velho
Isto
depende da sorte,
O homem
para viver
Precisa
que seja forte,
Não tem
revolução
E se
tiver precisão,
Troque
a vida pela morte.
José
nessa ocasião
Disse
adeus e foi embora,
O velho
lhe disse: - Vai-te
Com
Deus e Nossa Senhora,
O rapaz
saiu tangendo
E o
velho ficou dizendo:
--Ele é
morto e não demora.
José
chegou no engenho
Com sua
cavalaria,
E
cumprimentou a todos
Com a
maior cortesia,
Disse:
- Com educação
Boa
tarde capitão
Com vai
vos, Senhoria.
O
capitão orgulhoso
Nem
para José olhou,
Com dez
ou doze minutos
O
capitão se virou,
Resolveu
outro destino
Com
cara de assassino
Por
esta forma falou.
--De
onde vem o senhor
E o que
quer por aqui?
Atrevido
vagabundo
O
caminho é por ali,
José de
Sousa Leão
Disse:
- Sou um cidadão
Morador
no Cariri.
E saí
da minha terra
Devido à
seca que há,
Trago
os meus documentos
Sou
filho do Ceará,
Ando
aqui neste inferno
Mas
quando houver inverno
Eu
torno a voltar pra lá.
O
capitão conhecendo
A sua
disposição,
Lhe
ofereceu serviço
Nessa
mesma ocasião,
Antes
que José falasse
Pediu
que ele arranchasse
Num
pequeno barracão.
Disse o
capitão: - José
Eu não
lhe trago enganado,
Pois
quem não andar direito
Eu
mando matar sangrado,
José
disse: - Muito bem,
Eu sei
que o senhor tem
O seu
direito sagrado.
O
capitão levantou-se
E
disse: - Vamos ali,
Levou ele
a uma quinta
E
mostrou-lhe de persi
Um
homem lá amarrado
Disse:
- Vai morrer sangrado
Ninguém
o salva daqui.
A
sepultura aberta
O pobre
se lastimando,
Com
quatro cabras ali
Pelo o patrão
esperando,
O
capitão com um punhal
Nesse
momento fatal
Foi
logo o pobre sangrando.
E
depois que matou ele
Deu
ordem pra sepultar,
E disse
para para José
Agora
vá trabalhar,
Se
faltar com o respeito
Irá
morrer desse jeito
Não tem
pra quem se queixar.
José
foi trabalhar
Disse:
- Já sei como é,
O
capitão agradou-se
Do
trabalho de José,
Porém
ele se enganou
Que
desta vez encontrou
Forma
que deu no seu pé.
José
disse: - Capitão
Eu não
gosto de ofensa,
Estou
pronto para servi-lo
Sei que
o senhor compensa,
Porém
dizia meu pai
As
vezes a coisa não sai
Do
jeito que a gente pensa.
No
outro dia José
Seus
cavalos carregou,
No
tempo determinado
Bem
direito trabalhou,
Com
modesta educação
Até
mesmo o capitão
Daquilo
se admirou.
Com 02
meses e poucos dias
Que
José trabalhava,
José
estava benquisto
O
capitão conversava,
Achando
tudo bem feito
O
capitão satisfeito
Já
criticava e zombava.
Um dia
o capitão disse:
Vamos
lá em casa José,
Quero
que tu hoje vá
Tomar
comigo um café,
Mariquinha
quer mandar
Encomenda
pra comprar
Vamos
saber o que é.
José
tomando café
Na sala
da refeição,
Mariquinha
quando viu
José de
Sousa Leão,
Sua
alma teve alegria
Um raio
de simpatia
Atingiu-lhe
o coração.
Mariquinha
saiu fora
Sorrindo
lhe deu bom dia,
Fez um
sinal de namoro
Um riso
de simpatia,
Como
quem não tem mistério
José
ficou muito sério
Fez de
conta que não via.
Mariquinha
acelerada
Vinha
na ponta do pé,
E de lá
do corredor
Piscava
o olho a José,
Achando
lindo o moço
O que
passou-se no almoço
O
capitão não deu fé.
José
disse: - Capitão
Vou
fazer o seu mandado,
Foi e
veio com urgência
Trouxe
tudo de agrado,
Temendo
a sorte mesquinha,
O
namoro de Mariquinha
Deixou-lhe
impressionado.
Mariquinha
depois disso
Fez o
bilhete escondido,
Para
José de Sousa
Suavizando
o sentido,
Disse
ao velho com afeto:
--Papai
falta um objeto
Que eu
tinha esquecido.
Mariquinha
disse: - Papai
Quando
se José passar,
Eu
tenho outra encomenda
Para
ele me comprar,
Mentira,
era uma cartinha
Dizendo:
- Sou Marinha
Que
nasci para te amar.
O
capitão disse: - José
Mariquinha
não se lembrou,
De
botar uma encomenda
Por
isso tu não comprou,
O rol
escrito não tinha
Quem
sabe é Mariquinha
O
objeto que faltou.
José
botou o cavalo
Pelo
lado do portão,
Mariquinha
veio sorrindo
Com um
bilhete na mão,
Dizendo:
- José entenda
Me
traga essa encomenda
Que eu
tenho precisão.
José
chegou lá adiante
Lembrou-se
e foi olhar,
O
bilhete dizia assim:
--Eu
nasci para te amar,
Te
entrego meu coração
José de
Sousa Leão
Tenha
dó do meu penar.
Os
rapazes desta terra
Não me
pedem em casamento,
Todos
temem ao meu pai
Vivo
neste sofrimento,
Sem
carinho e sem agrado
Meu pai
é quem é culpado
Deste
meu padecimento.
José
soltou um suspiro
Fez o
semblante mudado,
Os
outros lhe perguntaram
--Você
está adoentado?
José
apalpou o pulso
E
disse: - Isso é um soluço
Que eu
tenho acostumado.
José
dizia consigo:
--Que
sorte é essa minha,
Desgraçado
é quem morre
Pelo
amor de Mariquinha,
Com meu
gênio rijo e forte
Troco a
vida pela morte
Chegando
a sorte mesquinha.
José
escreveu um bilhete
Com
dedicada atenção,
--Se
confias em meu poder
Eu juro
em meu coração,
Por
nosso Deus de Israel
Sou teu
amante fiel
José de
Sousa Leão.
José
prosseguiu dizendo
Por
esta forma assim:
--De
hoje há oito dias
Você
espere por mim,
Que eu
chego num instante
Da meia
noite por diante
Lá no
portão do jardim.
Vendo
os cavalos ao seu pai
E digo
que vou embora,
Deixo o
cavalo melhor
Para
levar a senhora,
Pras
zonas do Cariri
E quero
sair daqui
Da meia
noite à uma hora.
Não
convém que ninguém saiba
Cuidado
com o capitão,
Depois
que eu sair daqui
Rumar
ao alto sertão,
A minha
volta é ruim
Ninguém
vá contra a mim
Porque
perde na questão.
José
fingiu-se doente
Sofrendo
do coração,
Com
muita benevolência
Pediu
para o capitão,
Deixar
ele ir embora
Disse
ele: - Qualquer hora
Está a
sua disposição.
Devido à
necessidade
O
capitão combinou,
Vá
visitar os seus pais
José
lhe disse: - Eu vou,
Visitar
o meu sertão
Até mesmo
o capitão
Lágrimas
por ele botou.
José de
Sousa vendeu
Todos
os cavalos que tinha,
Fez um
conto e oitocentos
Então
disse a Mariquinha:
Vamos
até para a lua
A minha
sorte é a tua
A tua
sorte é a minha.
