sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

CORDEL DIGITADO VII

Romance do Escravo Grego

João Martins de Athayde

 

Este episódio Leitores

Passou-se na antiguidade

Quando esta palavra, amor

Dizia: sinceridade

Aonde essas quatro letras

Eram o emblema da verdade.

 

No Reinado de Navarra

Que há muito foi destruído

Deu-se este drama de amor

Que nunca foi esquecido

O tempo não apagou

Este fato acontecido.

 

Vamos aqui encontrar

O reino em grande festim

O seu monarca Romero

Passeando no jardim

Conversando com a esposa

E ia dizendo assim:

               01

 – Eu não sei querida Ester

Acho um caso melindroso

Nossa filha tem um gênio

Que acho triste, horroroso

Eu de hoje por diante

Tenho que ser rigoroso.

 

– Eu hei de casá-la à força

Ela faz o que eu quiser

Pois para mim um país

Governado por mulher

Cai breve em decadência

O povo faz o que quer.

 

– Mas Romero, diz Ester

O seu gênio é muito forte

Eli nasceu pra mandar

Aquilo é de sua sorte

Seu egoísmo ao poder

Só se acaba com a morte.

 

– E que faço? disse o rei

Lhe fitando acabrunhado,

Casei-me já muito velho

E estou muito cansado

Breve darei a Eli

A coroa do reinado.

 

Os soberanos calados

Seguiram para o salão

Aonde os pares dançavam

Ao som da valsa-canção

Eli odiava a dança

Pouco prestava atenção.

           02

Estava ali no salão

Por ato de gentileza

Era muito presumida

E sua extrema frieza

Faziam os príncipes ficarem

Aborrecendo a princesa.

 

Eli era graciosa

Tinha grande simpatia

Pois o seu porte elegante

De grande soberania

Lembrava bem a Cleópatra

Que o que quisesse fazia.

 

A festa durou dez dias

Foi concorrida e animada

Mas assim que terminou

Os príncipes em retirada

Foram embora pra seus reinos

Deixando Eli descansada.

 

Romero mais uma vez

Chamou Eli pra avisar

Que assim daquela forma

Era em vão continuar

Pois ela de qualquer jeito

Havia de se casar.

 

– Filhinha, disse o monarca

Tens vinte anos de idade

Já passaste de casar

Pois minha maior vontade

Era de ter já um neto

Que grande felicidade!

                03

– Meu pai, falou a princesa

Com infinito desdém

Nunca hei de me casar

Nem por mal nem por bem

Sou senhora dos meus atos

Não dou conta a ninguém.

 

– Sinto; falou a princesa

Um terror particular

Por todo homem que vejo

Já ver, não posso casar

Minha aversão é tão grande

Que nem os posso fitar.

 

O rei empalideceu

E Eli ficou sombria

Que dizes, meu bom papai?

Disse ela meiga e fria

– Vais muito mal, disse ele

Hás de sofrer algum dia.

 

– Bem disse o rei, lhe fitando

O que pretende fazer?

– Ora! falou a princesa

O senhor deve saber

O meu trono é meu marido

Reinarei até morrer.

 

Ouvindo aquelas palavras

O soberano calou

Com os olhos fito ao chão

Para a filha não olhou

Eli calma e muito fria

Do salão se retirou.

            04

Romero estimava a filha

Pois ela lhe ajudava

Quando ele estava ausente

No trono ela ficava

Seu governo absoluto

Todo mundo admirava.

 

E na ausência do pai

Quando a princesa ficava

Os conselheiros do rei

Com nenhum ela falava

Sua ordem era uma lei

Ninguém ali boquejava.

 

Romero sempre saía

Pois vivia adoentado

Ia pra sua fazenda

Nos confins do seu reinado

Deixava Eli na regência

E ficava sem cuidado.

 

Um dia a rainha Ester

Apresentou-se doente

E o seu mal agravou-se

De um modo de repente

E cada dia a moléstia

Piorava horrivelmente.

 

Romero estava nervoso

Eli triste e assustada

Em uma noite de junho

De rigorosa invernada

A rainha faleceu

Muito calma e sossegada.

              05

O rei adorava Ester

Sua morte de repente

Fez o monarca sofrer

Um golpe atroz inclemente

Ficou fraco e abatido

Quem já vivia doente.

 

O rei triste e pesaroso

Com o coração enlutado

Sentiu o peso cruel

Da perda do ente amado

Deixou Eli governando

Ausentou-se do reinado.

 

Eli passou vários dias

Que não acertava nada

Chorava de dia à noite

No aposento trancada

Mas depois de alguns dias

Estava mais consolada.

 

Tomou conta da regência

Daquele seu modo antigo

Disse logo aos conselheiros

Se faz aquilo que digo

E quem não me obedecer

Sofrerá grande castigo.

 

Deixemos a princesinha

No reino como regente

Vamos encontrar o rei

Disposto e até contente

No reinado de Justino

Um seu amigo e parente.

              06

Romero chegou doente

Mas ficou logo disposto

Pois no reino de Justino

Ele viu um lindo rosto

Que levou do coração

O seu profundo desgosto.

 

A dona desse tal rosto

Era a princesa Rosina

Que ficou na orfandade

Desde o tempo de menina

Seus pais foram assassinados

Tiveram uma triste sina.

 

Rosina era muito esperta

Todo príncipe que chegava

Sendo ela a mais bonita

Num instante a namorava

E por isso sua prima

Com ódio dela ficava.

 

E Rosina quando viu

O rei viúvo chegar

E interessar-se por ela

Ela não quis recusar

Achou ele muito velho

Mas queria se casar.

 

Romero já tinha feito

Setenta anos de idade

Mas era um velho disposto

Fugia a ociosidade

Fora calmo e virtuoso

Nos tempos da mocidade;

               07

Romero pediu Rosina

Justino com gosto deu

E perante toda corte

Contratou-se o himeneu

O monarca neste dia

Pra sua filha escreveu.

 

Eli recebeu a carta

Ficou de tudo ciente

E disse consigo mesma:

Não acho isso decente

Meu pai casar com u`a jovem

Termina louco demente.

 

Eli respondeu a carta

Na manhã do outro dia

Lhe enviando parabéns

Sem demonstrar alegria

Romero quando leu disse:

Sei que ela não queria.

 

Rosina não gostou muito

E disse: ela é solteira?

– É, falou sério o monarca

Pensa de outra maneira

O que toda mulher sonha

Pra ela é pura leseira.

 

– Diz que só cobiça o trono

Isto é o seu sonho de vida

Odeia todos os homens

É por demais presumida

É assim, mas lhe adoro

É uma filha querida.

               08

Romero voltou ao reino

Com a noiva em companhia

E toda corte o esperava

Era grande a alegria

Eli recebeu Rosina

Indiferente e sombria.

 

Beijou a mão do seu pai

E esse lhe apresentou

Rosina, a segunda esposa

E Eli mal abraçou

Fez ciente dos negócios

Do salão se retirou.

 

No outro dia Romero

Chamou Eli ao seu lado

E disse: vou me casar

Sinto-me muito isolado

Preciso de uma esposa

Para viver descansado.

 

– Está bem, falou Eli

Sei que está no seu direito

Mas segundo casamento

Nunca vi dá bom proveito

Ao meu modo penso assim

Mas ninguém pensa dum jeito.

 

Romero via que a filha

Não era de opinião

Que a segunda vez casasse

Mas não prestou atenção

A beleza de Rosina

Dominava-lhe o coração;

                09

Foi marcando o casamento

Eli não disse mais nada

Rosina com o rei Romero

Havia de ser casada

A cidade começou

Ficar logo embandeirada.

 

Rosina era bonita

Inteligente e vaidosa

Seu guarda-roupa erra rico

Nisto era caprichosa

Andava como uma boneca

Toda faceira e mimosa.

 

Era uma leviana

Gostava de ser olhada

Por todo homem queria

Ser vista e bem reparada

Era fácil nos amores

Se fingia delicada.

 

Romero podia ver

Que a princesa Rosina

Não casava por amor

Sim, talvez por sua sina

A sorte quem dá é Deus

É ele quem determina.

 

Afinal chegou o dia

Do rei Romero casar

Era tanto convidado

Que fazia admirar

Fidalgos de toda corte

Não cessava de chegar.

                10

Rosina foi pro salão

Estava bela e elegante

O seu vestido de noiva

Ficou todo deslumbrante

Ela deu o braço ao rei

Com um sorriso triunfante.

 

Eli não tinha vontade

De assistir o casamento

Foi a pedido do pai

Com grande constrangimento

Terminando a cerimônia

Saiu no mesmo momento.

 

A festa foi duradoura

Pois Rosina assim queria

Terminou depois de um mês

Quando alguém se aborrecia

O rei com a nova esposa

Tudo era riso e alegria.

 

Romero deliberou-se

Passar a lua de mel

No reino de Marquezan

Do seu primo Rafael

Lembrava-se da esposa

Achava aquilo cruel.

