segunda-feira, 6 de novembro de 2017

POETA RIBAMAR ALVES




















     José Alves dos Santos (conhecido como: Ribamar Alves) Nasceu na localidade Varjota munícipio de Timon – MA. Dia 17 de março de 1946, filho de Manoel Ferreira de Sousa e Maria Alves dos Santos. Foi Poeta repentista (cantador) cancioneiro e cordelista, escreveu folhetos em cordel, poemas vaquejadas e canções, entre elas destacamos: “Casa no espaço, Se eu pudesse voar, Só você serve pra mim, Nosso amor nasceu assim, Ausente da liberdade, Porque você não me quer, Homenagem a minha viola, Vendo você.”  Poemas e vaquejadas destacamos: “Recordando Airton Sena, Pai falecido, Recordando a minha terra, Da Televisão pra cá, Declaração de vaqueiro, Eu nasci pra ser vaqueiro, Vaqueiro sente saudade, Vida e luta de Nonato”. E muitas outras! Ribamar viveu exclusivamente da profissão de cantador. Casou-se, com Maria de Fátima e tiveram 07 filhos, são eles: Elizabeth, Daniel, Teresa, José Carlos, Andréia, Adriano e Valquíria. Foi morador no Bairro São Benedito na Cidade de Timon , rua 15, onde a viúva ainda reside. Deixou gravações em sua voz feita em fitas cassetes, masterizadas mais tarde para Cds, com baixa qualidade por ser gravações feitas em gravadores muito usados nas décadas de 80 e 90. Recebeu uma Homenagem em 2007, da Casa do Cantador de Teresina, com a gravação de alguns trabalhos seus, em Cd, cantado por alguns poetas companheiros. Em 2008, Daniel Aracacy, Presidente da Fundação Municipal de Cultura, realizou o primeiro encontro de cantadores na praça do bairro São Benedito, fazendo uma homenagem a Ribamar, também foi feito o lançamento do Cd pelo Doutor Pedro Mendes Ribeiro, Presidente da AVIPOP – Associação dos Violeiros e Poetas Populares do Piauí.
            
              Faleceu, dia 11 de março de 1.999

terça-feira, 31 de outubro de 2017

VII FESTIVAL DE VIOLEIROS DE TIMON MARANHÃO






















Finalmente mais uma festa da Viola e Cantoria Nordestina, a poesia Popular invadindo a praça para delírios dos fãs da nobre arte de fazer versos. VII Festival de Violeiros de Timon - MA. Dia 04 de novembro de 2017, a partir das 19 horas. Na praça do Bairro São Benedito,  Timon, Estado do Maranhão. Cidade da região dos Cocais as margens do rio Parnaíba na divisão com o Estado do Piauí, ao lado de Teresina Capital do Estado do Piauí. O evento contará com a participação de mais de 10 duplas de repentistas. O festival é uma realização da ASPOPOT - Associação dos Poetas Populares de Timon e Região dos Cocais.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

TEXTOS DE CORDEL




















Combate de José Colatino

Com o Carranca do Piauí

João Melquíades Ferreira da Silva

    (O Cantor da Borborema)


Vamos ouvir a história
De um rapaz valentão,
Que andava de casa em casa
A procura de questão,
Era José Colatino
Que tinha essa intenção.

O capitão Deodato
Morava no Quixadá,
Era um homem muito rico
Dizia o povo de lá:
---Que sua família era
A melhor do Ceará.

O Capitão tinha uma filha
Mas se ouvia dizer,
---Que noivo para Chiquinha
Era difícil aparecer,
Parece que ele tinha
A filha para vender.
           
Depois de escolher noivos
Pela sorte ou destino,
Apareceu um rapaz
Mocinho quase menino,
Então casou-se Chiquinha
Com o José Colatino.

José era um rapaz que
Não tinha comportamento,
Antes de ser valentão
Justou logo o casamento,
Contava dezoito anos
Quase ainda em crescimento.

Chiquinha boa mulher
Tratava bem do marido,
Porém José Colatino
Empregou o seu sentido,
Arrotando valentia
Tornou-se um rapaz perdido.

Um dia José Colatino
Chegou à inclinação,
Disse: -- Chiquinha eu agora
Sou homem de posição,
Quem chegar em minha porta
É com o chapéu na mão.
                
Chiquinha disse: --- José
Repare primeiramente,
Olha que no Ceará
Tem muita gente valente,
Vamos fazer nossos queijos
Não queira ser insolente.

---Chiquinha eu tenho coragem
Fiado numa oração,
Quando boto – a no pescoço
Fico logo valentão,
Você vai ver este povo
Como me toma “a benção”.

Chiquinha pôs se a chorar
Com muita pena dizia:
---José eu tenho desgosto
Desta tua valentia,
Que só vem me dar trabalho
Casei porque não sabia.

Uma noite Colatino
Na festa do Quixadá,
Perdeu dinheiro no jogo
Pois não sabia jogar,
Fez o primeiro barulho
Deu começo ao seu azar.
                
José apagou a luz
Rasgou carta de baralho,
Virou mesa quebrou louça
Fazendo grande esbandalho,
Quis dar no dono da casa
Para mostrar seu trabalho.
Então o dono da casa
Não alisava menino,
Disse: -- Cabra malcriado
Eu quero dar- lhe um ensino,
Deu uma surra de pau
No tal José Colatino.

O Capitão Deodato
Ficou muito conspirado,
Porque seu genro Zezinho
Se achava desfeitado,
Mas disseram que o rapaz
Ele mesmo foi culpado.

Depois José Colatino
Foi dar em um Inspetor,
Porque não tinha cercado
A casa do jogador,
Levou a segunda surra
Para não ser agressor.
             
Colatino estava na feira
E queria dar num soldado,
Ainda abanou os queixos
De um sub-delegado,
Levou a terceira surra
Ficou muito maltratado.

O capitão Deodato
Estava muito desgostoso,
Dizia: -- Este meu genro
Inda briga de teimoso,
Quer brigar sem ter idade
Não pode com criminoso.

Depois foi visto José
Na beira de uma estrada,
Emboscando um inspetor
Armado de espingarda,
Lá levou a quarta surra
E a arma lhe foi tomada.

E José chegou em casa
Falando muito zangado,
Disse: -- Chiquinha eu agora
Só não matei um safado,
Porque me tomou a arma
Mas pegou-me descuidado.
               
Chiquinha disse: -- José
Tu vais te acomodar,
Tu és ainda criança
Não sabe o que é brigar,
Ou tu endireitas a vida
Ou morres de apanhar.

---Chiquinha eu vou agora
Sair no mundo a brigar,
Eu quando vejo um barbado
Minha vontade é matar,
Só com sessenta processos
É quando posso voltar.

Seguiu José Colatino
Nas feiras onde passava,
Queria mostrar coragem
A todo mundo insultava,
No barulho de fim de feira
Sempre José apanhava.

Onde José via teima
Queria ser muito mau,
Gritava: -- Que é isto aqui!
Eu já meto o bacalhau
Eu aqui não vejo homem...
Com pouco estava no pau.
                 
José voltou com dois anos
Das fronteiras do Estado,
Com noventa e nove surras
Que o povo tinha lhe dado,
O capitão Deodato
De tudo estava informado.

O capitão Deodato
Arrojou-se nessa hora,
Dizendo: -- “Seu Colatino
Aqui o senhor não mora,
Se suma da minha vista
Desde já pode ir embora.

---Por isso a minha família
Está muito injuriada,
E você levando a surra
Sem nenhuma ser vingada,
Não me serve ter um genro
Feito armazém de pancada.

Colatino disse: -- Chiquinha
O Quixadá não tem vantagem,
Você fique com seu pai
Que eu vou uma viagem,
Até encontrar um homem
Que aguente minha coragem.
                 
---Nesta terra não tem homem
Que eu me ocupe a brigar,
Vou caçar um valentão
Que faça eu me zangar,
Chiquinha, do Piauí
Inda mando lhe buscar.

Logo montou a cavalo
Cheio de animação,
Despediu-se de Chiquinha
Depois de apertar-lhe a mão,
Seguiu para o Piauí
Castigar um valentão.

Nesse tempo no Piauí
Na cidade de Ueira,
Havia um valentão
Que veio duma fronteira,
Vivia dando de peia
No pessoal da ribeira.

Todo mundo tinha medo
Da cara do valentão,
Pôs a vassoura da barba
Presa pelo o cinturão,
Quando ele assanhava a barba
Atropelava o sertão.
                
Dizia que estava em guerra
Andava de perna manca,
E carregava um punhal
Do tamanho duma alavanca,
O povo só lhe chamava
O comandante Carranca.

Os bigodes dele tinha
As pontas tão estiradas,
Que por detrás das orelhas
Ele dava nós de laçadas,
Quando ele ia dar num
Fazia as barbas assanhadas.

As moças desta cidade
Só justavam casamento,
No dia que o Carranca
Desse o seu consentimento,
Governava as casas alheias
Com crime e atrevimento.