O
capitão Oliveiros
Pagou-lhe
todo ordenado,
O dinheiro
dos cavalos
E
deu-lhe mais um agrado,
De cem
mil réis em dinheiro
E disse
a um cangaceiro:
José é
homem inteirado.
O
capitão inda deu-lhe
Um
punhal e um facão,
Um
granadeiro velho
Que parecia
um canhão:
--Tu
diz a quem te venera
Que
estava mais uma fera
Mas é
um ótimo patrão.
José
disse: - Muito bem
Eu fui
bem gratificado,
Estou
muito agradecido
Eternamente
obrigado,
Devo
favores sem fim
E
precisando de mim
Conte
com o seu criado.
O
capitão conheceu
Que ele
tinha coragem,
José
durante esse tempo
Pensava
na sua imagem,
Só ele
e ela sabia,
Até que
chegou o dia
De
seguirem a viagem.
José de
Sousa Possuía
Um bom
cavalo rudado,
Com
arreios muito bons
Estava
bem preparado,
De
cavalo e armamento
O seu
herói pensamento
Já
tinha um plano formado.
As onze
horas da noite
José
chegou no portão,
Mariquinha
já estava
Com uma
bolsa na mão,
Numa
calçada que tinha
José
montou Mariquinha,
Rumou
ao alto sertão.
Um
cachorro da fazenda
Que
chamava-se espadarte,
Acompanhou
a José
José
com um bacamarte,
O facão
e o punhal
Disse:
- Com esse animal
Eu
brigo em qualquer parte.
Era uma
noite de Outono
A lua
resplandecia,
E as
estrelas brilhavam
José de
Sousa dizia:
--A sua
imagem adorada
Para a
nossa jornada
A noite
é melhor que o dia.
Às seis
horas da manhã
José
com a sua amante,
Saíram
numa fazenda
Com
vinte léguas distante,
Tomaram
leite e café
Mariquinha
disse: - José
Cuidado
vamos adiante.
Se
montaram e depois
Seguiram
a mesma jornada,
Por um
sertão esquisito
Onde
não tinha morada,
Andaram
uma semana
O tigre
suçuarana
Vinha
insultá-los na estrada.
Quase
que morre de sede
No
interior do sertão,
Numa
grande travessia
Na
Serra do Espigão,
Mas
Deus o auxiliou
Por
felicidade achou
Água em
um caldeirão.
José de
longe avistou
O
penhasco dum rochedo,
E no pé
da grande serra
Continha
um grande arvoredo,
Era um
pé de trapiá
José
abrigou-se lá
Naquele
enorme degredo.
Às onze
horas do dia
José
fez a refeição,
Chegaram
dois canguçus
Nesta
mesma ocasião,
Vinham
estes canguçus
Arrebentando
os bambus
Que
pareciam um dragão.
Um
investiu a José
Mas ele
muito ligeiro,
Em cima
do peito esquerdo
Disparou
o granadeiro,
Ele
tombou e caiu
José de
Sousa sorriu
Fez
como 01 homem guerreiro.
O outro
logo enfrentou
José de
Sousa Leão,
Logo na
primeira tapa
Tomou-lhe
logo o facão,
Mariquinha
aí gritou
José o
cachorro chegou,
Segure
o punhal na mão.
José
puxou o punhal
E fez
que nem deu cavaco,
A fera
partiu pra ele
José
como um macaco,
Veloz
igual a giranda
Torceu
o corpo de banda
Cravou-lhe
bem no suvaco.
O tigre
deu um esturro
Que a
terra estremeceu,
O
cachorro ferrou nele
E o
tire esmoreceu,
José
pegou-lhe na cauda
Deu-lhe
outra punhalada
O tigre
velho morreu.
José
disse: - Mariquinha,
É tarde
vamos embora,
Mas
outro homem não fez
A cena
que fiz agora,
Em
qualquer ato ruim
Basta
eu ter só por mim
Jesus e
Nossa Senhora.
José
seguiu a viagem
Quando
foi no outro dia,
Seu
cavalo fracassou
Numa
grande travessia,
Já com
cem léguas distante
O seu
cavalo importante
Morreu
não fez covardia.
Onde o
cavalo morreu
Perto
tinha uma choupana,
Morava
nela um caboclo
Chamado
ele Santana,
Sem
barba, calvo e franzido
Tinha
um olho ruído
Sem um
sinal de pestana.
José
pediu ao caboclo
--Eu
quero aqui um lugar,
Aonde
ninguém me veja
Que eu
possa descansar,
Desculpe
eu incomodá-lo
Vá me
comprar um cavalo
Custe
lá o que custar.
Dou-lhe
quinhentos mil réis
Dizendo:
- Confio em ti,
Compre
um cavalo bom
Traga
ele até aqui,
Enquanto
eu tenho descanso,
Eu
quero ver se alcanço
As
terras do Cariri.
O
caboclo levou José
Pra
dentro dum palmeiral,
E lhe
disse: - Fique aqui
Que não
lhe sucede mal,
Podem
dormirem até
Pediu
dinheiro a José
E foi
comprar o animal.
José
para a viagem
Tinha
dinheiro na bolsa,
Coragem
e disposição
Robustez
e muita força,
Pra
defender sua esposa
Deixamos
José de Sousa
Tratamos
no pai da moça.
Quando
o dia amanheceu
O
capitão foi narrar,
A falta
que José fez
--Com
hei de passar,
Disse a
velha: - Mariquinha
Não
está na camarinha
Só
mandando procurar.
Faltam
três vestidos dela
O
chapéu e a bolsinha,
Ela em
casa não está
Já
procurei na cozinha,
Não sei
isso o que é
Meu
velho e foi José
Que
carregou Mariquinha.
O
capitão deu um esturro
Que a
terra estremeceu,
Uma
dama desmaiou
Uma
moça adoeceu,
A negra
ficou doente
Tinha
um leão na corrente
Quebrou
os ferros e correu.
Disparou
o granadeiro
Que os
rochedos abalaram,
Vinte e
cinco cangaceiros
Neste
momento chegaram,
Prontos
para execução
--O que
há seu capitão?
Todos
assim perguntaram.
O
capitão Oliveiros
Disse:
- O diabo se soltou,
O cabra
José de Sousa
Que
tanto me trabalhou,
Me
carregou Mariquinha
Tanto
amor que eu lhe tinha,
Vejam
com que me pagou.
Um
cabra lhe disse: - Qual
Não é
nada capitão,
O que
quiser que se faça
Nos dê as
ordens patrão,
O
capitão deu uns ais
Dizendo:
- Vão atrás
Daquele
cabra ladrão.
Matem
aquele infeliz
Deixem
o urubu comer,
E matem
José de Sousa
Suceda
o que suceder,
Não
façam gosto a nenhum
A
orelha de cada um
É só o
que quero ver.
Cinco
cabras dos perversos
Seguiram
pela batida,
Dizendo:
- Vamos pegá-los
No
descanso ou na dormida,
Daqui
para o Ceará
E o
capitão ficou lá
Como
fera destemida.
Prosseguiram
no roteiro
Pela
mesma travessia,
Com
quatro dias e meio
Às onze
horas do dia,
Quase
no fim da semana
Saíram
na tal choupana
Que o
caboclo residia.
Perguntaram
ao caboclo
Quem
foi que passou aqui,
De
ontem para hoje?
Disse o
caboclo: - Eu vi,
E estão
ali por traz
Uma
moça e um rapaz
Que vão
para o Cariri.