 

Chamou a filha e lhe disse:

Eli, tenho que partir

P`ro reino de Marquezan

Tenho amanhã que seguir

E ficas no meu lugar

Até o dia de eu vir.

             11

Como não queres casar

Pretende reinar sozinha

Quando eu voltar do passeio

Hei de te fazer rainha

Minha coroa e meu trono

Dar-te-ei minha filhinha.

 

– É no teu aniversário

Que hás de ser coroada

Completas vinte e três anos

Oh! Que rainha invejada!

Quisera que neste dia

Te visse também casada.

 

Apesar de tão sombria

Eli sorriu docemente

E disse: meu bom papai

Eu quero viver somente

Pra meu reino e pra você

Sou feliz eternamente.

 

Eli beijou o seu pai

Num transporte de alegria

Ter um reino em suas mãos

Era o que ela queria

Homem, amor, vaidade

Pra ela não existia.

 

Romero com sua esposa

No outro dia embarcou

Rosina ia muito alegre

Mais contente Eli ficou

E a direção do reino

No mesmo dia tomou.

              12

Os conselheiros souberam

Que Eli a princesinha

Dali a uns quatro meses

Havia de ser rainha

Quiseram então protestar

Mas outro jeito não tinha.

 

Eli apesar de ser

Prepotente e orgulhosa

Todo povo lhe chamava

A bonequinha mimosa

Diziam que era simples

Bonita, mas não vaidosa.

 

Então o povo dizia:

A nossa princesa é bela

Muito breve é coroada

Só quem manda aqui é ela

Não quer casar, e por isso

Inda mais gostamos dela.

 

Deixemos a princesinha

Na corte do seu reinado

Vamos encontrar Romero

Por Rosina apaixonado

No Reino de Marquezan

Feliz e bem descansado.

 

O rei Rafael seu primo

Comemorou a chegada

De Romero a sua côrte

Deu uma festa animada

E Rosina parecia

Uma boneca enfeitada.

               13

Na noite da grande festa

Rafael foi disse assim:

Em honra tua, caro amigo

Vai brilhar nesse festim

Um escravo bailarino;

Deram de presente a mim.

 

De presente? diz Romero

Eu acho até engraçado

Se fosse uma bailarina

Achava mais acertado;

– Pois meu primo, diz Rafael

Vais ficar admirado.

 

– E porquê? disse Romero

Rafael aí sorriu

E disse: beleza em homem

Outro a terra não cobriu

Pra lhe falar a verdade

Você assim nunca viu.

 

Neste momento surgiu

Bem no centro do salão

Um jovem em traje de grego

Que fez chamar atenção

Tão belo como um Apolo

Causou admiração.

 

Rosina em sua poltrona

Assim que o avistou

Não pôde tirar a vista

A beleza a fascinou

Pelo jovem escravo grego

Num instante se apaixonou.

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O escravo saudou a todos

Com extrema cortesia

Dançou com garbo e elegância

Rosina em chama se ardia

Uma paixão desumana

No seu terno olhar se via.

 

Ciron, eis o lindo nome

Desse escravo tentador

Alto, esbelto e elegante

Um Adônis sedutor

Lembrava uma estátua grega

No jardim do Criador.

 

Era forte e varonil

Tinha um riso fascinante

Os seus olhos, tinha um brilho

Misterioso e flamante

Um príncipe o invejaria

Tal o seu porte elegante.

 

Romero ficou olhando

E disse muito espantado

É verdade, Rafael

É bonito que é danado!

Seduz a toda mulher

Creia que estou abismado?

 

Rafael, disse Romero

Você pode me vender

Este escravo? pago logo;

O outro riu sem querer

Disse: pois não, caro amigo

Com gosto posso ceder.

                  15

– É pra dá-lo de presente

A minha Eli orgulhosa

Ela odeia todo homem

É por demais presunçosa

Não achas que vou bulir

Com uma gata raivosa.

 

O monarca Rafael

Deu uma boa risada

Disse: quando Eli pegá-lo

Dá-lhe uma surra danada

E diz que homem bonito

Só presta para empregada.

 

Quando a festa terminou

E todos se retiraram

Rosina e o soberano

Num rico aposento entraram

E antes deles dormirem

Muito tempo palestraram.

 

Disse Rosina a Romero

Nossa côrte é decente

Não existe diversões

E só vive tão somente

Pra festa religiosa

Num mutismo impertinente.

 

– E porque? disse Rosina

Não compra para levar

Esse escravo bailarino

A côrte irá delirar

A nobreza de Navarra

Gosta muito de dançar.

              16

Sim, Rosina, diz Romero

O escravo está comprado

Vou leva-lo para a côrte

E vai ser presenteado

A minha Eli caprichosa

Não foi um plano acertado?

 

Rosina viu os seus planos

Caírem todos no chão

Pois o jovem escravo grego

Roubou o seu coração

E como ela então podia

Saciar a sua paixão?

 

– Mas Eli odeia os homens

(pensou Rosina consigo)

Ela logo arrenega

E o tem como inimigo

Ele será meu amante

E meu desvelado amigo.

 

Todo este pensamento

Como uma flexa passou

Na cabeça de Rosina

Que rindo pr`o rei olhou

Deu certinho o que pensei

E meigamente o beijou.

 

O rei com aquele carinho

Abraçou-a apaixonado

Não passava em sua mente

Que ia ser enganado

E que Rosina queria

Fazer Ciron seu amado.

                17

O rei não quis demorar

Na côrte de Rafael

Estava ficando eterna

A sua lua de mel

Mesmo estava com saudade

Da filha doce e cruel.

 

Arrumou sua bagagem

Do primo se despediu

Levou consigo o escravo

Mas ninguém da côrte viu

No seu pomposo veleiro

Para Navarra seguiu.

 

Dez dias antes, o monarca

Para Navarra mandou

Uma carta para Eli

Ela ciente ficou

Da chegada do seu pai

E com festa lhe esperou.

 

Eli estava contente

Porque aquela chegada

Era os prenúncios felizes

De breve ser coroada

Só pensava em seu trono

E ter um reino e mais nada.

Romero então chegou

Bem feliz e prazenteiro

Falar com sua filhinha

Foi seu cuidado primeiro

Depois particularmente

Com Alonso conselheiro.

               18

Sobre o escravo Ciron

Romero não disse nada

Queria dá-lo a Eli

Quando fosse coroada

Sim, no dia dos seus anos

Ia ser presenteada.

 

Todo reino preparou-se

Para uma festa pomposa

A coroação de Eli

Iria ser majestosa

O rei queria que fosse

Uma festa gloriosa.

 

Vamos falar em Rosina

Na sua grande paixão

Esperava com cuidado

Numa boa ocasião

Para saciar o capricho

Do imbecil coração.

 

Rosina fazia tudo

Pra descobrir onde estava

Ciron, o escravo grego

Mas de forma alguma achava

E soube que seu esposo

Escondido o conservava.

 

Rosina então chamou Zita

Sua dama confidente

E fez ela sabedora

De sua paixão ardente

Deu uma carta pra entregar

A Ciron urgentemente.

               19

Zita saiu com a carta

Com cuidado e atenção

Pra satisfazer Rosina

Fazia arte até do cão

Fez mais de mil piruetas

Mas deu-lhe a carta na mão.

 

Ciron rasgou o envelope

 E leu todo conteúdo

– Que loucura! disse ele

Sendo ciente de tudo

Da esposa do monarca?

E cruzou os braços mudo!

 

– Nunca! falou o escravo

Farei esta traição

Essa senhora está louca

Só sendo uma tentação

Ela quer ver-me na forca

Meu sangue ensopando o chão.

 

Disse a dama: e o que digo

A minha boa senhora?

– Que não! falou o escravo

E pode já ir embora!

E botou-lhe um olhar tão feio

Que Zita ali deu o fora.

 

Assim que Zita chegou

Rosina muito contente

Perguntou: quede a resposta?

Disse Zita friamente

Ele me disse que não

Tratou-me asperamente.

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– Vou esperar diz Rosina

A Eli ser coroada

Pois a côrte em reboliço

Eu não posso fazer nada

Depois das festas então

Eu ponho em campo a jogada.

 

– Oh! Senhora! diz a dama

O escravo é sedutor

Não há mulher que resista

Oh! Que homem encantador

A Alteza tem razão

De estar cega de amor!

 

Rosina riu de contente

E disse: calma é segredo;

– Oh! senhora, disse Zita

Pode confiar sem medo

E mesmo não quero ir

Tão nova para o degredo.

 

Agora vamos tratar

Sobre a côrte e o movimento

O trono foi reformado

Era chegado o momento

A coroação de Eli

Era um deslumbramento.

 

A côrte estava repleta

Os hotéis superlotados

E nos castelos feudais

Tinham nobres hospedados

No palácio imperial

Tinha dez mil convidados.

             21

Afinal surgiu o dia

Desejado da princesa

O céu estava dourado

Resplandecente a natureza

Eli saiu do seu leito

Bela em sua singeleza.