Toda casa de negócio
Só comprava ou só vendia,
Se o Carranca quisesse
Isso mesmo consentia,
Que os caixeiros só vendesse
Em cada semana um dia.
                
Assim o povo vivia
Sujeito a esse assassino,
Apanhava do Carranca
Homem, mulher e menino,
Quando ninguém esperava
Chegou José Colatino.

Entrou José Colatino
Fedendo a chifre queimado,
Não achando venda aberta
Perguntou admirado,
Por qual motivo a cidade
Tinha o comércio fechado.

Saiu-lhe uma mulher
Que lhe deu a explicação,
Dizendo: -- Fale mais baixo
Aqui tem um valentão,
Que mata só com a vista
É a fera do sertão.

---A riqueza dos fazendeiros
Aqui ele tem tomado,
Obriga os homens rico
Lhe trabalhar alugado,
As moças não casam mais
O povo vive assombrado.
                
---Se o senhor quer escapar
Corra e vá se esconder,
Pois só a barba do homem
Faz todo mundo tremer,
Carrega as moças que quer
Quem falar tem que morrer.

Colatino disse: --- Dona
Onde mora esse danado?
Eu quero dar-lhe uma surra
Porque estou destinado,
Arrancar o cavanhaque
Dum criminoso barbado.

Todo povo abriu as portas
Fazendo reunião,
Colatino deu dois tiros
Insultando o valentão,
Com pouco vinha o Carranca
Rugindo como um leão.

Assanhou barba e bigode
E gritou de cara feia,
---Canalha sem minha ordem
Na rua ninguém passeia,
Quem mandou abrir as portas
Leva uma surra de peia.
               
Colatino pulou e disse:
---Está bêbado assassino,
Barbado, cara de sola
Ladrão perverso e mofino,
Se prepare pra morrer
Nas mãos de Zé Colatino.

---Eu venho do Ceará
Nunca temi a ninguém,
Quando eu pego um criminoso
É o dia que passo bem,
Com 99 nas costas
E doido pra fazer cem.

Colatino já estava
Acostumado a apanhar
Se Carranca pegasse armas
Ele ia se ajoelhar,
Mas Carranca esmoreceu
Que não podia falar.

Com pouco Zé Colatino
Gritava mais animado,
---Me tragam fósforo e gás
O Carranca está pegado,
Pois eu quero tocar fogo
Nas barbas deste danado
               
O cavanhaque do Carranca
José enrolou na mão,
Cuspiu na cara do bruto
Deu-lhe mais um empurrão,
O Carranca tremia tanto
Que as armas caíram ao chão.

O Carranca arrependeu-se
De se meter no cangaço,
Sentiu a faca nas barbas
Com violento talhaço,
Viu que do seu cavanhaque
José tirou um pedaço.

Carranca nunca ouviu
Falar em tanta vantagem,
José com noventa e nove
Se era morte ou pabulagem,
Assombrou-se com os gritos
Pensando que era coragem.

Abriu da perna a correr
Saiu coberto de poeira.
Colatino inda atirou-lhe
Deu-lhe mais uma carreira,
O Carranca ganhou a mata
Que ia quebrando a madeira.
                
Ficou José Colatino
Como chefe respeitado,
Entregou as terras todas
Que Carranca tinha tomado,
E mandou prender Carranca
Que morreu sentenciado.

Após José Colatino
Muito rico e respeitado,
Escreveu para Chiquinha
Que viesse ao seu chamado,
Na cidade de Ueira
Foram viver descansados.
             F I M
 _____________________

--- Poema ---

No bosque da Borborema
Onde a tarde é mais fagueira
Vi a brisa na palmeira
Fazendo leque e capela
Vi as fontes derramando
Seus cristais que a terra banha
E as donzelas da montanha
Discute quem é mais bela.
                
Vi o sol em seu cortejo
Espargir seu lampadário
E ao terminar seu horário
Encontrou-se na cortina
E a lua açoitando as trevas
Por ser estrela rainha
Seguidores para a vinha
Só na hora matutina.

No dorso da Borborema
Orgulhoso laranjar
Namorando um parreirar
É sitio da Natureza
Vi cavaleiro da noite
Vaquejando pelas selvas
Mesmo orvalhados nas relvas
Buscando uma camponesa.

Brilhava essa camponesa
Sonhando em leito de flores
Em bailes cantando amores
Minha lira está dileta
A camponesa era criança
Em anos tão bem verdosos
Libamos laços ditosos
Viva Deus e seu poeta.
               
DOIS COLEGAS QUE SE
              FORAM

Com pensamentos imersos
Em sentimentos cilóstomos
Tenho escrito trechos póstumos
Uns em crônicas outro em versos
Pois eu conheci diversos
Poetas que bem comporam
Bons romances, como foram
Athayde e Zé Camelo
Sendo o último um modelo
De muitos que já se foram.

Numa canção saudei
Cinquenta já falecidos
Alguns meus desconhecidos
Porém eu os relembrei
Agora saudarei
Nestes versos, desta vez
Dois dos melhores talvez
De consciências visaula
Que foi Francisco de Paula
E Severino Milanês.

Em gipso de alabastro
Estes helênicos poetas
De clâmides níveas diretas
Divagaram pelos astros
O cíclame cavalastros
Levou-os á imensidade
Milanês por ter bondade
E Chico por ser amável
Estão lá no inefável
O reino da divindade.


  
         



















História de Mariquinha
e José de Sousa Leão
(João Ferreira de Lima)

Nessa história se vê
A força que o amor tem,
E Deus o quanto protege
O homem que pensa bem,
Tendo força de vontade
Só a negra falsidade
Nunca valeu a ninguém.

A força que o amor tem
Não há quem possa vencer,
Dá coragem ao homem fraco
Perde o medo de morrer,
Fica veloz como o vento
Cria ferida por dentro,
Quem está fora não ver.

No século próximo passado
José de Sousa Leão,
Era almocreve e morava
No interior do sertão,
Rapaz de tipo elegante
Andava sempre ambulante
Na sua especulação.
            
José de Sousa Leão
Morava no Ceará,
Numa seca muito grande
Ele migrou de lá,
Perdeu o que tinha lucro
Veio para o Pernambuco
Remir a vida por cá.
              
José percorreu o Sul
Sem achar colocação,
Lhe disseram adiante tem
O engenho dum capitão,
Apontaram com o dedo
—Se o senhor não tiver medo
O homem lá é valentão.

Disse José: - Eu vou lá
E seguiu na direção,
Um velho ainda lhe disse:
--Não vá lá meu cidadão
Dou-lhe esse parecer
Faz medo até se dizer
Quem é esse capitão.

O velho disse: - Seu moço
Você me guarde o segredo,
Nosso capitão aqui
Mata gente por brinquedo,
E não tem dó de ninguém
Já enterrou mais de cem
Dentro daquele arvoredo.
              
José lhe disse: - Meu velho
Isto depende da sorte,
O homem para viver
Precisa que seja forte,
Não tem revolução
E se tiver precisão,
Troque a vida pela morte.
            
José nessa ocasião
Disse adeus e foi embora,
O velho lhe disse: - Vai-te
Com Deus e Nossa Senhora,
O rapaz saiu tangendo
E o velho ficou dizendo:
--Ele é morto e não demora.

José chegou no engenho
Com sua cavalaria,
E cumprimentou a todos
Com a maior cortesia,
Disse: - Com educação
Boa tarde capitão
Com vai vos, Senhoria.

O capitão orgulhoso
Nem para José olhou,
Com dez ou doze minutos
O capitão se virou,
Resolveu outro destino
Com cara de assassino
Por esta forma falou.

--De onde vem o senhor
E o que quer por aqui?
Atrevido vagabundo
O caminho é por ali,
José de Sousa Leão
Disse: - Sou um cidadão
Morador no Cariri.
             
E saí da minha terra
Devido à seca que há,
Trago os meus documentos
Sou filho do Ceará,
Ando aqui neste inferno
Mas quando houver inverno
Eu torno a voltar pra lá.

O capitão conhecendo
A sua disposição,
Lhe ofereceu serviço
Nessa mesma ocasião,
Antes que José falasse
Pediu que ele arranchasse
Num pequeno barracão.

Disse o capitão: - José
Eu não lhe trago enganado,
Pois quem não andar direito
Eu mando matar sangrado,
José disse: - Muito bem,
Eu sei que o senhor tem
O seu direito sagrado.
           
O capitão levantou-se
E disse: - Vamos ali,
Levou ele a uma quinta
E mostrou-lhe de persi
Um homem lá amarrado
Disse: - Vai morrer sangrado
Ninguém o salva daqui.
              
A sepultura aberta
O pobre se lastimando,
Com quatro cabras ali
Pelo o patrão esperando,
O capitão com um punhal
Nesse momento fatal
Foi logo o pobre sangrando.

E depois que matou ele
Deu ordem pra sepultar,
E disse para para José
Agora vá trabalhar,
Se faltar com o respeito
Irá morrer desse jeito
Não tem pra quem se queixar.