O
caboclo foi mostra-los
Como
falso traiçoeiro,
Dizendo
ele: - José morre
E eu
fico com o dinheiro,
Com
este plano os mostrou
Mas o
feitiço virou,
Por
cima do feiticeiro.
José
disse: - Mariquinha
Creio
que estamos cercados,
Por
cabras do capitão
Se
deite e tenha cuidado,
Que vou
enfrentar a luta
Aqui
dentro desta gruta
Eu
brigo entusiasmado.
Os
cabras então detonaram
Cinco
tiros duma vez,
José de
Sousa Leão
Deitou-se
com rapidez,
Fez
tática pra não morrer
Faz
pena até se dizer
O
estrago que José fez.
José de
Sousa gritou:
--Abram
os olhos canalha,
Vinte
cabras de vocês
Ainda
não me atrapalha,
Disparou
o granadeiro
Matou
até o derradeiro
Só um
tiro de metralha.
O
caboclo estava perto
Vendo a
destruição,
Disse:
oh! José danado
Aquele
homem é o cão,
Eu aqui
não fico em paz
O
cachorro correu atrás
Bateu
com ele no chaão.
O
miserável do caboclo
Gritava
de fazer dó,
José de
Sousa na beca
O
cachorro no mocotó,
Também
atrás de rasga-lo
José
antes de mata-lo
Deu-lhe
muito de cipó.
José
desceu-lhe o facão
Abriu-lhe
a cabeça bem,
Então
disse a Mariquinha:
--Um
facão assim convém,
Agora
estou descansado
Este
caboclo danado
Não é
mais falso a ninguém.
Mariquinha
se vexou
Reclamando
a sorte dela,
José
entrar em trabalho
Numa
batalha daquela,
Com
pena de seu amante
Eu
achei interessante
O que
José disse a ela.
José
disse: - Mariquinha
Não
queira se arrepender,
Quem
vai ao campo da luta
Perde o
medo de morrer,
Eu
brigo com um batalhão
Mato
até o capitão,
Me
desgraço por você.
Nós
vamos agora mesmo
Aquela
povoação,
Casaremos
com urgência
De lá
vamos ao capitão,
Com a
maior brevidade
De
gosto ou contra vontade
Ele lhe
bota benção.
Chegaram
em S. Francisco
Se
dirigiram a Matriz,
O
sacristão mandou logo
Chamar
o padre Luiz,
Ele fez
o casamento,
Receberam
o sacramento
Oh! Que
momento feliz.
O
delegado indagou
José de
Sousa quem era,
Ele
disse: - Sou um ente
Pior
que a besta fera,
Não
presto nem pra morrer
O
delegado disse: - O que!
--Estou
falando devera!
José de
Sousa ameaçou-lhe
Na boca
do granadeiro,
O
delegado disse: - Vôtes
Este
homem é cangaceiro,
O padre
correu da Matriz
Muito
assombrado e não quis
Mais
receber o dinheiro.
José de
Sousa seguiu
Não
achou com quem brigar,
Dizia:
- Tenho certeza
Que vou
morrer ou matar,
Se o
espírito não me engana
Eu sei
que o velho se dana
Na hora
que nós chegar.
José
tinha comprado
Outro
cavalo passeiro,
Quase
bom como o outro
Que
galgava tabuleiro,
Moderno
brando e macio
José
dizendo: - Confio,
Somente
no granadeiro.
O
capitão tinha pedido
Uma
xícara de café,
Assentado
no terraço
Quando
ouviu um tropé,
Da casa
se aproximando
Lá
vinha urgente chegando
Mariquinha
mais José.
José
urgente saltou
Do seu
cavalo no chão,
Escalou
o granadeiro
Em cima
do capitão,
Fazendo
uma manilha
- Bote
a bênção em sua filha
Me diga
se bota ou não!
O
capitão disse: - Eu boto
A velha
disse: - Eu também,
Abraçaram-se
ali todos
O
capitão disse: - Bem,
Agora
bateu o jogo
És meu
genro, eu sou teu sogro
Nas horas
de Deus amém!
A velha
abraçou José
Deu-lhe
um aperto de mão,
O velho
também lhe disse:
--Agora
não há questão,
José é
rapaz direito
Estou
muito satisfeito
Temos
um genro valentão.
Oliveiros
de Vasconcelos
Era o
nome do capitão,
A sua
esposa, Dalila
Maria
da Conceição,
Maria
Nunes Clemente
Era a
mulher do valente
José de
Sousa Leão
FIM
FIM
HISTÓRIA DE ZÉ GARCIA
(João Melquíades Ferreira)
Quando o Tenente Garcia
Era um
rico fazendeiro,
Que
havia no Seridó
Um dos
seus filhos solteiros,
Foi um
dia caluniado
Por
filha dum cangaceiro.
Militão
o pai da moça
Era um
estrompa malvado,
Foi à
casa do Tenente
Comandando
1 grupo armado,
Lhe ameaçando
vingança
Sem se
achar agravado.
Militão
disse ao Tenente:
--Só venho
aqui lhe dar parte,
Que o
seu filho Zé Garcia
Há
pouco fez uma arte.
Ou casa
com minha filha
Ou com
esse bacamarte.
---Seu
Militão não precisa
Me
gritar com armamento,
Eu vou
saber do meu filho
Se a
queixa tem fundamento,
Se o
rapaz dever a moça
Eu
farei o casamento.
A tarde
José Garcia
Chegou
duma vaquejada,
Com uns
60 vaqueiros
Na frente
uma guiada,
Galopando
em seu cavalo
No
coice duma boiada.
Depois
da ceia o Tenente
Chamou
o filho razão,
Então
lhe disse: - José
Agora
estamos em questão,
O que é
que estás devendo;
A filha
de Militão?
Respondeu
José Garcia:
---A
ela não devo nada,
Eu
nunca dei atenção
Aquela
moça acanalhada,
Minha
consciência é limpa
Muito
desembaraçada.
---Então
você se previna
A coisa
está perigosa,
Siga
hoje mesmo à noite
Em
viagem mui penosa,
Vá ficar no Piauí
Em casa
de Miguel Feitosa.
---Meu
pai eu lhe obedeço
Como
filho de benção,
Só subo
ao Piauí
Para
evitar a questão,
Mas
também não tenho medo
Do
bandido Militão.
---Leva
contigo um negro
Servindo
de arreeiro,
Basta
levar duas cargas
Mas
vinte contos em dinheiro,
Contanto
que te ausentes
Da
vista do cangaceiro.
Zé
Garcia abraçou seu pai
Sua mãe
muito chorosa,
Disse o
velho: --- Vá com Deus
E a
virgem poderosa,
Lá
entregue esta carta
Ao
capitão Miguel Feitosa.
A serra
do Araripe
Zé
Garcia descambou,
Penetrou
no Piauí
Em
poucos dias chegou,
Ao
Capitão Miguel Feitosa
Uma
carta lhe entregou.
O
Capitão leu a carta
Era
assim a narração:
“—Excelente
e caro amigo,
Entrego
em vossa mão,
O meu
filho por uns tempos
Devido
a uma questão.
A filha
de um capanga
Veio a
mim se queixar,
Que meu
filho deve a ela
Para
obriga-lo a casar,
Mas é
falso testemunho
Que a
cabrita quer formar.
Tua
casa tem respeito
Eu te
fico agradecido,
Que meu
filho fique aí
Até
ficar decidido,
Porque
se houver processo
Eu o
deixo destruído.