 

Às onze horas do dia

A princesa se encontrava

Com os trajes de rainha

Toda a côrte acompanhava

E para o salão do trono

Garbosamente marchava.

 

Sob as bençãos de Deus

E segundo o ritual

Eli leu o grande edito

Para o mundo oficial

E foi então coroada

Num delírio sem igual.

 

Eli completava anos

Neste belo e grande dia

Diante das homenagens

Indiferente sorria.

Romero ex-rei de Navarra

De prazer não se cabia.

 

O monarca então lembrou-se

Do escravo incontinente

Mandou buscar pelo o pajem

Logo imediatamente

Levou-o a nova rainha

E fez a ela o presente.

             22

– Eli, falou o monarca

Há muito tempo comprei

Este escravo bailarino

Porém a ti não mostrei

É teu presente de anos

Não gostasses eu bem sei.

 

Eli fitou o escravo

Fez tremer no coração

Fez ela empalidecer

Altiva estender-lhe a mão

Ele ajoelhou-se e beijou-a

Ficando de prontidão.

 

– Obrigado, bom papá

Disse a rainha sombria

Eu aceito o seu presente

De ninguém aceitaria;

E disse para Ciron:

És o meu pajem de dia.

 

Entrou o escravo Ciron

A serviço da princesa

Que agora era rainha

E sua rara beleza

Fazia Eli revoltar-se

Trata-lo com aspereza.

 

Eli tratava Ciron

Com infinito desdém

Só falava asperamente

Pra ela era um ninguém

E mesmo quando fitava

Eli não se sentia bem.

               23

Eli gostava de esportes

E quando ela ia jogar

O seu escravo Ciron

Tinha que lhe acompanhar

E o seu menor desejo

Tinha que executar.

 

Eli, como o leitor sabe

Todo homem a aborrecia

Mas aquele escravo grego

Quando ela o oprimia

Satisfação e remorso

No mesmo instante sentia.

 

Em uma tarde de inverno

Ela estava enfadada

Cheia de muito trabalho

Ciron vendo-a aperreada

Disse: majestade eu faço

Pode ir dormir descansada.

 

Ela fitou-o com ódio

Encontrou o seu olhar

Mas os olhos do escravo

Tinha o quê de dominar

Ela disse não precisa

De ninguém me ajudar.

 

Ciron pediu-lhe desculpas

Do salão se retirou

Mal chegou na ante-câmara

Um vassalo lhe avisou

A nossa rainha o chama

O escravo se assustou.

               24

Ciron voltou assustado

A sua fisionomia

Tinha um cunho de tristeza

Eli fitou-o sombria

Disse: venha me ajudar

Com voz áspera e muito fria.

 

Eli explicou o trabalho

Ciron prestou atenção

Fez tudo como ela disse

Não houve reclamação

Era o pajem e ajudante

Mudou de situação.

 

Uma tarde Eli estava

No seu quarto se aprontando

E sua dama Geny

Estava lhe penteando

Muito triste estava a jovem

Sempre, sempre suspirando.

 

– Que tens? falou a rainha

A dama ficou calada

Disse Eli: tens quinze anos

E a ti não falta nada

És minha primeira dama

De todos admirada.

 

– Oh! disse a menina triste

São males do coração

O escravo da majestade

Cantou ontem uma canção

Que voz sublime... e senti

Por ele grande paixão.

                25

Disse Eli: que pensamento!

És uma jovem prendada

Podes casar com um conde,

Escravo, não vale nada

Não digas mais isto a mim

Nem mesmo por caçoada.

 

Eli depois que aprontou-se

Pegou uma carruagem

Com ela ia Ciron

Com o seu libré de pajem

Uma dama muito velha

Ia também na viagem.

 

Enquanto a carruagem

Andava bem devagar

Eli tirou um espelho

Da bolsa pra si olhar

Ciron estava ao seu lado

Não lhe ousava fitar.

 

Mais adiante o cocheiro

Fez parar a carruagem

E disse: rainha Eli

O rio não dar passagem

Pra se ir por dentro dele

Precisas muita coragem.

 

– Passe senhor! disse Eli

Odeio homem mofino

O cocheiro obedeceu

Como se fosse um menino

Botou no rio o cavalo

Confiado no destino.

                26

Quando os cavalos desceram

Que a carruagem entrou

A correnteza era forte

E com força carregou

Viajantes e cavalos

Aos solavancos levou.

 

Eli sabia nadar

Mais a grande correnteza

Com arrojo arrastou-a

Tirando toda destreza

Ciron tomou-a nos braços

Salvando assim a princesa.

 

Com força superior

Ciron alcançou a margem

Era forte e tinha força

Muita destreza e coragem

Saiu à margem do rio

Deitou Eli na folhagem.

 

Se vendo assim só com ela

Ciron foi e lhe beijou

Foi um momento feliz

E quando Eli despertou

Se vendo toda molhada

Com ódio lhe perguntou:

 

– Que fazes aqui comigo?

Disse ela indignada

Disse Ciron calmamente:

Trouxe a alteza desmaiada

Pois no rio a carruagem

Ficou toda esbandalhada.

                27

Ela olhou para Ciron

Mas nada lhe agradeceu

Apenas lhe disse: vamos

O escravo obedeceu

Quando chegou na estrada

O cocheiro apareceu.

 

Vamos agora tratar

Do grande amor de Rosina

Louca de amor pelo escravo

Como quem não se domina

Pra se fazer sua amante

Seria até assassina.

 

Rosina então mandou Zita

Sua dama e chaleira

Com uma carta pra Ciron

Mas ela encontrou barreira

Voltou depois duma hora

Suada e muito ligeira.

 

– Oh! senhora: disse Zita

Eu não pude fazer nada

Se o rei descobrir isto

Manda matar-me enforcada

É melhor que a senhora

Vá num traje disfarçada.

 

Mal o sol se escondia

Quando a noitinha caiu

Rosina se aprontou

Com uma capa se cobriu

No oitão tomou um carro

E só Zita foi quem viu.

               28

Romero ex-rei de Navarra

Morava noutro castelo

Distante da capital

Era um palacete belo

Com Rosina a traiçoeira

Pra ele tão doce elo.

 

E como Romero fora

Visitar um rei amigo

Rosina se aproveitou

Desconhecendo o perigo

E foi ver o jovem escravo

Sem ter medo do castigo.

 

Rosina saltou do carro

Tomou uma hospedaria

Fez um bilhete a Ciron

Com uma grande tapia

Dizendo: cheguei da Grécia

Tua irmãzinha Maria.

 

Ciron tinha uma irmãzinha

Rosina pôde saber

Pois só assim desta forma

Ela poderia lhe ver

E o seu profundo amor

De viva voz lhe dizer.

 

Momentos depois, Ciron

Numa alegria incontida

Bateu na porta julgando

Ver a sua irmã querida

Deparou-se com Rosina

Decentemente vestida.

               29

– Que quer senhora: diz ele

Vendo Rosina trancar

A porta com violência;

Diz ela: quero falar;

Sua voz quente e amorosa

Tinha um quê de dominar

 

– Escuta amor, diz Rosina

Há muito te escrevi

Revelei minha paixão

Que por ti sempre senti

Mandaste dizer que não

Nem por isso me ofendi.

 

– Sou esposa do rei

Mas isso não vale nada

É um velho muito doente

Sinto-me só isolada

E quero ser tua amante

Tens em mim a tua amada.

 

Dizendo isto Rosina

Do escravo se acercou

Mas ele com olhar de ódio

Quatro passos recuou

E lhe disse : sua altezas

Comigo se enganou.

 

Olhe bem, sou um escravo

Alteza não ignora

Quer que vá parar na forca?

Tenha compaixão, senhora

Procure um seu igual

Dê licença eu vou embora.

                30

– Que importa, disse: ela

Se és o homem querido

Que sempre idealizei

Achei-te, estava perdido

Não me despreze, Ciron

Eu tenho muito sofrido!

 

– Confie em mim, disse ela

Se quiseres irei contigo

Daqui para muito longe

Levo dinheiro comigo

Iremos viver felizes

Bem longe do inimigo.

 

– Senhora, disse o escravo

Eu não quero nem lhe ver

Faça a queixa que quiser

E bem o que entender

Pois mulher como a alteza

Eu dou um não com prazer.

 

– Ciron! Ciron!...  disse ela

Como louca soluçando

Não renegues meu amor

Há tempos venho te amando!

Com ímpeto apaixonado

Foi com ele se abraçando.

 

Mas Ciron com violência

Dos braços se escapuliu

A chave estava no chão

Mas que depressa ele abriu

A porta do dormitório

E as carreiras saiu.

               31

– Miserável rugiu ela

Cheia de ódio e furor

Hás de pagar com a vida

A desfeita deste amor!

Teu sangue vejo correr

Para lavar minha dor!