José foi trabalhar
Disse: - Já sei como é,
O capitão agradou-se
Do trabalho de José,
Porém ele se enganou
Que desta vez encontrou
Forma que deu no seu pé.

José disse: - Capitão
Eu não gosto de ofensa,
Estou pronto para servi-lo
Sei que o senhor compensa,
Porém dizia meu pai
As vezes a coisa não sai
Do jeito que a gente pensa.
                
No outro dia José
Seus cavalos carregou,
No tempo determinado
Bem direito trabalhou,
Com modesta educação
Até mesmo o capitão
Daquilo se admirou.

Com 02 meses e poucos dias
Que José trabalhava,
José estava benquisto
O capitão conversava,
Achando tudo bem feito
O capitão satisfeito
Já criticava e zombava.

Um dia o capitão disse:
Vamos lá em casa José,
Quero que tu hoje vá
Tomar comigo um café,
Mariquinha quer mandar
Encomenda pra comprar
Vamos saber o que é.

José tomando café
Na sala da refeição,
Mariquinha quando viu
José de Sousa Leão,
Sua alma teve alegria
Um raio de simpatia
Atingiu-lhe o coração.
             
Mariquinha saiu fora
Sorrindo lhe deu bom dia,
Fez um sinal de namoro
Um riso de simpatia,
Como quem não tem mistério
José ficou muito sério
Fez de conta que não via.

Mariquinha acelerada
Vinha na ponta do pé,
E de lá do corredor
Piscava o olho a José,
Achando lindo o moço
O que passou-se no almoço
O capitão não deu fé.

José disse: - Capitão
Vou fazer o seu mandado,
Foi e veio com urgência
Trouxe tudo de agrado,
Temendo a sorte mesquinha,
O namoro de Mariquinha
Deixou-lhe impressionado.

Mariquinha depois disso
Fez o bilhete escondido,
Para José de Sousa
Suavizando o sentido,
Disse ao velho com afeto:
--Papai falta um objeto
Que eu tinha esquecido.
             
Mariquinha disse: - Papai
Quando se José passar,
Eu tenho outra encomenda
Para ele me comprar,
Mentira, era uma cartinha
Dizendo: - Sou Marinha
Que nasci para te amar.

O capitão disse: - José
Mariquinha não se lembrou,
De botar uma encomenda
Por isso tu não comprou,
O rol escrito não tinha
Quem sabe é Mariquinha
O objeto que faltou.

José botou o cavalo
Pelo lado do portão,
Mariquinha veio sorrindo
Com um bilhete na mão,
Dizendo: - José entenda
Me traga essa encomenda
Que eu tenho precisão.

José chegou lá adiante
Lembrou-se e foi olhar,
O bilhete dizia assim:
--Eu nasci para te amar,
Te entrego meu coração
José de Sousa Leão
Tenha dó do meu penar.
                
Os rapazes desta terra
Não me pedem em casamento,
Todos temem ao meu pai
Vivo neste sofrimento,
Sem carinho e sem agrado
Meu pai é quem é culpado
Deste meu padecimento.

José soltou um suspiro
Fez o semblante mudado,
Os outros lhe perguntaram
--Você está adoentado?
José apalpou o pulso
E disse: - Isso é um soluço
Que eu tenho acostumado.

José dizia consigo:
--Que sorte é essa minha,
Desgraçado é quem morre
Pelo amor de Mariquinha,
Com meu gênio rijo e forte
Troco a vida pela morte
Chegando a sorte mesquinha.

José escreveu um bilhete
Com dedicada atenção,
--Se confias em meu poder
Eu juro em meu coração,
Por nosso Deus de Israel
Sou teu amante fiel
José de Sousa Leão.
             
José prosseguiu dizendo
Por esta forma assim:
--De hoje há oito dias
Você espere por mim,
Que eu chego num instante
Da meia noite por diante
Lá no portão do jardim.

Vendo os cavalos ao seu pai
E digo que vou embora,
Deixo o cavalo melhor
Para levar a senhora,
Pras zonas do Cariri
E quero sair daqui
Da meia noite à uma hora.

Não convém que ninguém saiba
Cuidado com o capitão,
Depois que eu sair daqui
Rumar ao alto sertão,
A minha volta é ruim
Ninguém vá contra a mim
Porque perde na questão.

José fingiu-se doente
Sofrendo do coração,
Com muita benevolência
Pediu para o capitão,
Deixar ele ir embora
Disse ele: - Qualquer hora
Está a sua disposição.
           
Devido à necessidade
O capitão combinou,
Vá visitar os seus pais
José lhe disse: - Eu vou,
Visitar o meu sertão
Até mesmo o capitão
Lágrimas por ele botou.

José de Sousa vendeu
Todos os cavalos que tinha,
Fez um conto e oitocentos
Então disse a Mariquinha:
Vamos até para a lua
A minha sorte é a tua
A tua sorte é a minha.

O capitão Oliveiros
Pagou-lhe todo ordenado,
O dinheiro dos cavalos
E deu-lhe mais um agrado,
De cem mil réis em dinheiro
E disse a um cangaceiro:
José é homem inteirado.

O capitão inda deu-lhe
Um punhal e um facão,
Um granadeiro velho
Que parecia um canhão:
--Tu diz a quem te venera
Que estava mais uma fera
Mas é um ótimo patrão.
                
José disse: - Muito bem
Eu fui bem gratificado,
Estou muito agradecido
Eternamente obrigado,
Devo favores sem fim
E precisando de mim
Conte com o seu criado.

O capitão conheceu
Que ele tinha coragem,
José durante esse tempo
Pensava na sua imagem,
Só ele e ela sabia,
Até que chegou o dia
De seguirem a viagem.

José de Sousa Possuía
Um bom cavalo rudado,
Com arreios muito bons
Estava bem preparado,
De cavalo e armamento
O seu herói pensamento
Já tinha um plano formado.

As onze horas da noite
José chegou no portão,
Mariquinha já estava
Com uma bolsa na mão,
Numa calçada que tinha
José montou Mariquinha,
Rumou ao alto sertão.
             
Um cachorro da fazenda
Que chamava-se espadarte,
Acompanhou a José
José com um bacamarte,
O facão e o punhal
Disse: - Com esse animal
Eu brigo em qualquer parte.

Era uma noite de Outono
A lua resplandecia,
E as estrelas brilhavam
José de Sousa dizia:
--A sua imagem adorada
Para a nossa jornada
A noite é melhor que o dia.

Às seis horas da manhã
José com a sua amante,
Saíram numa fazenda
Com vinte léguas distante,
Tomaram leite e café
Mariquinha disse: - José
Cuidado vamos adiante.

Se montaram e depois
Seguiram a mesma jornada,
Por um sertão esquisito
Onde não tinha morada,
Andaram uma semana
O tigre suçuarana
Vinha insultá-los na estrada.
            
Quase que morre de sede
No interior do sertão,
Numa grande travessia
Na Serra do Espigão,
Mas Deus o auxiliou
Por felicidade achou
Água em um caldeirão.

José de longe avistou
O penhasco dum rochedo,
E no pé da grande serra
Continha um grande arvoredo,
Era um pé de trapiá
José abrigou-se lá
Naquele enorme degredo.

Às onze horas do dia
José fez a refeição,
Chegaram dois canguçus
Nesta mesma ocasião,
Vinham estes canguçus
Arrebentando os bambus
Que pareciam um dragão.

Um investiu a José
Mas ele muito ligeiro,
Em cima do peito esquerdo
Disparou o granadeiro,
Ele tombou e caiu
José de Sousa sorriu
Fez como 01 homem guerreiro.
               
O outro logo enfrentou
José de Sousa Leão,
Logo na primeira tapa
Tomou-lhe logo o facão,
Mariquinha aí gritou
José o cachorro chegou,
Segure o punhal na mão.

José puxou o punhal
E fez que nem deu cavaco,
A fera partiu pra ele
José como um macaco,
Veloz igual a giranda
Torceu o corpo de banda
Cravou-lhe bem no suvaco.

O tigre deu um esturro
Que a terra estremeceu,
O cachorro ferrou nele
E o tire esmoreceu,
José pegou-lhe na cauda
Deu-lhe outra punhalada
O tigre velho morreu.

José disse: - Mariquinha,
É tarde vamos embora,
Mas outro homem não fez
A cena que fiz agora,
Em qualquer ato ruim
Basta eu ter só por mim
Jesus e Nossa Senhora.
             
José seguiu a viagem
Quando foi no outro dia,
Seu cavalo fracassou
Numa grande travessia,
Já com cem léguas distante
O seu cavalo importante
Morreu não fez covardia.

Onde o cavalo morreu
Perto tinha uma choupana,
Morava nela um caboclo
Chamado ele Santana,
Sem barba, calvo e franzido
Tinha um olho ruído
Sem um sinal de pestana.