Disse o
Capitão Feitosa:
--Moço
eu estou informado,
Tome
conta desse quarto
Pode
ficar descansado,
Que
aqui em minha casa
O
senhor está guardado.
Era no
mês de novembro
No
Piauí já chovia,
E o
capitão Feitosa
Ordenou
no outro dia,
Começar
a vaquejada
Encurralar
a vacaria.
Reuniu-se
a vaqueirama
Na casa
do capitão,
Feitosa
saiu na frente
Arrastou
seu esquadrão,
Foram
arrebanhar o gado
Alegria
do sertão.
Zé
Garcia ficou triste
Junto
do curral pensando,
Passando
um lenço nos olhos
Porque
estava chorando,
A
saudade do Seridó
Estava
lhe apertando.
No
sótão tinha uma moça
Olhando
duma janela,
Viu Zé
Garcia chorando
Por
trás de uma cancela,
Era a
filha do Feitosa
Mas o
rapaz não viu ela.
A moça
desceu do sótão
Com o
coração nervoso,
Disse:---Mamãe
Zé Garcia
O moço
está desgostoso,
Porque
vi ele chorando
Muito
triste e pesaroso.
Depois
o Garcia estava
Cá no
alpendre sentado,
Saiu-lhe
a dona da casa
Examinou
com cuidado,
Viu que
os olhos do moço
Pareciam
ter chorado.
Dona
Jovita Feitosa
Perguntou
impaciente,
--Senhor
Garcia me diga
Se aqui
caiu doente,
Desculpe
lhe perguntar
Mas
quero ficar ciente.
Zulmira
era a mocinha
Que
também se interessava,
Perguntou
a Zé Garcia
Por
qual motivo chorava,
Sem
dúvida por um amor
Que no
Seridó ficava.
Zé Garcia
respondeu:
---Eu
fico aqui demorado,
Em casa
do seu Feitosa
Estou
muito consolado,
E tenho
gozado saúde
Neste
clima temperado.
Feitosa
com o seu povo
Depois
de andar patrulhando,
Arrebanhado
o seu gado
À tarde
iam chegando,
Na
porteira do curral
Garcia
estava aboiando.
Á noite
quando Feitosa
Se
achava descansando,
Chegou-se
dona Jovita
Que
estava lhe contando
Que
Zulmira tinha visto
José
Garcia chorando.
Feitosa
muito vexado
Perguntou
ao Zé Garcia.
Se ele
estava doente
Qual
era o mal que sentia,
Fosse
um rapaz positivo
Não
usasse de mania.
Respondeu
José Garcia:
---Porque
sou acostumado,
Na
fazenda do meu pai
Campear
atrás de gado,
Aqui
neste Piauí
Me
considero privado.
---Senhor
Garcia eu também
Posso
lhe oferecer,
Os meus
cavalos de campo
O
senhor pode escolher,
Aquele
que lhe agradar
Amanhã
vá espairecer.
Garcia
abriu a mala
Na qual
estava guardado,
A
vestimenta de couro
Bom
guarda peito arreiado
Porque
o vaqueiro lorde
Faz de
couro de veado.
Feitosa
ficou em casa
Deu
ordem a Zé Garcia,
Que
chefiasse os vaqueiros
Para o
campo nesse dia,
Até no
fundo do pasto
Do gado
bravo que havia.
Garcia
chegou no campo
Correndo
atrás do gado,
Precipitava
o cavalo
Dentro
do mato fechado,
Deu muita
queda em garrote
Como um
rapaz traquejado.
Na
frente do gado bravo
Espirrou
um barbatão,
Garcia
chegou-lhe o cavalo
Queria
pegá-lo a mão,
Perdeu
o touro de vista
A
carreira foi em vão.
Disse
um vaqueiro ao Garcia
---Vês
aquele barbatão?
É o
touro “Saia Branca”
Pertencente
ao capitão,
O
fantasma dos vaqueiros
E o
orgulho do sertão.
---Chegaram
aqui três vaqueiros
Do
Estado do Ceará,
Sabiam
de orações fortes
Tinham
mais um patuá,
O Saia
Branca os deixou
Presos
em um cipoá.
---Se o
senhor tem coragem
De
pegar o barbatão,
Hoje
mesmo vou dizer
Para o
nosso capitão,
Seu
nome vai ser falado
Em todo
este sertão.
---Se o
capitão na fazenda
Tiver
cavalo aprovado,
Inda
mesmo o barbatão
Correndo
como veado,
Eu me
atrevo a pegá-lo
No
espinhal mais fechado.
Á noite
um dos vaqueiros
Estava
pronto a contar,
E disse
senhor Feitosa:
---Eu
só vim lhe avisar,
Que o
barbatão “Saia Branca”
Zé
Garcia quer pegar.
O
Feitosa admirado
Perguntou
a Zé Garcia,
---Se o
homem do Seridó
No
Piauí se atrevia,
A pegar
um barbatão
Que
outro não garantia.
Garcia
disse ao Feitosa
---Se a
fazenda do capitão,
Tem
cavalo corredor
Nas
caatingas do sertão,
Eu vou
ver se me atrevo
A pegar
o barbatão.
Chamou
Feitosa os vaqueiros
Na
manhã do outro dia,
Disse:---Vão
encurralar
A minha
cavalaria,
Para
escolher o cavalo
Que
agrade a Zé Garcia.
Os
cavalos do Feitosa
Cada um
encurralado,
Começou
José Garcia
Escolhendo
com cuidado,
Procurando
por sinais
Os
cavalos bons de gado.
Então
disse Zé Garcia:
---Este
cavalo cinzento,
Não tem
carreira puxada
Porque
não tem talento,
Esse
rosilho pelado
É um
lerdo sem alento.
Este
castanho amarelo
É um
cavalo afrontado,
E este
cavalo pampo
Não
pode ser bom de gado,
Aquele castanho
escuro
Tem o
mocotó inchado.
Este
russo apatacado
Aguenta
meia carreira,
Este
cavalo melado
Fica
doido na madeira,
Este
pedrês já foi bom
Mas já
está com gafeira.
Este
cavalo rudado
No
limpo corre sem trégua,
Este cardão
barrigudo
Se
parece com uma égua,
Este
ruço couro branco
É um
cansado de légua.
Aqui
falou o Feitosa
Bradando
muito zangado:
---Garcia
por caridade
Se faça
mais delicado,
Não
difame meus cavalos
Que
todos são bons de gado.
---Senhor
Feitosa seus cavalos
Os bons
eu digo quais são,
Para
derrubar no limpo
Correr
em apartação,
Mas não
tem um que aguente
A
carreira do barbatão.
Se o
senhor tem cavalos
Pode
mandar ajuntar,
Que o
barbatão Saia Branca
Minha
vontade é pegar,
Que homem
do Seridó
Não
promete pra faltar.
---Meus
cavalos bons de gado
O
senhor levou a trote,
Cavalo
e burro de carga
Ainda
tenho um magote,
Gritou
Feitosa:--- Vão ver
Agora o
resto do lote!
Depois
entrou no curral
Junto
com a bestaria,
Um
cavalo de peito e anca
Pelos
sinais prometia,
Logo à
primeira vista
Agradou
a Zé Garcia.
Zé
Garcia rebolou
O
chapéu para tanger,
O
cavalo se espantou
Depois veio
reconhecer,
Porque
cheirou o chapéu
Coragem
dando a entender.
Disse Garcia:-
- Já posso
Garantir
ao capitão,
Que o
castanho amarelo
Pega
qualquer barbatão,
Mesmo é
o melhor cavalo
Criado
neste sertão.