 

E Rosina se torcia

Como cobra envenenada

Mordia os dedos nervosa

Como louca endiabrada

Quando melhorou saiu

Em sua capa enrolada.

 

Rosina contou a dama

Todo fato acontecido

E disse: ele tratou-me

De um modo descabido

E digo, ele passou

Da hora de ter morrido.

 

Quando Romero chegar

(disse ela enfurecida)

Irei fazer sua cama

Não há quem lhe poupe a vida

Pois o rei faz o que quero

A minha ordem é cumprida.

 

Ciron sai as carreiras

E no palácio chegou

Eli há tempo esperava-o

Mas nada lhe reclamou

E para onde tinha ido

Também não lhe perguntou.

                 32

No outro dia de noite

Eli estava no salão

Repousava no divã

Tinha calmo o coração.

Quando ouviu alguém cantar

Uma plangente canção.

 

A janela estava aberta

E a noite estava fria

Uma lua muito branca

Lá no céu aparecia

Aquela voz para Eli

Um bem-estar lhe trazia.

 

– Quem canta? falou Eli

Sua dama suspirou

E lhe disse: vosso escravo;

Ela inda mais se irritou

E lhe disse: vá chama-lo

E o traga onde estou.

A dama lhe obedeceu

Eli ficou meditando

O seu olhar calmo e frio

Olhava a lua vagando

Neste momento Ciron

No salão foi logo entrando.

 

Ciron lhe fez reverência

Com cerimônia e respeito

Eli olhou-o de lado

Disse: não acho direito

Que o senhor viva cantando

Cantiga de tal conceito.

               33

– Não cantes mais disse ela

O teu cantar me irrita

Embora que todos digam

Que tua voz é bonita

Acho fanhosa e sem som

Horrivelmente esquisita.

 

Ciron depois que ouviu

Retirou-se emudecido

Eli sorriu com desdém

Em vê-lo assim abatido

Mas a voz daquele escravo

Não saía do ouvido.

 

Toda raiva que ela tinha

No escravo se vingava

No outro dia amanheceu

Que ninguém lhe suportava

E era bem junto dela

Que ele sempre trabalhava.

 

Eli estava trabalhando

E sem querer se cortou

Com ódio, olhou pro escravo

E disse: hoje cantou?

– Não senhora, disse ele

E para ela fitou.

 

– E porque? disse Ciron

Ela fitou-o sombria

E lhe disse: quando cantas

Mais parece bruxaria

Tudo de mal acontece

Seja de noite ou de dia.

                 34

–  Anda! diz ela irritada

E estendendo sua mão

Chupa o sangue deste dedo

Ciron prestou atenção

Levou-o a boca e prendeu

Fazendo logo a sucção.

 

– Engole: diz ela séria

E Ciron obedeceu

Então o sangue de Eli

Rapidamente desceu

À garganta do escravo;

Eli lhe disse: ofendeu?

 

– Não senhora, disse ele

Ao contrário, me fez bem

Atou a gaze no dedo

Disse ela com desdém:

Pode agora trabalhar

Não preciso de ninguém.

 

Ora, nessa noite, Eli

Sonhou que Ciron morria

Transpassado num punhal

E ela muito sofria

O vendo banhado em sangue

Em uma lenta agonia.

 

Ela acordou assustada

Com uma grande impressão

Saltou depressa do leito

Pálida e cheia de emoção

E chamou por sua dama

Em uma louca aflição.

               35

– Majestade, disse a dama

O que é que está sentindo?

Eu sonhei, falou Eli

Com alguém aqui bolindo

Mande acordar o escravo

Que está no quarto dormindo.

 

– Diga-lhe que venha cá

Para fazer sentinela

Agora vou me deitar

E feche esta janela;

A dama lhe obedeceu

Retirou-se com cautela.

 

Ciron estava dormindo

No seu quarto alguém entrou

Era um guarda do palácio

Que com calma o despertou

E disse: sua majestade

Agora mesmo o chamou.

 

– Disse que fosse guardar

Agora nesse momento

Até a noite passar

No seu real aposento

Ciron sorriu e lhe disse:

Isto é medo ou fingimento?

 

Ciron botou o fuzil

E foi fazer sentinela

Sentou-se numa cadeira

Bem pertinho da janela

Enquanto Eli ressonava

No seu leito de donzela.

                36

Mas Eli não ressonava

Entre o macio cetim

Ela olhava o seu escravo

Pra sua tez de marfim

Pra seus olhos como estrelas

Como jamais viu assim.

 

Ciron de manhã saiu

Estava bem pernoitado

Mas tinha visto a rainha

Num ressonar compassado

Com as mãos num mar de renda

Como um lírio abandonado.

 

Quando foi no outro dia

Eli estava abatida

Tinha as olheiras profundas

E um mal-estar na vida

Irritava-se com tudo

Indisposta e aborrecida.

 

Cada dia que passava

Eli sentia-se mal

Antigamente tão calma

Vivia em seu natural

Mas agora estava horrível

Uma coisa sem igual.

 

Nesta tarde Eli estava

Dando o seu expediente

Quando o escravo Ciron

Disse calmo certamente

Majestade, vosso pai

Quer falar-lhe urgentemente.

                  37

Eli olhou pra Ciron

E disse: mande ele entrar;

– Majestade, é só com ele

Ela não quis replicar

Saiu do trono e deixou

O povo a lhe esperar.

 

Eli quando viu seu pai

Com a feição diferente

Perguntou muito espantada:

O senhor está doente?

Beijou-lhe as mãos e lhe disse:

Que fez quando estava ausente?

 

– Está pálido disse ela

Alguma notícia ruim?

– Sim, filha, disse ele

Teu escravo vai ter fim

Não sabes o que ele fez/

Ele tem ódio de mim.

 

– Bem sabes que fui passar

Uns dias com Rafael

Na minha ausência este escravo

Com seu instinto cruel

Fez-se amante de Rosina

Veja este triste papel.

 

– Diz ela que ele agrediu-a

Eu isto não acredito

Ele, um tipo sedutor

Conquistador e bonito

Forçou Rosina a cair

Em seu laço tão maldito.

              38

 – Diz ela que vai ser mãe

E contou isto chorando:

– Ciron é pai de meu filho...

E me pediu soluçando

O perdão, mas não lhe dei

E eu termino a matando.

 

– Não a mate, disse Eli

E quando ela tiver

A criancinha, o senhor

Então faça o que quiser

Embora ninguém confie

Em palavra de mulher.

 

– E não achas, disse o rei

Com ódio e indignação

Que a morte deste escravo

É o pago da traição?

Eli ficou pensativa

E disse: é, tem razão.

 

– Por isso ele há de morrer

E venho te avisar

Amanhã às cinco horas

O mando guilhotinar;

– Sim, - diz --- Eli – amanhã

Mandarei o executar.

 

O rei Romero saiu

E Eli ficou calada

Oh! Deus! diz ela consigo

Sentindo a alma gelada

Ciron morrer amanhã

Às quatro da madrugada?!

                39

– E porque? falou Eli

Eu estou me revoltando

E sinto meu coração

E minha alma reclamando

Que o salve, que o salve!

Meu Deus, estarei amando?

 

Naquele momento Eli

Sentiu um grande pavor

O seu coração pulsava

Era a febre do amor

E uma lágrima furtiva

Caiu amarga de dor.

 

– O que faço? disse ela

Olhando para a criada

Não posso ver essa morte

Morrerei alucinada!

Caiu sem forças abatida

Bem no seu leito prostrada.

 

– Tenha força: disse a dama

Seja cruel, inclemente

Faça o que a majestade

Sempre fez antigamente

Mas o escravo Ciron

Fez a pensar diferente.

 

Eli tomou um cartão

E escreveu com cuidado

Mandou a ordem pra ser

O escravo executado

Bem em frente do palácio

Ia ser guilhotinado.

              40

De noite chegou à ordem

Diz Ciron: que triste sina!

Morrer por não aceitar

Ser amante de Rosina

Dar de presente tão novo

A cabeça à guilhotina.

 

Como tinha de seguir

O escravo se calou

Para a escura prisão

Com o guarda ele marchou

Depois de cinco minutos

Eli no cárcere entrou.

 

Ciron pergunta a ela

Porque manda me prender?

Ela fitou-o nervosa

E lhe disse: vais morrer

E tudo que praticaste

Vais agora me dizer.

 

– Nada fiz! disse Ciron

Estou de tudo inocente!

E vendo falar assim

Eli fitou-o docemente

Sentiu sua alma viver

E seu coração contente.

 

– Eu soube disse Ciron:

Que a soberana Rosina

Disse que foi minha amante;

Mentiu! é uma assassina

Nunca a quis ela vingou-se

Botando-me na guilhotina!

                 41

– Então Ciron, disse ela

Posso mesmo confiar

Que é um falso testemunho

Que ela quer te levantar?

Sim, majestade, diz ele

Pode em mim acreditar.

 

Eli puxou sua capa

Lindo manto de veludo

Fitou bem para Ciron

Naquele olhar disse tudo

O escravo estremeceu

Mas baixou a fronte mudo.