José pediu ao caboclo
--Eu quero aqui um lugar,
Aonde ninguém me veja
Que eu possa descansar,
Desculpe eu incomodá-lo
Vá me comprar um cavalo
Custe lá o que custar.

Dou-lhe quinhentos mil réis
Dizendo: - Confio em ti,
Compre um cavalo bom
Traga ele até aqui,
Enquanto eu tenho descanso,
Eu quero ver se alcanço
As terras do Cariri.
            
O caboclo levou José
Pra dentro dum palmeiral,
E lhe disse: - Fique aqui
Que não lhe sucede mal,
Podem dormirem até
Pediu dinheiro a José
E foi comprar o animal.

José para a viagem
Tinha dinheiro na bolsa,
Coragem e disposição
Robustez e muita força,
Pra defender sua esposa
Deixamos José de Sousa
Tratamos no pai da moça.

Quando o dia amanheceu
O capitão foi narrar,
A falta que José fez
--Com hei de passar,
Disse a velha: - Mariquinha
Não está na camarinha
Só mandando procurar.

Faltam três vestidos dela
O chapéu e a bolsinha,
Ela em casa não está
Já procurei na cozinha,
Não sei isso o que é
Meu velho e foi José
Que carregou Mariquinha.
            
O capitão deu um esturro
Que a terra estremeceu,
Uma dama desmaiou
Uma moça adoeceu,
A negra ficou doente
Tinha um leão na corrente
Quebrou os ferros e correu.

Disparou o granadeiro
Que os rochedos abalaram,
Vinte e cinco cangaceiros
Neste momento chegaram,
Prontos para execução
--O que há seu capitão?
Todos assim perguntaram.

O capitão Oliveiros
Disse: - O diabo se soltou,
O cabra José de Sousa
Que tanto me trabalhou,
Me carregou Mariquinha
Tanto amor que eu lhe tinha,
Vejam com que me pagou.

Um cabra lhe disse: - Qual
Não é nada capitão,
O que quiser que se faça
Nos dê as ordens patrão,
O capitão deu uns ais
Dizendo: - Vão atrás
Daquele cabra ladrão.
              
Matem aquele infeliz
Deixem o urubu comer,
E matem José de Sousa
Suceda o que suceder,
Não façam gosto a nenhum
A orelha de cada um
É só o que quero ver.

Cinco cabras dos perversos
Seguiram pela batida,
Dizendo: - Vamos pegá-los
No descanso ou na dormida,
Daqui para o Ceará
E o capitão ficou lá
Como fera destemida.

Prosseguiram no roteiro
Pela mesma travessia,
Com quatro dias e meio
Às onze horas do dia,
Quase no fim da semana
Saíram na tal choupana
Que o caboclo residia.

Perguntaram ao caboclo
Quem foi que passou aqui,
De ontem para hoje?
Disse o caboclo: - Eu vi,
E estão ali por traz
Uma moça e um rapaz
Que vão para o Cariri.
              
O caboclo foi mostra-los
Como falso traiçoeiro,
Dizendo ele: - José morre
E eu fico com o dinheiro,
Com este plano os mostrou
Mas o feitiço virou,
Por cima do feiticeiro.

José disse: - Mariquinha
Creio que estamos cercados,
Por cabras do capitão
Se deite e tenha cuidado,
Que vou enfrentar a luta
Aqui dentro desta gruta
Eu brigo entusiasmado.

Os cabras então detonaram
Cinco tiros duma vez,
José de Sousa Leão
Deitou-se com rapidez,
Fez tática pra não morrer
Faz pena até se dizer
O estrago que José fez.

José de Sousa gritou:
--Abram os olhos canalha,
Vinte cabras de vocês
Ainda não me atrapalha,
Disparou o granadeiro
Matou até o derradeiro
Só um tiro de metralha.
              
O caboclo estava perto
Vendo a destruição,
Disse: oh! José danado
Aquele homem é o cão,
Eu aqui não fico em paz
O cachorro correu atrás
Bateu com ele no chaão.

O miserável do caboclo
Gritava de fazer dó,
José de Sousa na beca
O cachorro no mocotó,
Também atrás de rasga-lo
José antes de mata-lo
Deu-lhe muito de cipó.

José desceu-lhe o facão
Abriu-lhe a cabeça bem,
Então disse a Mariquinha:
--Um facão assim convém,
Agora estou descansado
Este caboclo danado
Não é mais falso a ninguém.

Mariquinha se vexou
Reclamando a sorte dela,
José entrar em trabalho
Numa batalha daquela,
Com pena de seu amante
Eu achei interessante
O que José disse a ela.
               
José disse: - Mariquinha
Não queira se arrepender,
Quem vai ao campo da luta
Perde o medo de morrer,
Eu brigo com um batalhão
Mato até o capitão,
Me desgraço por você.

Nós vamos agora mesmo
Aquela povoação,
Casaremos com urgência
De lá vamos ao capitão,
Com a maior brevidade
De gosto ou contra vontade
Ele lhe bota benção.

Chegaram em S. Francisco
Se dirigiram a Matriz,
O sacristão mandou logo
Chamar o padre Luiz,
Ele fez o casamento,
Receberam o sacramento
Oh! Que momento feliz.

O delegado indagou
José de Sousa quem era,
Ele disse: - Sou um ente
Pior que a besta fera,
Não presto nem pra morrer
O delegado disse: - O que!
--Estou falando devera!
              
José de Sousa ameaçou-lhe
Na boca do granadeiro,
O delegado disse: - Vôtes
Este homem é cangaceiro,
O padre correu da Matriz
Muito assombrado e não quis
Mais receber o dinheiro.

José de Sousa seguiu
Não achou com quem brigar,
Dizia: - Tenho certeza
Que vou morrer ou matar,
Se o espírito não me engana
Eu sei que o velho se dana
Na hora que nós chegar.

José tinha comprado
Outro cavalo passeiro,
Quase bom como o outro
Que galgava tabuleiro,
Moderno brando e macio
José dizendo: - Confio,
Somente no granadeiro.

O capitão tinha pedido
Uma xícara de café,
Assentado no terraço
Quando ouviu um tropé,
Da casa se aproximando
Lá vinha urgente chegando
Mariquinha mais José.
           
José urgente saltou
Do seu cavalo no chão,
Escalou o granadeiro
Em cima do capitão,
Fazendo uma manilha
- Bote a bênção em sua filha
Me diga se bota ou não!

O capitão disse: - Eu boto
A velha disse: - Eu também,
Abraçaram-se ali todos
O capitão disse: - Bem,
Agora bateu o jogo
És meu genro, eu sou teu sogro
Nas horas de Deus amém!     

A velha abraçou José
Deu-lhe um aperto de mão,
O velho também lhe disse:
--Agora não há questão,
José é rapaz direito
Estou muito satisfeito
Temos um genro valentão.

Oliveiros de Vasconcelos
Era o nome do capitão,
A sua esposa, Dalila
Maria da Conceição,
Maria Nunes Clemente
Era a mulher do valente
José de Sousa Leão
             FIM
               



                                 







HISTÓRIA DE ZÉ GARCIA
(João Melquíades Ferreira)

Quando o Tenente Garcia
Era um rico fazendeiro,
Que havia no Seridó
Um dos seus filhos solteiros,
Foi um dia caluniado
Por filha dum cangaceiro.

Militão o pai da moça
Era um estrompa malvado,
Foi à casa do Tenente
Comandando 1 grupo armado,
Lhe ameaçando vingança
Por se achar agravado.

Militão disse ao Tenente:
--Só venho aqui lhe dar parte,
Que o seu filho Zé Garcia
Há pouco fez uma arte.
Ou casa com minha filha
Ou com esse bacamarte.

---Seu Militão não precisa
Me gritar com armamento,
Eu vou saber do meu filho
Se a queixa tem fundamento,
Se o rapaz dever a moça
Eu farei o casamento.
              
A tarde José Garcia
Chegou duma vaquejada,
Com uns 60 vaqueiros
Na frente uma guiada,
Galopando em seu cavalo
No coice duma boiada.

Depois da ceia o Tenente
Chamou o filho razão,
Então lhe disse: - José
Agora estamos em questão,
O que é que estás devendo;
A filha de Militão?

Respondeu José Garcia:
---A ela não devo nada,
Eu nunca dei atenção
Aquela moça acanalhada,
Minha consciência é limpa
Muito desembaraçada.

---Então você se previna
A coisa está perigosa,
Siga hoje mesmo à noite
Em viagem mui penosa,
 Vá ficar no Piauí
Em casa de Miguel Feitosa.

---Meu pai eu lhe obedeço
Como filho de benção,
Só subo ao Piauí
Para evitar a questão,
Mas também não tenho medo
Do bandido Militão.
               
---Leva contigo um negro
Servindo de arreeiro,
Basta levar duas cargas
Mas vinte contos em dinheiro,
Contanto que te ausentes
Da vista do cangaceiro.

Zé Garcia abraçou seu pai
Sua mãe muito chorosa,
Disse o velho: --- Vá com Deus
E a virgem poderosa,
Lá entregue esta carta
Ao capitão Miguel Feitosa.