Disse o
Feitosa:-- Eu também
Não
digo se é exato,
Que
esse cavalo é bravo
Pula mais do que um gato,
Pula mais do que um gato,
Não é
da minha fazenda
É do
coronel Cincinato.
---Para
o dono está perdido
Lhe
digo qual razão,
Todo
vaqueiro tem medo
De
montar esse poltrão,
Quem
montar nesse cavalo
Ele
sacode no chão.
---Nas
matas mais temerosas
O bicho
bravo se tranca,
Se o
capitão conceder-me
Uma
licença mais franca,
Eu
amanso esse cavalo
E vou
pegar Saia Branca.
---Se o
senhor tem coragem
De
amansar esse poltrão,
Amanhã
pode montar
Entrego-o
na sua mão,
Porém
fique na certeza
Que seu
quengo vai ao chão.
No
terreiro do Feitosa
O povo
tinha chegado,
Ás seis
horas da manhã
Tinha
um cavalo selado,
Garcia
ia montar
Já se
achava encourado.
No
cabresto do cavalo
Cinco
homens sustentavam,
Quando
Garcia montou
No
cavalo que estribava,
Gritando:---Larga
o cabresto
Já o
cavalo saltava.
Levantou-se
o cavalo
Saltando
com Zé Garcia,
Que
furava-o de espora
E com
chicote batia,
O rapaz
era seguro
Da sela
não se movia.
Zé
Garcia pelejou
Para amansar
o cavalo,
Quinze
dias de repuxo
Aguentando
grande abalo,
Mas só
no fim de um mês
Acabou
de amansá-lo.
O
Feitosa perguntou,
Por
esta ocasião:
---Senhor
Zé Garcia, quando
Será o
dia então,
Que o
senhor se dispõe
A pegar
o barbatão?
---Precisa
mais quinze dias
Para
haver ajuntamento,
Somente
enquanto o cavalo
Descansa e cobra alento,
Descansa e cobra alento,
Deixa
estar,do “Saia Branca”
Eu
quebro o encantamento.
Apareceram
três homens
Com
inveja e ambição,
Falando
contra o Garcia
Dizendo
ao capitão,
Que o
Garcia ia fugir
Não
pegava o barbatão.
Era
Chico Banda Fora
Um tal
Manoel Gavião,
Um
Juvêncio Parnaíba
Fazendo
conspiração,
Que o
Garcia ia furtar
O
cavalo do capitão.
Feitosa
mal satisfeito
Aborrecido
dizia:
---Ainda
não encontrei
Uma
falta em Zé Garcia,
É de
uma família rica
Dele
ninguém desconfia.
---Se
vocês tem a certeza
Que o
rapaz é ladrão,
Banda
Fora e Parnaíba
E seu
Manoel Gavião,
Sigam
atrás do Garcia
Na pega
do barbatão.
Então
no dia marcado
Pegou a
chegar vaqueiros,
Espernegando
os cavalos,
Cento e
vinte cavaleiros
Veio o
coronel Cincinato
O maior
dos fazendeiros.
Das
famílias sertanejas
A mais
rica e poderosa,
Do
coronel Cincinato
Trouxe
uma filha formosa,
Que era
a flor das donzelas
Seu
nome era Sinforosa.
Feitosa
com os vaqueiros
Estavam
prontos esperando,
Garcia
bem encourado
Seu
cavalo preparando,
Zulmira
mais Sinforosa
Da
janela observando.
Todos
montaram a cavalo
Feitosa
puxou a guia,
Em
busca do gado bravo,
Que o
barbatão existia
Os
vaqueiros invejosos
Não
largavam Zé Garcia.
Feitosa
com os vaqueiros,
Depois
de terem avançado,
Chegaram
no fim dos pastos
Viram o
arranco do gado,
O
barbatão ia na frente
Já
correndo adiantado.
Garcia
pela esquerda
Corria
se desviando,
Queria
correr sozinho
Saiu do
meio do bando,
Mas
sentiu três calaveiros
Que iam
lhe acompanhando.
Garcia uma
jurema
Tamgeu
com má intenção,
Uma
galhada de espinhos
Que
laçou Manoel Gavião,
Esfolou-lhe
a cara e um braço
Deixou-o
caído no chão.09
Garcia
açoitou de novo
Um
calumbi esgalhado,
Que
batendo em Banda Fora
Foi da
sela arrebatado,
Ficou
berrando: --- Me acudam!
Pelos
pés dependurado.
O
Juvêncio Parnaíba
Recebeu
naquela hora,
Uma
lapada na cara
Que o
chapéu voou fora,
Caiu do
cavalo abaixo
Enganchado
na espora.
Quando
o Garcia deixou
Os três
sujeitos no chão,
Puxou
pelo seu cavalo
Alcançou
o barbatão,
Correra
de mata a dentro
Como um
vento furacão.
Subiram
por uma serra
Já iam
em toda carreira,
Desceram
por uma furna
Passando
em uma pedreira,
O boi
saltou um riacho
De cima
da cachoeira.
Saltou
também o cavalo
Causando
admiração,
Os
sapatos do Garcia
Deixaram
os rastros no chão,
O cavalo
saiu mordendo
A anca
do barbatão.
Garcia
pegou o touro
Na mão
a cauda enrolou,
Atirou-o
de serra abaixo
Deu um
soco o derrubou,
A fama
do barbatão
Neste
dia terminou.
Feitosa
com o seu povo
Passaram
por Gavião,
Banda
Fora e Parnaíba
Todos caídos no chão,
Todos caídos no chão,
Seguiram
na buraqueira
Do
cavalo e o barbatão.
Quando
deram na pedreira
Disseram:
--Temos demora,
Por
aqui ninguém não passa
Vamos
rodear por fora,
Garcia
passou aqui
Como
bala nessa hora.
Depois
mediram a distância
Que o
cavalo saltou,
Contaram
quarenta palmos
Feitosa
se admirou,
E
disse:--Não tenho cavalo
Que
passe onde esse passou.
Continuaram
no rastro
Adiante
foram avistando,
José Garcia
sentado
E um
cigarro fumando,
O
cavalo muito suado
E o
touro varejando.
Feitosa
e o Cincinato
Abraçaram
Zé Garcia,
Dizendo:
--- Tu és o rei
Dos
vaqueiros de hoje em dia,
Pois o
que fizeste hoje
Outro
homem não faria.
Mandaram
levar em carga
A carne
do barbatão,
Em casa
de Miguel Feitosa
Cresceu
a reunião,
Foram
chamar os cantores
Beira
D`água e Mandapulão.
A noite
os dois cantadores
Discutiam
em cantoria,
Elogiaram
os rapazes
A graça
da moçaria,
Davam
viva ao capitão
Dando
fama a Zé Garcia.
Estava
em cima do sótão
A
Zulmirinha Feitosa,
Se
embalando numa rede
Deitada
com Sinforosa
Que
gritavam os rapazes
Porque
eram vaidosas.
---Sinforosa
tu não viste
Aquele
rapaz barbado,
Que
fumava num cachimbo
Olhando
para o teu lado?
Queria
te dar um cravo
Contigo
estava animado!
---Zulmirinha,
não me fale
Naquele
tipo imoral,
Aquilo
é meu parente
Mas é
sujeito brutal,
Quer
namorar com as moças
Dê por
vista um animal.
---Ele
está vestido agora
De
casaco encoletado,
De
chapéu de copa alta
Calça
curta engravatado,
De
alpalgatas nos pés
É
capangue descarado.