 

Eli saiu da prisão

Triste e silenciosa

Entrou no seu aposento

Estava muito nervosa

Diz ela a situação

Para mim é melindrosa.

 

Todo povo já sabia

Desta triste execução

Apesar de ser tão cedo

Era grande a multidão

E o rei Romero foi ver

Do palácio no balcão.

 

Ciron subiu as escadas

Disposto para morrer

O padre lhe perguntou

Se algo tinha a dizer

Disse Ciron: nada tenho

Ninguém pode me valer.

             42

Mas assim que o carrasco

Mandou Ciron repousar

A cabeça sobre o cepo 

Se ouviu alguém gritar

Eli sedenta de ódio

Acabava de chegar.

 

– Suspenda a execução

Disse Eli num estertor

Sou rainha deste reino

E não conheço senhor!

A multidão lhe olhava

Gelada pelo terror.

 

Eli subiu as escadas

Num grito desesperado

O carrasco perfilou-se

Ciron ficou espantado

Ela disse pro verdugo:

Retire-se, desgraçado!

 

Ciron caiu aos seus pés

E beijou a sua mão

Disse ela: não te ajoelhes

Pois não é aí do chão

Que quero que tu me beijes

Sim, junto ao meu coração.

 

– Não sou mais tua rainha

Sim, tu és o meu senhor

Uma escrava que te oferta

Sua vida e seu amor

Ciron beijou-lhe entre gritos

Da multidão em furor.

                43

– Eli, falou o escravo

Eras tu minha rainha

Vejo-te agora em meus braços

Leve como uma avezinha

Nunca julguei neste mundo

Que um dia tu fosses minha.

 

– Eu te amo minha Eli

Eu te tinha como uma flor

Te adorava em silêncio

Pois tinha de ti temor

Só Deus e meu coração

Sabiam do meu amor.

 

Ciron, Ciron! disse ela

Beijando-lhe apaixonada

Diz bem alto que me ama

Que ficarei confortada

Em ser a única mulher

Por ti querido adorada!

 

O povo vociferava:

Matem, matem o estrangeiro!

Nossa rainha está louca

Ele é um fino aventureiro

Com sua beleza quer

Enganar o mundo inteiro!

 

– Silêncio gritou Eli

Com voz bastante cansada

Ante aquela multidão

Bramindo desenfreada

E vendo a hora de ser

Pelo o povo apedrejada.

              44

– Meu povo, falou Eli

Não consinto atrocidade

Este homem é inocente

Mata-lo é perversidade

Se o matarem morrerei

É esta a grande verdade.

 

Houve grande burburinho

E o povo protestou

O rei subiu as escadas

E para Ciron fitou

Pegou na mão do escravo

Na da filha colocou.

 

 – Meus senhores, disse o rei

Atendam o ex-soberano

Sempre fui para o meu povo

Um rei cortês e humano

Mas peço fidelidade

Se não serei um tirano.

 

Minha filha sempre teve

Um gênio terrível e forte

Deus mostrou-lhe que no mundo

Cada qual com sua sorte

E foi amar um escravo

A levando até a morte.

 

– Este homem ia morrer

Por crime de traição

Mas como ele obteve

De Eli o coração

Eu perdôo, todos seus crimes;

E deu ao escravo a mão.

                45

Houve um profundo silencio

Da multidão em geral

E o rei levou Ciron

Para o palácio real

O povo em massa aplaudiu

Num delírio sem igual.

 

O rei chegou ao palácio

Rosina estava presente

Caiu nos pés de Romero

Chorando convulsamente

E disse: fui traidora

Este homem é inocente.

 

Romero olhou pra Rosina

Com gesto de piedade

Pois ainda tinha a ela

Imorredoura amizade

E disse com ar severo:

Conta-me toda a verdade.

 

– Meu esposo, disse ela

Perdoa tudo que fiz

Foi trama do inimigo

Sinto-me muito infeliz

E tudo hoje faria

Para tornar-me feliz.

 

Este escravo sempre foi

Um cavalheiro de bem

Nunca fitou para mim

Razão eu dou a quem tem

Se eu mereço me mate

Já disse o que me convém.

                   46

– Disse que ia ser mãe

Somente pra me vingar

Por ele não me querer

E Rosina a soluçar;

Disse o rei: o teu perdão

Acho difícil alcançar.

 

– Se eu pudesse alcançar

Eu te seria fiel

Ainda que me tratasse

De um modo bruto e cruel

Eu sorveria sorrindo

A minha taça de fel.

 

– Majestade, diz Ciron

Ela merece o perdão

Deus não deu a Madalena

A divina redenção?

O demônio lhe tentou

Botando-a na perdição.

 

– É, papai, falou Eli

Dê o perdão a Rosina

Foram os reveses da sorte

Cada qual com sua sina

Veja bem, a minha sorte

É Deus quem determina.

 

O rei não disse mais nada

E a filha abençoou

E a Ciron, seu genro

Com ternura o abraçou

E com Rosina ao seu lado

Para o castelo rumou.

              47

Daquele dia em diante

Rosina ficou mudada

Era uma mulher honesta

Virtuosa e recatada

Só vivia pra Romero

O seu castelo e mais nada.

 

E o belo escravo Ciron

Casou com Eli a orgulhosa

E aquela leoa brava

Pior que tigre raivosa

Para ele era uma escrava

Dócil, terna e carinhosa.

 

O casamento de Eli

Teve pompa sem igual

Houve festa o mês inteiro

No palacete real

Provei os bolos dos noivos

Tinham um gosto especial.

 

Assim Eli a orgulhosa

Teve de ser abatida

A rainha de Navarra

Insensível e presumida

Deu seu amor a um escravo

E veja o que é a vida.

             48


RUFINO O REI DO BARULHO 

 Manoel D`Almeida Filho

 

Mais um drama sertanejo

Surgiu da inspiração

Dum trovador que ajuda

Na alfabetização

Das crianças camponesas

Dos caboclos do sertão.

 

Para versar aventuras

Esta pena tem orgulho

Por isso apresenta agora:

“Rufino, O Rei do Barulho”

Homem que nunca dobrou-se

Um pau que não deu gorgulho.

 

Rufino nasceu marcado

Pelas garras do destino

Sadio, forte e ousado,

Valente desde menino

Porém aos dezoito anos

Transformou-se um assassino.

 

O velho pai de Rufino

Era u m pobre fazendeiro

Trabalhador esforçado

Sertanejo verdadeiro

Porém era perseguido

Por não possuir dinheiro.

              01

No sertão do Ceará

Cultivando as secas terras

Vivia o pai de Rufino

No meio de suas serras,

Enfrentando dos vizinhos

As mais temerosas guerras.

 

Um grupo de cangaceiros

Os vizinhos avançavam

Naquela fazenda pobre

E sempre assim tomavam

Alguns pedaços de terra

E com arame os cercavam.

              

O pobre pai de Rufino

Luís de Souza Aragão

Se dava parte à justiça

Perdia toda razão

Porque não tinha dinheiro

Não ganhava uma questão.

 

Os seus fortes inimigos

Levavam advogados

Perante a “lei do dinheiro”

Os crimes eram jugados,

Onde os ricos se exaltam

E os pobres são humilhados.

 

Assim, o velho Luís

Pouco a pouco ia perdendo

A sua propriedade

Dia a dia empobrecendo

E os vizinhos desalmados

Mais a mais enriquecendo.

              02

Enquanto isso, Rufino

Estudava em Fortaleza

Seu pai com mil sacrifícios

Para pagar a despesa

Do colégio, trabalhava

Dia e noite com firmeza.

 

Rufino com quinze anos

Era um rapaz muito forte

Bastante desenvolvido

Mostrava bonito porte

Por isso era no colégio

Comandante do esporte.

 

Com diversos estudantes

Que tinham boas condutas

Rufino criou um grêmio

Com treinamento de lutas

Por um professor baiano

Que revisava as disputas.

 

Assim Rufino aprendeu

Dar ponta a pé e rasteira

Tapa, murro e cabeçadas

“Golpes de toda maneira”

Era com dezesseis anos

Professor em capoeira.

            

Em treinamento lutava

Para dar demonstração

Com dez, doze companheiros

Punha-os fora de ação

Batidos, esbodegados

Caídos por sobre o chão.

               03

Uma feita em Fortaleza

Rufino ia passeando

Avistou quatro colegas

Com dez soldados lutando

Rufino entrou sem saber

O que estava se passando.

 

Em defesa dos amigos

Pegou um soldado louro

Deu-lhe um soco entre os dois olhos

Que só ouviu o estouro

Da testa a ponta do queixo

Caiu a manta de couro.

 

Outro polícia partiu

Com o seu rifle empunhado

Rufino pegou-o com tudo

Deu um balão que o soldado

Subiu rodando e caiu

Como um sapo encangalhado.