A serra do Araripe
Zé Garcia descambou,
Penetrou no Piauí
Em poucos dias chegou,
Ao Capitão Miguel Feitosa
Uma carta lhe entregou.

O Capitão leu a carta
Era assim a narração:
“—Excelente e caro amigo,
Entrego em vossa mão,
O meu filho por uns tempos
Devido a uma questão. 
             
A filha de um capanga
Veio a mim se queixar,
Que meu filho deve a ela
Para obriga-lo a casar,
Mas é falso testemunho
Que a cabrita quer formar.
              
Tua casa tem respeito
Eu te fico agradecido,
Que meu filho fique aí
Até ficar decidido,
Porque se houver processo
Eu o deixo destruído.

Disse o Capitão Feitosa:
--Moço eu estou informado,
Tome conta desse quarto
Pode ficar descansado,
Que aqui em minha casa
O senhor está guardado.

Era no mês de novembro
No Piauí já chovia,
E o capitão Feitosa
Ordenou no outro dia,
Começar a vaquejada
Encurralar a vacaria.

Reuniu-se a vaqueirama
Na casa do capitão,
Feitosa saiu na frente
Arrastou seu esquadrão,
Foram arrebanhar o gado
Alegria do sertão.
             
Zé Garcia ficou triste
Junto do curral pensando,
Passando um lenço nos olhos
Porque estava chorando,
A saudade do Seridó
Estava lhe apertando.
            
No sótão tinha uma moça
Olhando duma janela,
Viu Zé Garcia chorando
Por trás de uma cancela,
Era a filha do Feitosa
Mas o rapaz não viu ela.

A moça desceu do sótão
Com o coração nervoso,
Disse:---Mamãe Zé Garcia
O moço está desgostoso,
Porque vi ele chorando
Muito triste e pesaroso.

Depois o Garcia estava
Cá no alpendre sentado,
Saiu-lhe a dona da casa
Examinou com cuidado,
Viu que os olhos do moço
Pareciam ter chorado. 
                
Dona Jovita Feitosa
Perguntou impaciente,
--Senhor Garcia me diga
Se aqui caiu doente,
Desculpe lhe perguntar
Mas quero ficar ciente.
             
Zulmira era a mocinha
Que também se interessava,
Perguntou a Zé Garcia
Por qual motivo chorava,
Sem dúvida por um amor
Que no Seridó ficava.

Zé Garcia respondeu:
---Eu fico aqui demorado,
Em casa do seu Feitosa
Estou muito consolado,
E tenho gozado saúde
Neste clima temperado.

Feitosa com o seu povo
Depois de andar patrulhando,
Arrebanhado o seu gado
À tarde iam chegando,
Na porteira do curral
Garcia estava aboiando.

Á noite quando Feitosa
Se achava descansando,
Chegou-se dona Jovita
Que estava lhe contando
Que Zulmira tinha visto
José Garcia chorando.
              
Feitosa muito vexado
Perguntou ao Zé Garcia.
Se ele estava doente
Qual era o mal que sentia,
Fosse um rapaz positivo
Não usasse de mania.
            
Respondeu José Garcia:
---Porque sou acostumado,
Na fazenda do meu pai
Campear atrás de gado,
Aqui neste Piauí
Me considero privado.

---Senhor Garcia eu também
Posso lhe oferecer,
Os meus cavalos de campo
O senhor pode escolher,
Aquele que lhe agradar
Amanhã vá espairecer.

Garcia abriu a mala
Na qual estava guardado,
A vestimenta de couro
Bom guarda peito arreiado
Porque o vaqueiro lorde
Faz de couro de veado.
             
Feitosa ficou em casa
Deu ordem a Zé Garcia,
Que chefiasse os vaqueiros
Para o campo nesse dia,
Até no fundo do pasto
Do gado bravo que havia.
            
Garcia chegou no campo
Correndo atrás do gado,
Precipitava o cavalo
Dentro do mato fechado,
Deu muita queda em garrote
Como um rapaz traquejado.

Na frente do gado bravo
Espirrou um barbatão,
Garcia chegou-lhe o cavalo
Queria pegá-lo a mão,
Perdeu o touro de vista
A carreira foi em vão.

Disse um vaqueiro ao Garcia
---Vês aquele barbatão?
É o touro “Saia Branca”
Pertencente ao capitão,
O fantasma dos vaqueiros
E o orgulho do sertão.

---Chegaram aqui três vaqueiros
Do Estado do Ceará,
Sabiam de orações fortes
Tinham mais um patuá,
O Saia Branca os deixou
Presos em um cipoá.
                
---Se o senhor tem coragem
De pegar o barbatão,
Hoje mesmo vou dizer
Para o nosso capitão,
Seu nome vai ser falado
Em todo este sertão.
            
---Se o capitão na fazenda
Tiver cavalo aprovado,
Inda mesmo o barbatão
Correndo como veado,
Eu me atrevo a pegá-lo
No espinhal mais fechado.

Á noite um dos vaqueiros
Estava pronto a contar,
E disse senhor Feitosa:
---Eu só vim lhe avisar,
Que o barbatão “Saia Branca”
Zé Garcia quer pegar.

O Feitosa admirado
Perguntou a Zé Garcia,
---Se o homem do Seridó
No Piauí se atrevia,
A pegar um barbatão
Que outro não garantia.
               
Garcia disse ao Feitosa
---Se a fazenda do capitão,
Tem cavalo corredor
Nas caatingas do sertão,
Eu vou ver se me atrevo
A pegar o barbatão.
             
Chamou Feitosa os vaqueiros
Na manhã do outro dia,
Disse:---Vão encurralar
A minha cavalaria,
Para escolher o cavalo
Que agrade a Zé Garcia.

Os cavalos do Feitosa
Cada um encurralado,
Começou José Garcia
Escolhendo com cuidado,
Procurando por sinais
Os cavalos bons de gado.

Então disse Zé Garcia:
---Este cavalo cinzento,
Não tem carreira puxada
Porque não tem talento,
Esse rosilho pelado
É um lerdo sem alento.

Este castanho amarelo
É um cavalo afrontado,
E este cavalo pampo
Não pode ser bom de gado,
Aquele castanho escuro
Tem o mocotó inchado.
               
Este russo apatacado
Aguenta meia carreira,
Este cavalo melado
Fica doido na madeira,
Este pedrês já foi bom
Mas já está com gafeira.
            
Este cavalo rudado
No limpo corre sem trégua,
Este cardão barrigudo
Se parece com uma égua,
Este ruço couro branco
É um cansado de légua.
           
Aqui falou o Feitosa
Bradando muito zangado:
---Garcia por caridade
Se faça mais delicado,
Não difame meus cavalos
Que todos são bons de gado.

---Senhor Feitosa seus cavalos
Os bons eu digo quais são,
Para derrubar no limpo
Correr em apartação,
Mas não tem um que aguente
A carreira do barbatão.        
             
Se o senhor tem cavalos
Pode mandar ajuntar,
Que o barbatão Saia Branca
Minha vontade é pegar,
Que homem do Seridó
Não promete pra faltar.
             
---Meus cavalos bons de gado
O senhor levou a trote,
Cavalo e burro de carga
Ainda tenho um magote,
Gritou Feitosa:--- Vão ver
Agora o resto do lote!
               
Depois entrou no curral
Junto com a bestaria,
Um cavalo de peito e anca
Pelos sinais prometia,
Logo à primeira vista
Agradou a Zé Garcia.

Zé Garcia rebolou
O chapéu para tanger,
O cavalo se espantou
Depois veio reconhecer,
Porque cheirou o chapéu
Coragem dando a entender.

Disse Garcia:- - Já posso
Garantir ao capitão,
Que o castanho amarelo
Pega qualquer barbatão,
Mesmo é o melhor cavalo
Criado neste sertão.
                
Disse o Feitosa:-- Eu também
Não digo se é exato,
Que esse cavalo é bravo
Pula mais do que um gato,
Não é da minha fazenda
É do coronel Cincinato.
               
---Para o dono está perdido
Lhe digo qual razão,
Todo vaqueiro tem medo
De montar esse poltrão,
Quem montar nesse cavalo
Ele sacode no chão.
           
---Nas matas mais temerosas
O bicho bravo se tranca,
Se o capitão conceder-me
Uma licença mais franca,
Eu amanso esse cavalo
E vou pegar Saia Branca.

---Se o senhor tem coragem
De amansar esse poltrão,
Amanhã pode montar
Entrego-o na sua mão,
Porém fique na certeza
Que seu quengo vai ao chão.
                 
No terreiro do Feitosa
O povo tinha chegado,
Ás seis horas da manhã
Tinha um cavalo selado,
Garcia ia montar
Já se achava encourado.
            
No cabresto do cavalo
Cinco homens sustentavam,
Quando Garcia montou
No cavalo que estribava,
Gritando:---Larga o cabresto
Já o cavalo saltava.
                  