---Aquilo
já vem de raça
O pai
dele numa eleição,
Foi
vestido de camisa
E
ceroula de algodão,
Lá só
não fez um discurso
Porque
não deram atenção.
---Rapaz
deste Piauí
Não
sabe se ajeitar,
O
cabelo cobre as orelhas
Passa
um ano sem cortar,
Assim
mesmo acanalhado
Só
conversa em se casar.
---O
povo do Seridó
Traja
bem na fantasia,
Admirou-me
a decência
Da
roupa de Zé Garcia,
Aquele
sim é um rapaz
Que as
moças tem simpatia.
Sinforosa
e Zé Garcia
Vivem
prestado atenção,
Ao
livro de Carlos Magno
Lêem
até por distração,
Fala na
princesa Angélica
Como
casou com Roldão.
Sinforosa
suspirou
Com a
face mais corada,
Zulmira
apertou-lhe a mão
Dando
uma gargalhada,
E
disse:--Já conheci
Que
estás enamorada.
Chamava
ao pé da escada
Dona
Jovita Feitosa,
---Meninas
desçam daí
Acabem
com esta prosa,
Os cantadores
estão chamando
Por
Zulmira e Sinforosa.
Com pouco
as duas moças
Já
brilhavam no salão,
A cada
um dos cantadores
Deram o
seu patacão,
Nos
tamboretes da sala
Foram
tomar posição.
A
Sinforosa foi sentar-se
De
frente com Zé Garcia,
E o
olhar da donzela
Somente
se dirigia,
Pra o
moço do Seridó
Que
também correspondia.
Finalmente
no outro dia
A
Zulmirinha Feitosa,
Foi ao
quarto de Garcia
Junto
com a Sinforosa,
Tomar
um livro emprestado
Que
ensina cena amorosa.
O
pessoal do banquete
Já
havia se retirado,
Os
velhos donos da casa
Foram
descansar do enfado,
Nessa
hora foi Garcia
Pelas
moças visitado.
Garcia
dizia às moças:
---Todo
o meu contentamento,
É em
dona Sinforosa
Imagem
do pensamento,
Aproveitemos
à hora
Ajustemos
o casamento.
Sinforosa
respondeu:
---É um
rapaz bem famoso,
Mas
para casar comigo
Eu acho
muito custoso,
Somente
porque papai
É um
homem perigoso.
---O
meu pai governa aqui
Um
bando de cangaceiros,
E
possui vinte fazendas
É
orgulhoso em dinheiro,
Tem um
negro que adivinha
É um
fino feiticeiro.
---O
senhor casa comigo
Visto
ser rapaz solteiro,
Se
tiver muita coragem
Cavalo
bom e dinheiro,
Para
fugirmos daqui
E
correr um mês inteiro.
Respondeu-lhe
Zé Garcia:
---Eu
sou homem a toda hora,
Não
tenho medo de nada
Quero é
saber da senhora,
Se
quiser casar comigo
Vamos
do Piauí embora.
---Eu
tenho muita vontade
Lhe
digo de coração,
Quando
arrumar os cavalos
E
dinheiro no matulão,
Fugiremos
do Peuaí
A bem
de nossa união.
Desde
aí se combinaram
Que Sinforosa
fugia,
E noivo
para Zulmira
Muito
em breve aparecia,
Que
Zulmira se casava
Com o
irmão de Zé Garcia.
Quem
tinha cavalos bons
Garcia
ia compra-los
De
vinte em vinte léguas
Deixava
cinco cavalos,
Para o
dia que fugissem
Ninguém
poder mais pegá-los.
Garcia
foi ao Seridó
Deixou
a preparação,
Fez uma
sociedade
Com
Lourival seu irmão,
Subiram
ao Piauí
Comprar
gado no sertão.
Os
Garcias no Piauí
Fizeram
logo um contrato,
De
comprar toda boiada
Do
coronel Cincinato,
Começou
a descer gado
Comprado
muito barato.
A
vaqueirama nos campos
No
maior divertimento,
Arrebanhando
o gado
E
fazendo ajuntamento,
Os
Garcias tomando nota
E
fazendo o pagamento.
Na
fazenda do Feitosa
Havia
uma apartação,
Zé
Garcia no cavalo
Que
pegou o barbatão,
Deu
muita queda em garrote
Naquela
vadiação.
Nesse
dia combinaram
Garcia
mais Sinforosa,
O seu
irmão Lourival
Raptar
Zulmira Feitosa,
Do
sábado para o domingo
Fugida
bem temerosa.
Sinforosa
disse aos Garcias:
---Não
tem mais que avisá-los,
Esperem
atrás do curral
Já
prontos com os cavalos,
Eu saio
com Zulmirinha
A
primeira voz dos galos.
No
ponto estavam os Garcias
Cantaram
os galos na hora,
Sinforosa
e Zulmirinha
A meia
noite sai fora,
Disseram
logo aos Garcias
Fujamos,
vamos embora.
Zé
Garcia tomou conta
Da
donzela Sinforosa,
Lourival
pegou na mão
De
Zulmirinha Feitosa,
Disseram
adeus Piauí
Terra
de moça formosa!
Amanheceu
o domingo
Em casa
de Miguel Feitosa,
Não
foram vistos os Garcias
Nem
Zulmira e Sinfrosa,
Disseram:---Estão
dormindo!
Mocidade
preguiçosa!
As nove
horas do dia
O
almoço estava botado,
Foram
chamar os Garcias
O
quarto estava fechado
Jovita
subiu ao sótão,
Achou-o
desocupado.
Dona Jovita
desceu
Do
sótão, muito vexada,
Perguntou:
--- Homem, “quede”
Nossa
filhinha estimada?
Zulmirinha
foi embora,
Junto
com nossa afilhada.
Feitosa
tocou no búzio
Mandou
levar um recado,
Ao
compadre Cincinato
Dizendo:
--- Fique informado
Que
nossas filhas fugiram,
Vão em
busca doutro Estado.
O
coronel Cincinato
Distribuiu
armamento
Armou
cinquenta capangas
Marchou
logo em seguimento
Para a
casa do Feitosa,
Que era
um sanguinolento.
Formaram
60 jagunços
Na casa
do capitão,
Para
montar a cavalo
Com
armas e munição
Disseram:
--- É uma guerra
Que vai
se haver no sertão.
Disse
Chico Banda Forra:
--- Não
creio nessa vantagem,
Porque
o José Garcia
Tem
muito plano e coragem
Eu já
sei que este povo,
Vai é
perder a viagem.
--- Eu
fui atrás do Garcia
Na pega
do barbatão,
Mas
Juvêncio Parnaíba
E
Manoel Gavião,
Garcia
quase nos mata...
E não
tivemos razão!
O Negro
de Cincinato
Fez
mesa de bruxaria:
E
disse: --- Eu acho custoso
Se
pegar o Zé Garcia
Já vão
com 23 léguas,
Passando
uma travessia.
---As
duas moças montadas
Em
cavalos de cilhão,
Um
negro com uma carga
De baú
e matulão,
Sinforosa
no cavalo,
Que
pegou o barbatão.
O sol
estava se pondo,
O
créspulo ainda fora,
Os dois
chefes se vexaram
Dizendo:
---Vamos embora
Os
Garciais já vão longe.
Mas
eles nos pagam agora.
Seguiram
em toda carreira
Os
chefes se adiantando
Alguns
montados a jumentos
Os
burros se acuando
Aqui,
ali demoravam
Uns
pelos outros esperando.
Cincianato
e o Feitosa
Em sua
perseguição.
Nas
partes onde passavam
Pediam
informação.