 

Outro soldado pulou

Com a carabina armada

Rufino saltou de banda

E deu-lhe uma cabeçada

Jogou-o com doze metros

Em cima duma calçada.

 

Nessa hora os seus colegas

Que também eram treinados

Tinham dominado os outros

Estavam todos deitados,

Gemendo fora de ação

Feridos, ensanguentados.

               04

Sem ter mais com quem brigar

Usando a maior perícia

Rufino disse: corramos

Que vai chegar mais polícia

Quando a patrulha chegou

Só encontrou a notícia.

             

Os populares disseram

Que naquele acontecido

Numa batalha de morte

Tudo aquilo tinha sido

Feito por cinco estudantes

Mas não tinha um conhecido.

 

Punir os cinco rapazes

Sem prova ninguém podia

Assim os dez praças foram

Parar na enfermaria

Receber o tratamento

Que cada um exigia.

 

Rufino com os colegas

Dominaram os dez soldados

E ficou por isso mesmo

Nunca foram procurados

Muito embora alguns ficassem

Ligeiramente arranhados.

 

Porém com essa vitória

No dia quatro de julho

Os estudantes unidos

Por um gesto de orgulho

Deram ao colega o título:

“Rufino Rei do Barulho”.

             05

Por esse tempo Rufino

Fazia dezoito anos

Alegre cheio de vida

Sem pensar em desenganos

Nem que já se aproximavam

Inimigos desumanos.

 

Quando já se preparava

Para ir pra Faculdade

Na Capital da Bahia

Deu-se a infelicidade

No quadro da sua vida

A maior fatalidade.

 

O coronel Mustafá

Frio, sem ter compaixão

Inimigo de seu pai

Na maior devastação

Incendiou lhe a fazenda

Sem deixar vivo um cristão.

              

Com um grupo de capangas

Liquidou o fazendeiro

Luís de Souza Aragão

Por um modo traiçoeiro

A esposa e três filhinhos

E a família do vaqueiro.

 

Mataram bois e cavalos

Carneiros, bodes e vacas

Depois os corpos humanos

Esquartejaram com facas

Deixando os vários pedaços

Enfiados nas estacas.

               06

Ninguém tomou providência

Na morte do fazendeiro

Isso porque nesse tempo

Imperava o cativeiro

Vencia aquele que tinha

Capanga e mais dinheiro.

                

Por ter ido a Fortaleza

Só o vaqueiro escapou

Quando soube da notícia

Nunca mais se apresentou

Rufino sabendo tudo

Uma vingança forjou.

 

Despediu-se dos colegas

Conduzindo algum dinheiro

Assim deixou a cidade

Seguiu sem ter paradeiro

Chegou em uma fazenda

Empregou-se de vaqueiro.

 

Como era corajoso

E tinha disposição

Conquistou em pouco tempo

Confiança do patrão

Que fez correr sua fama

Em todo aquele sertão.

 

Enquanto o tempo passava

Aumentava a confiança

Rufino se preparava

Com uma louca esperança

Juntando o que precisava

Para fazer a vingança.

              07

Muniu-se de mais dinheiro

Um revólver e um punhal

Um cavalo corredor

Bom de gado especial

Só aguardava o ensejo

Para a vingança, afinal.

 

Toda a história do crime

Já sabia com certeza

Porque não era segredo

Nas zonas da redondeza

Mais cedo do que pensava

Teve uma grande surpresa.

 

Para uma apartação

Foi convidado Rufino

Que foi e na grande festa

A estrela do destino

Colocou-o frente a frente

Com o coronel assassino.

              

Ao coronel Mustafá

Foi Rufino apresentado

Como um vaqueiro valente

Bom derrubador de gado

Corredor experiente

Honesto e capacitado.

 

De fato na grande festa

Rufino pôde provar

Não correu uma só vez

Para a rês não baquear

Quando puxava na cauda

Via o mocotó passar.

             08

O coronel Mustafá

Ficou tão maravilhado

Com as façanhas do moço

Mais a mais apaixonado

Que chegou a convidá-lo

Para ser seu empregado.

 

Rufino com muito gosto

Aceitou logo o convite

Coitado do Mustafá

Com o seu triste palpite

Preparava a sua morte

Levando uma “dinamite”.

 

Chegando lá na fazenda

Logo nos dias primeiros

Rufino era o exemplo

Entre todos os vaqueiros

Causando até ciumados

No meio dos cangaceiros.

 

Mas é que o coronel

Só confiava em Rufino

Não se lembrava que era

Um vil, covarde, assassino

Que atraído seguia

Para a cova do destino.

 

Assim Rufino já era

O cabra de confiança

Do coronel Mustafá

Jamais lhe vindo a lembrança

Que ele só aguardava

O momento da vingança.

              09

Até que os dois saíram

Para correr o cercado

E por acaso chegaram

No ponto determinado,

Na velha tapera, onde

Rufino tinha morado.

 

A convite de Rufino

Os dois ali se desciam,

Que disse: os nossos cavalos

Até que isso apreciam,

Vamos descansar um pouco

Enquanto as selas esfriam.

 

Rufino fez-se inocente

Como quem não sabe nada,

Perguntou ao coronel

– De quem foi essa morada

Que está me parecendo

Ter sido há dias queimada?

 

Disse o coronel: aqui

Morou um velho encrenqueiro

Vagabundo miserável,

Infeliz aventureiro,

Onde só vivia brigando

Querendo ser fazendeiro.

 

Fiz tudo para que ele

Me vendesse essa porqueira,

Mas como era teimoso

Sempre fazia barreira,

Até quando me zanguei

Foi a sua derradeira.

               10

Mandei matá-lo com tudo

Inclusive os animais,

Ele a mulher e três filhos,

Tiveram mortes fatais

A família do vaqueiro

Passaram dores iguais.

 

Depois do “serviço” feito

Os pastos incendiado,

Os corpos ainda foram

Por ordem esquartejados,

E os pedaços foram postos

Nas estacas enfiados.

           

Como defuntos não falam

Para falar a verdade,

Depois fui a Fortaleza

Com toda felicidade,

Anexei suas terras

A minha propriedade.

 

Rufino disse: o senhor

Acha que fez muito bem,

E não teme por ventura

Ter escapado alguém

E venha tomar vingança

O esquartejando também?

 

– Escapou porém a mim

Não causa o menor abalo,

Um maluco em Fortaleza

Eu já mandei procurá-lo,

Porém não foi encontrado

Fugiu, não pude matá-lo.

               11

Tem um cabra o procurando

Breve será encontrado,

Não tenho o menor sobroço

Vivo despreocupado,

Se vier me procurar

Breve será liquidado.

 

Até o nome esqueci

Parece ser Severino;

O rapaz afastou atrás

E disse: sou eu Rufino,

Agora pegue nas armas

Para morrer, assassino!

 

O senhor mandou matar

Os meus pais covardemente,

Ainda meus três irmãos

Uma família inocente,

Agora vai pagar tudo

Vou matá-lo frente a frente.

 

Não buscarei seus parentes

Para ficar mais vingado,

O senhor paga sozinho

Vai ser morto, esquartejado,

E ficar como meus pais

Nas estacas enfiado.

              

O coronel deu um pulo

E disse: eu matei seu pai,

Sua mãe e seus irmãos

Agora é você que cai,

Para pagar sua audácia

Atrás deles também vai.

               12

O moço disse: o senhor

Vai cair no meu embrulho,

Pagar o crime que fez

Perder todo seu orgulho,

Nas mãos deste seu criado

“Rufino o Rei do Barulho”.

 

Pode puxar suas armas

Porque eu vou liquidá-lo,

Dá-lhe pontapés e quedas

Até quando machucá-lo,

Para poder começar

Inda vivo esquartejá-lo.

 

Já com a arma na mão

O coronel atirou,

Mais ligeiro que um raio

Rufino se desviou,

Deu uma rasteira no velho

Que o mata-pasto acamou.

 

Na queda do coronel

Rufino logo investiu,

Pegou com revólver e tudo

Para os ares sacudiu,

Aparou-o na cabeça

Que o corpo velho rangiu.

 

Jogou-o em cima dum toco

Na cabeçada que deu,

O velho embora ferido

Não reclamou nem gemeu,

O revólver caiu longe

O punhal também perdeu.

              13

Levantou-se desarmado

Já querendo dar ataque,

Rufino disse: eu agora

Vou pegar-lhe o cavanhaque,

Arrancar fio por fio

Depois lhe dá muito baque.

                

Vou massacrá-lo a gosto

E depois de machucado

Vou esquartejá-lo vivo

Para ficar bem vingado

E o senhor sentir a dor

De está sendo esquartejado.

 

Dizendo assim avançou

Com aspecto de louco

Pegou-o no cavanhaque

Dando pontapé e soco

Queda chute e cabeçada

Pensando ainda ser pouco.

              

O coronel vendo a morte

Abriu a boca chorando

Rufino disse: bandido

Agora está me pagando

Deu-lhe um trompaço que ele

Caiu de bruço arquejando.