Levantou-se o cavalo
Saltando com Zé Garcia,
Que furava-o de espora
E com chicote batia,
O rapaz era seguro
Da sela não se movia.

Zé Garcia pelejou
Para amansar o cavalo,
Quinze dias de repuxo
Aguentando grande abalo,
Mas só no fim de um mês
Acabou de amansá-lo.
              
O Feitosa perguntou,
Por esta ocasião:
---Senhor Zé Garcia, quando
Será o dia então,
Que o senhor se dispõe
A pegar o barbatão?

---Precisa mais quinze dias
Para haver ajuntamento,
Somente enquanto o cavalo
Descansa e cobra alento,
Deixa estar,do “Saia Branca”
Eu quebro o encantamento.
              
Apareceram três homens
Com inveja e ambição,
Falando contra o Garcia
Dizendo ao capitão,
Que o Garcia ia fugir
Não pegava o barbatão.
              
Era Chico Banda Fora
Um tal Manoel Gavião,
Um Juvêncio Parnaíba
Fazendo conspiração,
Que o Garcia ia furtar
O cavalo do capitão.

Feitosa mal satisfeito
Aborrecido dizia:
---Ainda não encontrei
Uma falta em Zé Garcia,
É de uma família rica
Dele ninguém desconfia.
               
---Se vocês tem a certeza
Que o rapaz é ladrão,
Banda Fora e Parnaíba
E seu Manoel Gavião,
Sigam atrás do Garcia
Na pega do barbatão.
            
Então no dia marcado
Pegou a chegar vaqueiros,
Espernegando os cavalos,
Cento e vinte cavaleiros
Veio o coronel Cincinato
O maior dos fazendeiros.
           
Das famílias sertanejas
A mais rica e poderosa,
Do coronel Cincinato
Trouxe uma filha formosa,
Que era a flor das donzelas
Seu nome era Sinforosa.

Feitosa com os vaqueiros
Estavam prontos esperando,
Garcia bem encourado
Seu cavalo preparando,
Zulmira mais Sinforosa
Da janela observando.
              
Todos montaram a cavalo
Feitosa puxou a guia,
Em busca do gado bravo,
Que o barbatão existia
Os vaqueiros invejosos
Não largavam Zé Garcia.
             
Feitosa com os vaqueiros,
Depois de terem avançado,
Chegaram no fim dos pastos
Viram o arranco do gado,
O barbatão ia na frente
Já correndo adiantado.
          
Garcia pela esquerda
Corria se desviando,
Queria correr sozinho
Saiu do meio do bando,
Mas sentiu três calaveiros
Que iam lhe acompanhando.
             
Garcia uma jurema
Tamgeu com má intenção,
Uma galhada de espinhos
Que laçou Manoel Gavião,
Esfolou-lhe a cara e um braço
Deixou-o caído no chão.09
                
Garcia açoitou de novo
Um calumbi esgalhado,
Que batendo em Banda Fora
Foi da sela arrebatado,
Ficou berrando: --- Me acudam!
Pelos pés dependurado.

O Juvêncio Parnaíba
Recebeu naquela hora,
Uma lapada na cara
Que o chapéu voou fora,
Caiu do cavalo abaixo
Enganchado na espora.
               
Quando o Garcia deixou
Os três sujeitos no chão,
Puxou pelo seu cavalo
Alcançou o barbatão,
Correra de mata a dentro
Como um vento furacão.

Subiram por uma serra
Já iam em toda carreira,
Desceram por uma furna
Passando em uma pedreira,
O boi saltou um riacho
De cima da cachoeira.
           
Saltou também o cavalo
Causando admiração,
Os sapatos do Garcia
Deixaram os rastros no chão,
O cavalo saiu mordendo
A anca do barbatão.
                
Garcia pegou o touro
Na mão a cauda enrolou,
Atirou-o de serra abaixo
Deu um soco o derrubou,
A fama do barbatão
Neste dia terminou.

Feitosa com o seu povo
Passaram por Gavião,
Banda Fora e Parnaíba
Todos caídos no chão,
Seguiram na buraqueira
Do cavalo e o barbatão.
            
Quando deram na pedreira
Disseram: --Temos demora,
Por aqui ninguém não passa
Vamos rodear por fora,
Garcia passou aqui
Como bala nessa hora.

Depois mediram a distância
Que o cavalo saltou,
Contaram quarenta palmos
Feitosa se admirou,
E disse:--Não tenho cavalo
Que passe onde esse passou.
                  
Continuaram no rastro
Adiante foram avistando,
José Garcia sentado
E um cigarro fumando,
O cavalo muito suado
E o touro varejando.

Feitosa e o Cincinato
Abraçaram Zé Garcia,
Dizendo: --- Tu és o rei
Dos vaqueiros de hoje em dia,
Pois o que fizeste hoje
Outro homem não faria.
           
Mandaram levar em carga
A carne do barbatão,
Em casa de Miguel Feitosa
Cresceu a reunião,
Foram chamar os cantores
Beira D`água e Mandapulão.

A noite os dois cantadores
Discutiam em cantoria,
Elogiaram os rapazes
A graça da moçaria,
Davam viva ao capitão
Dando fama a Zé Garcia.

Estava em cima do sótão
A Zulmirinha Feitosa,
Se embalando numa rede
Deitada com Sinforosa
Que gritavam os rapazes
Porque eram vaidosas.

---Sinforosa tu não viste
Aquele rapaz barbado,
Que fumava num cachimbo
Olhando para o teu lado?
Queria te dar um cravo
Contigo estava animado!
                
---Zulmirinha, não me fale
Naquele tipo imoral,
Aquilo é meu parente
Mas é sujeito brutal,
Quer namorar com as moças
Dê por vista um animal.
               
---Ele está vestido agora
De casaco encoletado,
De chapéu de copa alta
Calça curta engravatado,
De alpalgatas nos pés
É capangue descarado.

---Aquilo já vem de raça
O pai dele numa eleição,
Foi vestido de camisa
E ceroula de algodão,
Lá só não fez um discurso
Porque não deram atenção.

---Rapaz deste Piauí
Não sabe se ajeitar,
O cabelo cobre as orelhas
Passa um ano sem cortar,
Assim mesmo acanalhado
Só conversa em se casar.
                
---O povo do Seridó
Traja bem na fantasia,
Admirou-me a decência
Da roupa de Zé Garcia,
Aquele sim é um rapaz
Que as moças tem simpatia.
           
Sinforosa e Zé Garcia
Vivem prestado atenção,
Ao livro de Carlos Magno
Lêem até por distração,
Fala na princesa Angélica
Como casou com Roldão.

Sinforosa suspirou
Com a face mais corada,
Zulmira apertou-lhe a mão
Dando uma gargalhada,
E disse:--Já conheci
Que estás enamorada.

Chamava ao pé da escada
Dona Jovita Feitosa,
---Meninas desçam daí
Acabem com esta prosa,
Os cantadores estão chamando
Por Zulmira e Sinforosa.

Com pouco as duas moças
Já brilhavam no salão,
A cada um dos cantadores
Deram o seu patacão,
Nos tamboretes da sala
Foram tomar posição.
            
A Sinforosa foi sentar-se
De frente com Zé Garcia,
E o olhar da donzela
Somente se dirigia,
Pra o moço do Seridó
Que também correspondia.
               
Finalmente no outro dia
A Zulmirinha Feitosa,
Foi ao quarto de Garcia
Junto com a Sinforosa,
Tomar um livro emprestado
Que ensina cena amorosa.

O pessoal do banquete
Já havia se retirado,
Os velhos donos da casa
Foram descansar do enfado,
Nessa hora foi Garcia
Pelas moças visitado.

Garcia dizia às moças:
---Todo o meu contentamento,
É em dona Sinforosa
Imagem do pensamento,
Aproveitemos à hora
Ajustemos o casamento.
             
Sinforosa respondeu:
---É um rapaz bem famoso,
Mas para casar comigo
Eu acho muito custoso,
Somente porque papai
É um homem perigoso.
                 
---O meu pai governa aqui
Um bando de cangaceiros,
E possui vinte fazendas
É orgulhoso em dinheiro,
Tem um negro que adivinha
É um fino feiticeiro.

---O senhor casa comigo
Visto ser rapaz solteiro,
Se tiver muita coragem
Cavalo bom e dinheiro,
Para fugirmos daqui
E correr um mês inteiro.

Respondeu-lhe Zé Garcia:
---Eu sou homem a toda hora,
Não tenho medo de nada
Quero é saber da senhora,
Se quiser casar comigo
Vamos do Piauí embora.

---Eu tenho muita vontade
Lhe digo de coração,
Quando arrumar os cavalos
E dinheiro no matulão,
Fugiremos do Peuaí
A bem de nossa união.
             
Desde aí se combinaram
Que Sinforosa fugia,
E noivo para Zulmira
Muito em breve aparecia,
Que Zulmira se casava
Com o irmão de Zé Garcia.
                  