De dois
rapazes e duas moças
Que
fugiram do sertão.
Passaram
no Araripe
Na casa
de um fazendeiro
A
noite, estavam hospedados,
Tiveram
o melhor roteiro
Dos
rapazes e das moças,
E o
negro bagageiro.
Lhe
disse a dona de casa:
---
Senhor capitão Feitosa,
Aqui
dormiram duas moças
Zulmirinha
e Sinforosa,
Presentearam
meus filhos,
Já vi
que moças mimosas!
--- Os
dois moços se pareciam
Disseram
que era irmãos.
A cada uma
das crianças
Eles
deram um patacão,
Foram
casar no Seridó
Depois
voltam ao sertão.
---
Saíram ontem daqui
Quando
amanheceu o dia,
As
moças mudaram de roupa
Vestiram
as da montaria
Deixaram
cinco cavalos,
Por
ordem de Zé Garcia.
Disse o
coronel Cincinato:
---
Levante o acampamento,
Devemos
a toda pressa,
Botar
logo um impedimento
Se não
os Garcias casam.
Nem nos
dão conhecimento.
Os
Garcias em Cajazeiras
Fizeram
logo uma ação.
Chegaram
aos pés do Padre
Despejaram
um matulão
Que
estava cheio de dinheiro,
Voando
as notas no chão.
O padre
disse: --- Meninos
Para
que tanto dinheiro?
Se tem
negócio comigo
Digam o
motivo, primeiro;
De onde
vêm essas moças,
Fugindo
assim tão ligeiro?
Respondeu
José Garcia:
--- Eu
fui com o meu irmão,
Ao Piauí
comprar gado
Que é
nossa transação
Lá
raptamos estas moças,
Da casa
do capitão.
---
Atrás vem um coronel
Junto
com um capitão,
A fim
de tomarem as filhas,
Nos
fazer perseguição,
Rapaz
por moça bonita
Em
velho passa lição.
Disse o
padre:---Contem comigo
Eu
ajudo a dar o nó,
E sigo
com os senhores
No rumo
do Caicó,
Vou
fazer os casamentos
Lá
mesmo no Seridó.
Então
mudaram os cavalos
Conforme
quis Zé Garcia,
Selaram
outro cavalo
Do
padre da freguesia,
Seguiram
com o vigário
Cresceu
mais a companhia.
Os
jagunços do Feitosa
E do
coronel Cincinato,
Ficaram
em morro dourado
Escondidos
pelo mato,
Com
receio de trezentos
Capangas
do Viriato.
Cincinato
e o Feitosa
Passaram
em Mangabeiras,
Já
vinham sem os jagunços
Chegaram
nessas ribeiras
Perguntaram
pelo Padre
Da
cidade de Cajazeiras.
Disseram
que o vigário
Tinha
saído há três dias,
Em
viagem ao Seridó
Curar
noutras freguesias,
Para
fazer casamentos
Na
fazenda dos Garcias.
Os
chefes do Piauí
Perderam
a valentia,
Quando
chegaram à fazenda
Do
tenente João Garcia,
Pois
encontraram as filhas
Já
casadas nesse dia.
Sinforosa
mais Zulmira
Trajaram
véu e capelas,
Todo
povo comtemplava
A
beleza das donzelas,
Seus
noivos permaneciam
Sentados
juntinhos delas.
Cincinato
e o Feitosa
Quando
entraram no salão,
As
noivas se ajoelharam
Para
tomarem benção,
Os
velhos abençoaram
As
filhas de coração.
Cincinato
e o Feitosa
Falaram
amigavelmente,
Abraçaram
seus dois genros
De
acordo com o tenente,
Disseram:---Nossas
filhinhas
Casaram
decentemente.
Estava
um rapaz louro
Poeta
novo e letrado,
Com u`a
viola de duas boca
Canta
discurso rimado,
Hugolino
do Sabugi
Felicitando
o noivado.
Figuraram
nessa festa
Os três
homens de patente,
O
coronel Cincinato
O
capitão e o tenente,
Continuou
o banquete
Naquele
são decente.
Zulmirinha
e Sinforosa
Depois
da festa acabada,
Cada
uma tomou conta
De sua
casa arrumada,
Vizinha
uma da outra
Na
aliança acostumada.
Feitosa
mais Cincinato
Depois
de bem descansados,
Em casa
de suas filhas
Estavam
determinados,
Regressarem
ao Piauí
Alegres
e consolados.
O
coronel Cincinato
E o
capitão Feitosa,
Mandaram
a grande herança
De
Zulmira e Sinforosa,
Continuou
dos Garcias
A
família numerosa.
Num
bebedor de animais
Se
achava Zé Garcia,
Trepado
numa oiticica
Duma
ramagem sombria,
Metido
por entre as folhas
Que
debaixo ninguém via.
A filha
do Militão
Chegou
com um debochado,
Debaixo
da oiticica
Se
sentaram sem cuidado,
Sem
saber que o Garcia
Se
achava ali trepado.
Disse
Francisca Ramel:
---Joaquim
tenha sentimento!
Estou
engordando à força
O meu
bucho em crescimento,
Se
papai souber se zanga
Me peça
em casamento.
Tu tens
que casar comigo
Sabes
que sou tua prima,
Levantei
falso ao Garcia
Mas
você não me estima,
Quem
sabe que estou grávida
É quem
está lá de cima.
---Vagabunda
sem vergonha!
Gritou
logo Zé Garcia:
Eu não
sei de tuas misérias
Que há
tempo escondia,
Vou
descarar o teu pai
Com tua
patifaria.
Fugiu
Francisca Ramel
Em
busca duma camarada,
Chegando
no Caicó
Ficou
de casa alugada,
E o
Militão foi preso
Por
fazer muita zoada.
Então
correu a notícia
Que Zé
Garcia raptou,
Uma
moça do Piauí
Grande
perigo passou,
Chegando
no Seridó
A toda
pressa casou.
O seu
irmão Lourival
Conduziu
na mesma empresa,
Uma
filha do Feitosa
Admirava
a riqueza,
Dessas
moças que encheram
O
Seridó de beleza.
O
Militão cangaceiro
Que já
era intrigado,
Sabendo
que Zé Garcia
Agora
estava casado,
Garantiu
que ia mata-lo
Conforme
tinha jurado.
Assim
dizia Militão:
---Pois
o tenente Garcia,
Quer
ser melhor do que eu
Em
dinheiro e fidalguia,
Mas eu
sou um cangaceiro
Respeitado
em valentia.
Eu
posso bater nos peitos
Que sou
cangaceiro honrado,
Não me
lembro mais da conta
Das
surras que tenho dado,
Em
branco de olhos azuis
Em meus
pés ajoelhado.
---Eu
vou fazer tal barulho
Corre o
povo a noiva chora,
E eu
mato o Zé Garcia
De
chicote e palmatória
E me
monto no tenente
Rasgo-lhe
o bucho de espora.
---Depois
queimo-lhe a casa
Toco
fogo no algodão,
O
Garcia que escapar
Fica
com essa lição,
Nunca
mais enjeitará
Outra
filha de Militão.
Às
cinco horas da manhã
Quando
amanhecia o dia,
Chegava
um portador
Para o
tenente Garcia,
Prevenir
a sua casa
Porque
de nada sabia.
---Senhor
tenente Garcia
Eu só
vim lhe avisar,
(Assim
disse o cavaleiro)
Militão
vem lhe matar,
Está
juntando capangas
Para
vir lhe atacar.