 

Rufino com rapidez

Puxou um facão de aço

Para abrir o velho vivo

Começou pelo cachaço

Cortando bem devagar

Até o fim do espinhaço.

              14

Era cortando e dizendo:

– É bom ser esquartejado?

Por sua culpa assassino

Eu faço isso forçado

Só para vingar meu pai

Cruelmente assassinado.

 

Porém, morra satisfeito

Leve carta a satanás,

Com isso fico vingado

Não procuro nada mais,

A sua família toda

Por mim ficará em paz.

 

Porque com a sua morte

Meus pais ficarão vingados,

Não vou matar seus parentes

Para aumentar meus pecados;

Pois jamais devem pagar

Os justos pelos culpados.

             

Dizendo isso o facão

Com toda força desceu

O velho já quase morto

Apenas se estremeceu

Aberto de meio a meio

Sem um gemido morreu.

 

Rufino cortou-o em cruz

Em golpes amiudados.

E os quartos foram postos

Nas estacas espetados;

O rapaz olhando disse:

Os meus pais estão vingados.

              15

Pegando a pena escreveu

Um bilhete sem tardança:

“Eu sou Rufino Aragão

Que fiz com esta matança,

Em defesa dos meus pais

Uma completa vingança.

 

Quem tentar ir procurar-me

Leve uma vela na mão,

Deixe o inventário feito

Seja ouvido em confissão,

Se despeça dos parentes

Até a ressurreição”...

 

Pôs o bilhete seguro

Num dos quartos pendurados,

Juntou os ossos dos pais

E dos seus outros vingados

Abriu uma cova rasa

Mas deixou-os sepultados.

 

Rufino depois montou-se

No seu cavalo e partiu

Atravessando os sertões

Até que enfim caiu

Num dos maiores perigos

Que um sertanejo já viu.

 

Por hora vamos deixa-lo

Seguindo no seu corcel

Para as portas do abismo,

Até darmos a fiel

Descrição do achamento

Do corpo do coronel.

             16

Os dois que saíram juntos

Quando não foram chegados,

Os capangas da fazenda

Ficaram desconfiados

E durante quatro dias

Eles foram procurados.

 

Só no quinto dia à tarde

Os capangas avistaram

A festa dos urubus

Quando lá perto chegaram

Pelos pedaços da roupa

O velho  identificaram.

 

Um cabra achou o bilhete

E quando acabou de ler,

Disse: numa coisa desta

Nada podemos fazer,

Porque quem procura cobra

Corre o risco de morrer.

 

Todos responderam: é mesmo

Desse ninguém vai atrás.

É um lobo carniceiro

Pior do que Ferrabrás,

Quem fez uma coisa desta

Mata até o satanás.

 

Juntaram os ossos do velho

Noutra cova sepultaram,

Quando chegaram à fazenda

Com o bilhete mostraram,

Dizendo o que tinham feito

Toda a história contaram.

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Entre o povo da fazenda

Quando a notícia espalhou-se,

Pela frieza dos cabras

A família conformou-se

Mesmo porque o rapaz,

Como um mistério encantou-se.

 

Vamos agora encontrá-lo

Seguindo a sua jornada

Nas travessias desertas

Sem respeitar madrugadas

Até que com cinco dias

Saiu numa encruzilhada.

 

A estrada abriu-se em duas

Sendo que uma passava,

Por uma larga cancela

Onde uma placa pousava,

Com uma palavras que

Quem lia se arrepiava.

 

Na placa estava gravado

Em letras este argumento:

“Quem passar esta porteira

Cai na lei do sofrimento

Pode até arrepender-se

Do dia do nascimento”.

 

Depois que Rufino leu

A placa, disse: eu acerto

A vida agora ou entorto,

Por dentro deste deserto,

Ainda sendo o Inferno

Irei conhecer de perto.

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Partiu abriu a cancela

Passou saiu galopando,

No seu fogoso cavalo

A estrada devorando,

Adiante viu numa árvore

Uma coisa balançando.

 

Perto viu um esqueleto

Numa corda pendurado,

Provando que o dono dele

Tinha morrido enforcado,

Com outra placa pregada

Dando o seguinte recado:

 

“Pode voltar inda é tempo

Veja como foi meu fim,

Pode salvar sua vida

Olhando bem para mim,

Teimando fique sabendo

Pode terminar assim...”

 

Rufino parando olhou

Consigo mesmo dizendo:

Que coisa misteriosa

Está me acontecendo?...

Porém alguém que me vença

Eu só acredito vendo.

 

Açoitando o seu cavalo

Pelo esqueleto passou,

Com o vento produzido

A ossada balançou;

Mais adiante numa curva

Com outro aviso encontrou.

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Desta vez, um esqueleto

Numa cruz estava cravado,

Bem no meio da estrada

Com o aviso gravado

Noutra placa bem legível

Um letreiro avermelhado.

 

“Pare, não passe daqui

Examine o meu estado,

Continuando a viagem,

Como eu vai ser pregado

Vivo numa cruz assim,

E morrer crucificado”.

 

Rufino lendo om letreiro

Nenhum sobroço sentiu,

Deu rédeas ao seu cavalo

Que como um raio partiu,

Pulou por cima da cruz

Que o esqueleto caiu.

 

O cavalo galopando

Quando já ia suado,

Rufino avistou em frente

Um terreno descampado,

Quarenta ou cinquenta casas

Parecendo um povoado.

 

Quando entrou no arruado

Viu nas casas os curiosos,

Com olhares assombrados

Parecendo perigosos,

Rufino sentiu está

Entre maus e criminosos.

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Mais adiante numa esquina

Viu um grande barracão,

Parecido com um bar

Muitas bancas num salão,

Rodeadas de indivíduos

Outros perto do balcão.

 

Rufino ia a galope

Chegando a porta riscou,

Que os cascos do cavalo

Na calçada fumaçou,

Pulou e deu boa tarde

Porém um só não falou.

 

Depois de olhar em volta

Rufino falou assim:

– Perderam a língua ou estão

Querendo zombar de mim?

Eu sou o braço da peste

Pra amansar cabra ruim!

 

Mesmo assim ninguém falou

O rapaz entrou no “peito”,

Disse ao cabra do balcão:

– Me traga um copo sujeito

E um litro de aguardente

Que eu estou daquele jeito...

 

Sem dizer uma palavra

O capanga obedeceu,

Rufino meiou o copo

A todos ofereceu,

Como ninguém disse nada

Ele virou e bebeu.

           21

Nisso os cabras se olharam

O grupo se combinou,

Um do bando foi até

O balcão e se encostou,

E bem num pé de Rufino

Com toda força pisou.

 

Depois pediu outro copo

Disse: agora vou beber,

Com você para que possa

A sua morte escolher,

Nas amostras da estrada

O jeito que quer morrer.

 

Quando foi virando o copo

Com um gesto carrancudo,

Rufino mediu-lhe a cara

E deu um soco sisudo,

Que entrou de boca adentro

Copo com cabeça e tudo.

 

No murro o cabra caiu

Já morrendo sufocado,

Com vários dentes partidos

Estrebuchando engasgado,

Engolindo com cachaça

Dentes com vidro quebrado.

 

Nesse momento Rufino

Viu a quadrilha enfrentá-lo,

Todos os cabras presentes

Partiram para pegá-lo,

Dizendo: vamos batê-lo

Depois crucificá-lo.

             22

Rufino pulou por cima

Caiu no meio do terreiro

Mas já estava cercado

Pelo grupo cangaceiro,

Onze cabras criminosos

Cada qual mais carniceiro.

 

E partiram como feras

Rufino fez que caiu,

Deu uma rasteira rodada

Mas do canto não saiu,

Os cabras caíram todos

Que a poeira cobriu...

 

Agarrados embolando

Quase cegos na poeira,

Quando um se levantava

Recebia outra rasteira,

Caía em cima dos outros

Assentando a cabeleira.

 

O capanga que estava

Dando conta do balcão,

Correu, abandonou tudo

Foi dar parte ao patrão,

Da desgraça acontecida

Na porta do barracão.

 

Agora vamos saber

A causa desse lugar,

Existir, onde Rufino

Sem saber se foi parar,

Nas mãos de um assassino

Que vivia de matar.

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Era um rico aventureiro

Chamado Napoleão,

Que há muitos anos tinha

Fugido duma prisão,

Perseguido da justiça

Foi parar neste sertão.

 

Napoleão foi pirata

Antes de ser condenado,

Por crimes de contrabando

Num lugar tinha deixado,

Entre joias preciosas

Muito dinheiro enterrado.

 

Fugindo, foi, arrancou

Seus tesouros escondidos,

Depois escolheu um grupo

Entre os piores bandidos,

Obedientes ao crime

Do amor destituídos.

 

Napoleão satisfeito

Com essas almas malvadas,

Embrenhou-se nos sertões

Em zonas desabitadas,

Cercou uma grande área

De terras desabitadas.