Quem tinha cavalos bons
Garcia ia compra-los
De vinte em vinte léguas
Deixava cinco cavalos,
Para o dia que fugissem
Ninguém poder mais pegá-los.

Garcia foi ao Seridó
Deixou a preparação,
Fez uma sociedade
Com Lourival seu irmão,
Subiram ao Piauí
Comprar gado no sertão.

Os Garcias no Piauí
Fizeram logo um contrato,
De comprar toda boiada
Do coronel Cincinato,
Começou a descer gado
Comprado muito barato.
                 
A vaqueirama nos campos
No maior divertimento,
Arrebanhando o gado
E fazendo ajuntamento,
Os Garcias tomando nota
E fazendo o pagamento.
              
Na fazenda do Feitosa
Havia uma apartação,
Zé Garcia no cavalo
Que pegou o barbatão,
Deu muita queda em garrote
Naquela vadiação.

Nesse dia combinaram
Garcia mais Sinforosa,
O seu irmão Lourival
Raptar Zulmira Feitosa,
Do sábado para o domingo
Fugida bem temerosa.

Sinforosa disse aos Garcias:
---Não tem mais que avisá-los,
Esperem atrás do curral
Já prontos com os cavalos,
Eu saio com Zulmirinha
A primeira voz dos galos.

No ponto estavam os Garcias
Cantaram os galos na hora,
Sinforosa e Zulmirinha
A meia noite sai fora,
Disseram logo aos Garcias
Fujamos, vamos embora.
                
Zé Garcia tomou conta
Da donzela Sinforosa,
Lourival pegou na mão
De Zulmirinha Feitosa,
Disseram adeus Piauí
Terra de moça formosa!
          
Amanheceu o domingo
Em casa de Miguel Feitosa,
Não foram vistos os Garcias
Nem Zulmira e Sinfrosa,
Disseram:---Estão dormindo!
Mocidade preguiçosa!

As nove horas do dia
O almoço estava botado,
Foram chamar os Garcias
O quarto estava fechado
Jovita subiu ao sótão,
Achou-o desocupado.

Dona Jovita desceu
Do sótão, muito vexada,
Perguntou: --- Homem, “quede”
Nossa filhinha estimada?
Zulmirinha foi embora,
Junto com nossa afilhada.
                
Feitosa tocou no búzio
Mandou levar um recado,
Ao compadre Cincinato
Dizendo: --- Fique informado
Que nossas filhas fugiram,
Vão em busca doutro Estado.
            
O coronel Cincinato
Distribuiu armamento
Armou cinquenta capangas
Marchou logo em seguimento
Para a casa do Feitosa,
Que era um sanguinolento.

Formaram 60 jagunços
Na casa do capitão,
Para montar a cavalo
Com armas e munição
Disseram: --- É uma guerra
Que vai se haver no sertão.

Disse Chico Banda Forra:
--- Não creio nessa vantagem,
Porque o José Garcia
Tem muito plano e coragem
Eu já sei que este povo,
Vai é perder a viagem.

--- Eu fui atrás do Garcia
Na pega do barbatão,
Mas Juvêncio Parnaíba
E Manoel Gavião,
Garcia quase nos mata...
E não tivemos razão!

O Negro de Cincinato
Fez mesa de bruxaria:
E disse: --- Eu acho custoso
Se pegar o Zé Garcia
Já vão com 23 léguas,
Passando uma travessia.
              
---As duas moças montadas
Em cavalos de cilhão,
Um negro com uma carga
De baú e matulão,
Sinforosa no cavalo,
Que pegou o barbatão.

O sol estava se pondo,
O créspulo ainda fora,
Os dois chefes se vexaram
Dizendo: ---Vamos embora
Os Garciais já vão longe.
Mas eles nos pagam agora.

Seguiram em toda carreira
Os chefes se adiantando
Alguns montados a jumentos
Os burros se acuando
Aqui, ali demoravam
Uns pelos outros esperando.

Cincianato e o Feitosa
Em sua perseguição.
Nas partes onde passavam
Pediam informação.
De dois rapazes e duas moças
Que fugiram do sertão.
              
Passaram no Araripe
Na casa de um fazendeiro
A noite, estavam hospedados,
Tiveram o melhor roteiro
Dos rapazes e das moças,
E o negro bagageiro.

Lhe disse a dona de casa:
--- Senhor capitão Feitosa,
Aqui dormiram duas moças
Zulmirinha e Sinforosa,
Presentearam meus filhos,
Já vi que moças mimosas!

--- Os dois moços se pareciam
Disseram que era irmãos.
A cada uma das crianças
Eles deram um patacão,
Foram casar no Seridó
Depois voltam ao sertão.

--- Saíram ontem daqui
Quando amanheceu o dia,
As moças mudaram de roupa
Vestiram as da montaria
Deixaram cinco cavalos,
Por ordem de Zé Garcia.

Disse o coronel Cincinato:
--- Levante o acampamento,
Devemos a toda pressa,
Botar logo um impedimento
Se não os Garcias casam.
Nem nos dão conhecimento.
              
Os Garcias em Cajazeiras
Fizeram logo uma ação.
Chegaram aos pés do Padre
Despejaram um matulão
Que estava cheio de dinheiro,
Voando as notas no chão.

O padre disse: --- Meninos
Para que tanto dinheiro?
Se tem negócio comigo
Digam o motivo, primeiro;
De onde vêm essas moças,
Fugindo assim tão ligeiro?

Respondeu José Garcia:
--- Eu fui com o meu irmão,
Ao Piauí comprar gado
Que é nossa transação
Lá raptamos estas moças,
Da casa do capitão.

--- Atrás vem um coronel
Junto com um capitão,
A fim de tomarem as filhas,
Nos fazer perseguição,
Rapaz por moça bonita
Em velho passa lição.
             
Disse o padre:---Contem comigo
Eu ajudo a dar o nó,
E sigo com os senhores
No rumo do Caicó,
Vou fazer os casamentos
Lá mesmo no Seridó.

Então mudaram os cavalos
Conforme quis Zé Garcia,
Selaram outro cavalo
Do padre da freguesia,
Seguiram com o vigário
Cresceu mais a companhia.

Os jagunços do Feitosa
E do coronel Cincinato,
Ficaram em morro dourado
Escondidos pelo mato,
Com receio de trezentos
Capangas do Viriato.

Cincinato e o Feitosa
Passaram em Mangabeiras,
Já vinham sem os jagunços
Chegaram nessas ribeiras
Perguntaram pelo Padre
Da cidade de Cajazeiras.

Disseram que o vigário
Tinha saído há três dias,
Em viagem ao Seridó
Curar noutras freguesias,
Para fazer casamentos
Na fazenda dos Garcias.
           
Os chefes do Piauí
Perderam a valentia,
Quando chegaram à fazenda
Do tenente João Garcia,
Pois encontraram as filhas
Já casadas nesse dia.
               
Sinforosa mais Zulmira
Trajaram véu e capelas,
Todo povo comtemplava
A beleza das donzelas,
Seus noivos permaneciam
Sentados juntinhos delas.

Cincinato e o Feitosa
Quando entraram no salão,
As noivas se ajoelharam
Para tomarem benção,
Os velhos abençoaram
As filhas de coração.

Cincinato e o Feitosa
Falaram amigavelmente,
Abraçaram seus dois genros
De acordo com o tenente,
Disseram:---Nossas filhinhas
Casaram decentemente.
           
Estava um rapaz louro
Poeta novo e letrado,
Com u`a viola de duas boca
Canta discurso rimado,
Hugolino do Sabugi
Felicitando o noivado.
           
Figuraram nessa festa
Os três homens de patente,
O coronel Cincinato
O capitão e o tenente,
Continuou o banquete
Naquele são decente.

Zulmirinha e Sinforosa
Depois da festa acabada,
Cada uma tomou conta
De sua casa arrumada,
Vizinha uma da outra
Na aliança acostumada.

Feitosa mais Cincinato
Depois de bem descansados,
Em casa de suas filhas
Estavam determinados,
Regressarem ao Piauí
Alegres e consolados.

O coronel Cincinato
E o capitão Feitosa,
Mandaram a grande herança
De Zulmira e Sinforosa,
Continuou dos Garcias
A família numerosa.
          
Num bebedor de animais
Se achava Zé Garcia,
Trepado numa oiticica
Duma ramagem sombria,
Metido por entre as folhas
Que debaixo ninguém via.
            
A filha do Militão
Chegou com um debochado,
Debaixo da oiticica
Se sentaram sem cuidado,
Sem saber que o Garcia
Se achava ali trepado.

Disse Francisca Ramel:
---Joaquim tenha sentimento!
Estou engordando à força
O meu bucho em crescimento,
Se papai souber se zanga
Me peça em casamento.

Tu tens que casar comigo
Sabes que sou tua prima,
Levantei falso ao Garcia
Mas você não me estima,
Quem sabe que estou grávida
É quem está lá de cima.
           
---Vagabunda sem vergonha!
Gritou logo Zé Garcia:
Eu não sei de tuas misérias
Que há tempo escondia,
Vou descarar o teu pai
Com tua patifaria.
                 