---Vem
queimar a sua casa
Com o
paiol de algodão,
Acabar
com os Garcias
É toda
a sua intenção;
O
senhor não facilite
Com o
cabra Militão.
Então
disse o Zé Garcia
---Pai
me entregue a questão,
Que a
noite eu vou cercar
A casa
de Militão,
Ele tem
de vir nas cordas
Porque
é um valentão.
Às oito
horas da noite
Galopava
Zé Garcia,
Com
nove homens dispostos
Armados
a fuzilaria,
Encontraram
Militão
Descuidado
e sem espia.
Quando
ocultaram os cavalos
Foram
se aproximando,
Viram o
grupo de bandidos
No
terreiro vadiando,
Os
bacamartes encostados
E numa
viola tocando.
Uma
descarga tremenda
Os
bandidos receberam,
Gritaram:---Chegou
a tropa!
Deixaram
as armas, correram,
Seguiram
em busca da serra
Nas
grutas se esconderam.
Militão
não quis correr
Já ferido
numa mão,
José
Garcia pegou-o
Bateu
com ele no chão,
E
gritou: --- Tragam as cordas
Amarrem
este ladrão!
O
Militão quando viu-se
Preso
por um intrigado,
Inda
quis se estrebuchar
Mas já
estava amarrado,
Garcia
deu-lhe uma surra
Ficou
ele acomodado.
Disse
Garcia:---Bandido
Tu
querias dar-me fim?
Tua
filha é a parceira
Do
cangaceiro Joaquim,
Eu não
ia misturar-me
Com
família assim ruim.
---Vou
dar-te por despedida
Mais
uma surra de peia,
Te
despedes da cachaça
Do
roubo da casa alheia,
Digas
adeus ao sertão
Que
vais morar na cadeia.
Militão
foi amarrado
Levando
muito facão,
Chegaram
no Seridó
O
botaram na prisão,
Ali
findou os seus dias
O
bandido Militão.
Com
dois anos Zé Garcia
Tomou a
resolução,
De
subir ao Piauí
Com
Lourival seu irmão,
Para
visitar os sogros
Era
própria a ocasião.
Sinforosa
e Zulmirinha
Se
abraçaram de contentes,
Porque
iam ver seus pais
Visitar
a sua gente,
Na
terra onde nasceram
Para o
lado do poente.
Partiu
então Zé Garcia
Com o
seu acampamento,
Chegando
em Cajazeiras
Já
tinha conhecimento,
Dormiram
na casa do padre
Que fez
os seus casamentos.
Era dez
do mês de junho
Havia
leite e coalhada,
De
manhã tomaram café
Então
veio a cavalgada,
Preparou-se
a montaria
Para
seguir a jornada.
Se
despediram do padre
Com
abraço e aperto de mão,
E
seguiram em largos trotes;
Garcia
disse ao irmão:
---Vamos
gozar no Piauí
Uma
noite de São João.
Avançaram
até chegar
No
ponto mais desejado,
Nas
margens do Parnaíba
Onde se
cria muito gado,
Pegaram
Miguel Feitosa
Em casa
bem descuidado.
Na
chegada dos Garcias
Foi
grande a recepção,
Continuou
o banquete
Até a
noite de São João,
Cincinato
e o Feitosa
Gozando
a satisfação.
Quando
entrou o mês de julho
Foram
rebanhar o gado,
Escolhendo
boi de era
E
deixando encurralados,
E os
Garcias comprando
Pois
estava acostumados.
Lourival
e Zulmirinha
Ficaram
com seu Feitosa,
Em casa
de Cincinato
Ficou
dona Sinforosa,
José Garcia
desceu
Com
boiada volumosa.
José
Garcia baixou
Com seu
gado pela estrada,
Chegando
em Campina Grande
Vendeu
a sua boiada,
Voltou
para o Piauí
Ver sua
esposa adorada.
Zé
Garcia ia passando
Em um
deserto arriscado,
Saíram
três cangaceiros
O moço
estava emboscado,
E
Garcia estava só
Agora
ia ser roubado.
---Ou o
dinheiro ou a vida!
Abra
logo o matulão,
Acrescentou
um bandido:
---Mas
a minha opinião,
É que
se matarmos ele
Não
teremos perseguição.
Zé
Garcia respondeu:
---Não
faço história comprida,
Vou
entregar o dinheiro
Mas não
roubem a minha vida!
Você
morre:---Disse um:
Matar é
nossa medida.
Zé
Garcia ainda disse:
---Pois
visto eu ser cristão,
Desejo
me confessar
Me ouça
em confissão,
E perdoem
os meus pecados
Conforme
a religião.
Um
cangaceiro enxerido
Disse:---Então
pode rezar,
Eu
posso servir de padre
A fim
de lhe confessar,
Vamos
conte seus pecados
Eu
saberei perdoar.
Aqui
não disse:--- O Garcia
Me
confesso ali no mato,
Pecado
alheio tem segredo
Visto a
fineza do ato,
---Vamos
logo disse ele
Confesso
muito barato.
Garcia
disse ao ladrão:
---Aqui
vamos concordar,
Eu lhe
dou sessenta contos
Você
vai negociar,
Matamos
aqueles sujeitos
Que eu
só quero escapar.
---Você
com 60 contos
Para
viver tem dinheiro,
Vai ser
um negociante
Até no
Rio de Janeiro,
Melhor
ser um homem rico
Do que
ser um cangaceiro.
Disse o
bandido:---Está certo
E
voltou emparelhado,
O
ladrão sempre dizendo:
---O
homem está confessado,
Ouviu-lhe
logo dois tiros
Cada um
foi fuzilado.
Então
disse Zé Garcia:
---Ouça
outra confissão,
Eu
tinha três inimigos
Dois
estão mortos no chão
Agora
só resta um
Segure
o punhal na mão.
O
cangaceiro gritou:
---Você
quis me enganar!
Zé
Garcia respondeu-lhe:
---Eu
não vivo de matar,
Mas
quando a sorte me obriga
Eu luto
para escapar.
Se
travaram nos punhais
Combate
muito ligeiro,
Zé
Garcia apunhalou
Os
braços do cangaceiro,
E disse
depois:---Ladrão
Tu não
roubas meu dinheiro.
Botou-lhe
o pé no pescoço
O
bandido não fez ação,
Disse:---Estou
acostumado
A assinar
barbatão.
Vou
deixar o meu sinal
Nas
orelhas deste ladrão.
O ladrão disse não queira
Desgraçar-me
desse jeito,
Garcia
lhe respondeu:
---Você
perdeu o direito,
Lhe fez
o que bem queria
Dizendo:---Estou
satisfeito.
Garcia
montou a cavalo
Continuou
galopando,
Deixou
no meio da estrada
Um
roubador praguejando,
Com
dois cadáveres de lado
Os
urubus festejando.
Depois
do mês de São João
Garcia
fez despedida,
Voltando
do Piauí
Com sua
esposa querida,
Lourival
e Zulmirinha
Houve
choro na partida.
E
depois um aleijado
De
porta em porta pedia,
Quem
lhe dava uma esmola
Admirado
dizia:
---As
suas orelhas tem,
O sinal
de Zé Garcia!
Respondia
o ex-cangaceiro:
---Eu
mesmo fui o culpado,
Nas
matas do Ceará
Zé
Garcia foi cercado,
Morreram
meus companheiros]
E eu
escapei aleijado.
Continuou
Zé Garcia
Em São
João do Sabugi,
De ano
em ano visitava
Os
campos do Piauí
Como
topador de touro
Outro
igual não tinha ali.
F I M
F I M
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