 

Por ordem sua os capangas

Construíram habitações,

Roubando encheram os cercados

De diversas criações,

Também derrubaram matos

E fizeram plantações.

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Depois iam às cidades

Como pessoas decentes,

Arranjavam namoradas

Casavam com excelentes,

Mocinhas e as traziam

Para o “inferno” inocentes.

 

Capitão Napoleão

O chefe era chamado,

Para imprimir mais respeito

Também havia casado,

Por todos obedecido

Fielmente respeitado.

 

O chefe tinha três filhas

Três “pedaços” palpitosos,

Duas haviam casado

Com dois cabras perigosos,

Porém a caçula tinha

Os modos misteriosos.

 

Dizia que não achava

Rapaz que simpatizasse,

Duvidava encontrar um

Por quem se apaixonasse,

Porque só queria um homem

Que ao seu pai dominasse.

 

Desse lugar tenebroso

Eis a breve descrição,

Vamos pegar o capanga

Descrevendo ao capitão,

O que havia acontecido

Na porta do barracão.

             25

– Capitão agora mesmo

Lá nos chegou um rapaz,

Que brigar daquele jeito

Só o capeta é capaz,

Ou é um filho da peste

Ou irmão de satanás.

 

Enfrentando os nossos homens

Nunca vi outro daquele,

Deu pancada em todo mundo

Ninguém pôde bater nele,

Estão lá esbodegados

Todos que enfrentaram ele.

 

Ouvindo, o capitão disse:

– Estou com satã de testa,

Porque um homem sozinho

Fazer uma coisa desta?

Só se veio do inferno

Para fazer uma festa!...

 

Porém de qualquer maneira

Eu irei agora vê-lo,

Com todos os meus rapazes

Para juntos combate-lo,

Haja o que houver teremos

De qualquer forma vencê-lo.

 

Dizendo assim caminhou

Os seus cabras convidando,

Acompanhado de muitos

De longe foi avistando,

Rufino calmo sentado

Na calçada descansando.

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O capitão ao chegar

A bagaçada foi vendo,

Doze cabras arriados

Alguns ainda gemendo,

Um morto de dente aberto

Outros ainda morrendo.

 

Napoleão deu um grito

Vendo Rufino sentado:

– Quem é você de onde veio

É gente ou endiabrado,

Como fez essa desgraça

Sem poder ser dominado?

 

O rapaz disse: quem sou

Posso dizer com orgulho,

Sou humano, sou valente

Desmancho qualquer embrulho,

Sou chamado em minha terra:

“Rufino Rei do Barulho”.

 

Respeitei sempre os lugares

Por onde tenho passado,

Essa besteira que fiz

Foi para ser respeitado,

Porque com vida, jamais

Serei desmoralizado.

 

Cercado pelos capangas

Rufino nem levantou-se,

Nesse momento, correndo

Isabel aproximou-se,

Era a caçula do chefe

Com o seu pai abraçou-se.

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A moça que do seu quarto

A conversa tinha ouvido,

Do capanga com o pai

Disse num gesto atrevido:

Se o cabra for homem mesmo

Farei dele o meu marido.

 

E quando caiu nos braços

Do seu pai Napoleão,

Perguntou como uma louca:

– Onde está o valentão?

O velho mostrou Rufino

Inda sentado no chão.

 

Para o assombro de todos

Só quando Isabel olhou,

Sem demonstrar sentir medo

Rufino se levantou,

O velho olhou os capangas

De um a um consultou...

 

Porém não teve um sequer

Que desse um só passo avante,

Rufino na vista deles

Aumentava a cada instante,

Como um fantasma lendário

Já parecia um gigante.

 

Todos olhavam Rufino

Parados diante dele,

Porque nunca tinham visto

Um macho doido daquele,

Não tinha quem demonstrasse

Coragem de tocar nele.

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Vendo-se quase sozinho

O velho falou assim:

– Rapaz o que você fez

Assombrou até a mim,

Mas na minha unha vai

Pagar tintim por tintim.

 

Eu tenho aqui três rapazes

Que deposito fiança,

Você vai lutar com eles

É esta a minha vingança,

Se conseguir dominá-los

Terá minha confiança.

 

Armas não serão usadas

Para ter mais graça à luta,

Será feita, corpo a corpo

Livremente à força bruta,

De um a um para ver

Quem é que ganha a disputa.

 

Isabel disse: papai

Esse moço eu creio nele,

Vou ser o juiz da luta,

A vitória será dele,

Se ele topar comigo

No fim casarei com ele.

 

Isabel era simpática

Muito risonha e formosa,

Lábios bem feitos corados

Voz sonora e maviosa,

Dentes alvos como a pérola

As faces da cor de rosa.

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Nesse instante de suspense

Rufino ouvindo a voz dela,

Olhou-a de cima a abaixo

Apaixonou-se por ela,

Porque nunca tinha tido

Outra ocasião daquela.

 

E disse a Napoleão:

– Mande chamar os rapazes,

Que na vista dessa moça

Quero vencer seus sequazes,

Porque com fé em Jesus

Eu venço mil satanases.

 

Os cabras eram chamados:

“Treme Terra” e “Traz a Morte”,

“Acende a Vela” o terceiro

Cada que fosse mais forte,

Os três eram conhecidos

O trio bamba do Norte.

 

“Treme Terra” era um assombro

Como o leitor há de ver,

Pesava noventa quilos

Confiava em seu poder,

Quando pisava no chão

Fazia a terra tremer.

 

Traz a Morte tinha um metro

E oitenta e três de altura,

No corpo era um gigante

Com monstruosa grossura,

Quando o seu braço descia

Abria uma sepultura.

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Acende a Vela era um tipo

Mau, perverso e arrogante,

Com um só murro matava

Um touro ou um elefante,

Um homem nem se falava

Morria no mesmo instante.

 

Eram esses os rapazes

Que logo foram chamados,

Para lutar com Rufino

Porém não eram treinados,

E sim, apenas estúpidos

Valentes e confiados.

 

Chegando o capitão disse:

– Quero agora que vocês,

Lutem com este rapaz

Sendo um de cada vez,

Rufino disse porém

Eu só tuto com os três.

 

Os três capangas zombando

Deram uma boa risada,

E disseram: este infeliz,

Morre duma bofetada,

Rufino disse: bandidos

A nossa hora é chegada.

 

Os cabras se balançaram

O rapaz se preparou,

Quando partiram Rufino

Com rapidez se abaixou,

E com uma só rasteira

Os três no chão derrubou.

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Os cabras não esperavam

Luta daquela maneira,

Também não compreendiam

A arte de dar rasteira.

E nunca tinham visto

Uma perna tão ligeira.

 

Caíram os três embolando

Porém com disposição,

Tentaram se levantar

Mas no meio da confusão,

Em sucessivas rasteiras

Caíam comendo o chão.

 

As quedas se sucediam

Pareciam brincadeira,

Quando um se levantava

Tomava nova rasteira,

Caía em cima dos outros

Que levantava a poeira.

 

Porque quando aproximou-se

Do rapaz ele investiu,

Fincou-lhe os pés nos peitos

Que Acende-a Vela subiu,

Uns cinco metros rodando

Como uma flecha caiu.

 

Bateu no chão a cabeça

Até o pescoço entrou,

Rufino disse: coitado!

Aquele se espatifou,

Olhando a moça, sisudo

Para o capitão falou:

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– Capitão os seus rapazes

Não aguentaram uma hora,

Já não posso perder tempo

Pois com pouco vou embora,

Se tem mais cabra apareça,

Que eu comecei agora...

 

Os cabras que assistiam

Aquela luta feroz,

Saíram todos correndo

Quando ouviram aquela voz,

Dizendo uns para os outros

A coisa vem para nós!

 

Neste momento Isabel

Abraçou-se com Rufino,

Dizendo: foi Deus do céu

Que com seu poder divino

Mandou você clarear

A noite do meu destino.

 

Rufino disse: porém

Precisa a aprovação,

Do seu pai se ele quer

Com gosto a nossa união,

E se aceita ficar

Sobre a minha direção,

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Napoleão respondeu:

– Não tenho mais outro jeito,

Perdi a moral de tudo

O que quiser eu aceito,

Mesmo sob o seu governo

Viverei mais satisfeito.

             

Com a resposta Rufino

Disse: agora mando eu,

Reuniu a capangagem

Para enterrar quem morreu,

Depois tratar dos feridos

Ninguém desobedeceu...

 

Mandou arrancar as placas

Da porteira e da estrada,

Enterrou os esqueletos

Acabou a palhaçada

Desarmou os criminosos,

Liquidou a capangada.

 

Deu uma ordem severa

Que foi logo obedecida,

Para que houvesse paz

Surgiu uma nova vida;

Com respeito, amor, justiça

Naquela terra esquecida.

 

Foi erguida uma igreja

Sacerdotes convidados;

Batizados, casamentos

Lá foram realizados,

Todos ficaram felizes

Vendo os maus regenerados. FIM

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