Fugiu Francisca Ramel
Em busca duma camarada,
Chegando no Caicó
Ficou de casa alugada,
E o Militão foi preso
Por fazer muita zoada.

Então correu a notícia
Que Zé Garcia raptou,
Uma moça do Piauí
Grande perigo passou,
Chegando no Seridó
A toda pressa casou.

O seu irmão Lourival
Conduziu na mesma empresa,
Uma filha do Feitosa
Admirava a riqueza,
Dessas moças que encheram
O Seridó de beleza.

O Militão cangaceiro
Que já era intrigado,
Sabendo que Zé Garcia
Agora estava casado,
Garantiu que ia mata-lo
Conforme tinha jurado.
               
Assim dizia Militão:
---Pois o tenente Garcia,
Quer ser melhor do que eu
Em dinheiro e fidalguia,
Mas eu sou um cangaceiro
Respeitado em valentia.
                
Eu posso bater nos peitos
Que sou cangaceiro honrado,
Não me lembro mais da conta
Das surras que tenho dado,
Em branco de olhos azuis
Em meus pés ajoelhado.

---Eu vou fazer tal barulho
Corre o povo a noiva chora,
E eu mato o Zé Garcia
De chicote e palmatória
E me monto no tenente
Rasgo-lhe o bucho de espora.

---Depois queimo-lhe a casa
Toco fogo no algodão,
O Garcia que escapar
Fica com essa lição,
Nunca mais enjeitará
Outra filha de Militão.
            
Às cinco horas da manhã
Quando amanhecia o dia,
Chegava um portador
Para o tenente Garcia,
Prevenir a sua casa
Porque de nada sabia.
              
---Senhor tenente Garcia
Eu só vim lhe avisar,
(Assim disse o cavaleiro)
Militão vem lhe matar,
Está juntando capangas
Para vir lhe atacar.

---Vem queimar a sua casa
Com o paiol de algodão,
Acabar com os Garcias
É toda a sua intenção;
O senhor não facilite
Com o cabra Militão.

Então disse o Zé Garcia
---Pai me entregue a questão,
Que a noite eu vou cercar
A casa de Militão,
Ele tem de vir nas cordas
Porque é um valentão.

Às oito horas da noite
Galopava Zé Garcia,
Com nove homens dispostos
Armados a fuzilaria,
Encontraram Militão
Descuidado e sem espia.
               
Quando ocultaram os cavalos
Foram se aproximando,
Viram o grupo de bandidos
No terreiro vadiando,
Os bacamartes encostados
E numa viola tocando.
               
Uma descarga tremenda
Os bandidos receberam,
Gritaram:---Chegou a tropa!
Deixaram as armas, correram,
Seguiram em busca da serra
Nas grutas se esconderam.

Militão não quis correr
Já ferido numa mão,
José Garcia pegou-o
Bateu com ele no chão,
E gritou: --- Tragam as cordas
Amarrem este ladrão!

O Militão quando viu-se
Preso por um intrigado,
Inda quis se estrebuchar
Mas já estava amarrado,
Garcia deu-lhe uma surra
Ficou ele acomodado.
             
Disse Garcia:---Bandido
Tu querias dar-me fim?
Tua filha é a parceira
Do cangaceiro Joaquim,
Eu não ia misturar-me
Com família assim ruim.
               
---Vou dar-te por despedida
Mais uma surra de peia,
Te despedes da cachaça
Do roubo da casa alheia,
Digas adeus ao sertão
Que vais morar na cadeia.

Militão foi amarrado
Levando muito facão,
Chegaram no Seridó
O botaram na prisão,
Ali findou os seus dias
O bandido Militão.

Com dois anos Zé Garcia
Tomou a resolução,
De subir ao Piauí
Com Lourival seu irmão,
Para visitar os sogros
Era própria a ocasião.

Sinforosa e Zulmirinha
Se abraçaram de contentes,
Porque iam ver seus pais
Visitar a sua gente,
Na terra onde nasceram
Para o lado do poente.
              
Partiu então Zé Garcia
Com o seu acampamento,
Chegando em Cajazeiras
Já tinha conhecimento,
Dormiram na casa do padre
Que fez os seus casamentos.
                
Era dez do mês de junho
Havia leite e coalhada,
De manhã tomaram café
Então veio a cavalgada,
Preparou-se a montaria
Para seguir a jornada.
             
Se despediram do padre
Com abraço e aperto de mão,
E seguiram em largos trotes;
Garcia disse ao irmão:
---Vamos gozar no Piauí
Uma noite de São João.

Avançaram até chegar
No ponto mais desejado,
Nas margens do Parnaíba
Onde se cria muito gado,
Pegaram Miguel Feitosa
Em casa bem descuidado.
              
Na chegada dos Garcias
Foi grande a recepção,
Continuou o banquete
Até a noite de São João,
Cincinato e o Feitosa
Gozando a satisfação.
               
Quando entrou o mês de julho
Foram rebanhar o gado,
Escolhendo boi de era
E deixando encurralados,
E os Garcias comprando
Pois estava acostumados.
            
Lourival e Zulmirinha
Ficaram com seu Feitosa,
Em casa de Cincinato
Ficou dona Sinforosa,
José Garcia desceu
Com boiada volumosa.
           
José Garcia baixou
Com seu gado pela estrada,
Chegando em Campina Grande
Vendeu a sua boiada,
Voltou para o Piauí
Ver sua esposa adorada.

Zé Garcia ia passando
Em um deserto arriscado,
Saíram três cangaceiros
O moço estava emboscado,
E Garcia estava só
Agora ia ser roubado.
                   
---Ou o dinheiro ou a vida!
Abra logo o matulão,
Acrescentou um bandido:
---Mas a minha opinião,
É que se matarmos ele
Não teremos perseguição.

Zé Garcia respondeu:
---Não faço história comprida,
Vou entregar o dinheiro
Mas não roubem a minha vida!
Você morre:---Disse um:
Matar é nossa medida.
               
Zé Garcia ainda disse:
---Pois visto eu ser cristão,
Desejo me confessar
Me ouça em confissão,
E perdoem os meus pecados
Conforme a religião.
                 
Um cangaceiro enxerido
Disse:---Então pode rezar,
Eu posso servir de padre
A fim de lhe confessar,
Vamos conte seus pecados
Eu saberei perdoar.
            
Aqui não disse:--- O Garcia
Me confesso ali no mato,
Pecado alheio tem segredo
Visto a fineza do ato,
---Vamos logo disse ele
Confesso muito barato.

Garcia disse ao ladrão:
---Aqui vamos concordar,
Eu lhe dou sessenta contos
Você vai negociar,
Matamos aqueles sujeitos
Que eu só quero escapar.             

---Você com 60 contos
Para viver tem dinheiro,
Vai ser um negociante
Até no Rio de Janeiro,
Melhor ser um homem rico
Do que ser um cangaceiro.

Disse o bandido:---Está certo
E voltou emparelhado,
O ladrão sempre dizendo:
---O homem está confessado,
Ouviu-lhe logo dois tiros
Cada um foi fuzilado.
            
Então disse Zé Garcia:
---Ouça outra confissão,
Eu tinha três inimigos
Dois estão mortos no chão
Agora só resta um
Segure o punhal na mão.
               
O cangaceiro gritou:
---Você quis me enganar!
Zé Garcia respondeu-lhe:
---Eu não vivo de matar,
Mas quando a sorte me obriga
Eu luto para escapar.

Se travaram nos punhais
Combate muito ligeiro,
Zé Garcia apunhalou
Os braços do cangaceiro,
E disse depois:---Ladrão
Tu não roubas meu dinheiro.
               
Botou-lhe o pé no pescoço
O bandido não fez ação,
Disse:---Estou acostumado
A assinar barbatão.
Vou deixar o meu sinal
Nas orelhas deste ladrão.
             
  O ladrão disse não queira
Desgraçar-me desse jeito,
Garcia lhe respondeu:
---Você perdeu o direito,
Lhe fez o que bem queria
Dizendo:---Estou satisfeito.
                 
Garcia montou a cavalo
Continuou galopando,
Deixou no meio da estrada
Um roubador praguejando,
Com dois cadáveres de lado
Os urubus festejando.

Depois do mês de São João
Garcia fez despedida,
Voltando do Piauí
Com sua esposa querida,
Lourival e Zulmirinha
Houve choro na partida.

E depois um aleijado
De porta em porta pedia,
Quem lhe dava uma esmola
Admirado dizia:
---As suas orelhas tem,
O sinal de Zé Garcia!
            
Respondia o ex-cangaceiro:
---Eu mesmo fui o culpado,
Nas matas do Ceará
Zé Garcia foi cercado,
Morreram meus companheiros]
E eu escapei aleijado.

Continuou Zé Garcia
Em São João do Sabugi,
De ano em ano visitava
Os campos do Piauí
Como topador de touro
Outro igual não tinha ali. 
             F I M