Romance do Escravo Grego
João Martins de Athayde
Este episódio Leitores
Passou-se na antiguidade
Quando esta palavra, amor
Dizia: sinceridade
Aonde essas quatro letras
Eram o emblema da verdade.
No Reinado de Navarra
Que há muito foi destruído
Deu-se este drama de amor
Que nunca foi esquecido
O tempo não apagou
Este fato acontecido.
Vamos aqui encontrar
O reino em grande festim
O seu monarca Romero
Passeando no jardim
Conversando com a esposa
E ia dizendo assim:
01
– Eu não sei querida Ester
Acho um caso melindroso
Nossa filha tem um gênio
Que acho triste, horroroso
Eu de hoje por diante
Tenho que ser rigoroso.
– Eu hei de casá-la à força
Ela faz o que eu quiser
Pois para mim um país
Governado por mulher
Cai breve em decadência
O povo faz o que quer.
– Mas Romero, diz Ester
O seu gênio é muito forte
Eli nasceu pra mandar
Aquilo é de sua sorte
Seu egoísmo ao poder
Só se acaba com a morte.
– E que faço? disse o rei
Lhe fitando acabrunhado,
Casei-me já muito velho
E estou muito cansado
Breve darei a Eli
A coroa do reinado.
Os soberanos calados
Seguiram para o salão
Aonde os pares dançavam
Ao som da valsa-canção
Eli odiava a dança
Pouco prestava atenção.
02
Estava ali no salão
Por ato de gentileza
Era muito presumida
E sua extrema frieza
Faziam os príncipes ficarem
Aborrecendo a princesa.
Eli era graciosa
Tinha grande simpatia
Pois o seu porte elegante
De grande soberania
Lembrava bem a Cleópatra
Que o que quisesse fazia.
A festa durou dez dias
Foi concorrida e animada
Mas assim que terminou
Os príncipes em retirada
Foram embora pra seus reinos
Deixando Eli descansada.
Romero mais uma vez
Chamou Eli pra avisar
Que assim daquela forma
Era em vão continuar
Pois ela de qualquer jeito
Havia de se casar.
– Filhinha, disse o monarca
Tens vinte anos de idade
Já passaste de casar
Pois minha maior vontade
Era de ter já um neto
Que grande felicidade!
03
– Meu pai, falou a princesa
Com infinito desdém
Nunca hei de me casar
Nem por mal nem por bem
Sou senhora dos meus atos
Não dou conta a ninguém.
– Sinto; falou a princesa
Um terror particular
Por todo homem que vejo
Já ver, não posso casar
Minha aversão é tão grande
Que nem os posso fitar.
O rei empalideceu
E Eli ficou sombria
Que dizes, meu bom papai?
Disse ela meiga e fria
– Vais muito mal, disse ele
Hás de sofrer algum dia.
– Bem disse o rei, lhe fitando
O que pretende fazer?
– Ora! falou a princesa
O senhor deve saber
O meu trono é meu marido
Reinarei até morrer.
Ouvindo aquelas palavras
O soberano calou
Com os olhos fito ao chão
Para a filha não olhou
Eli calma e muito fria
Do salão se retirou.
04
Romero estimava a filha
Pois ela lhe ajudava
Quando ele estava ausente
No trono ela ficava
Seu governo absoluto
Todo mundo admirava.
E na ausência do pai
Quando a princesa ficava
Os conselheiros do rei
Com nenhum ela falava
Sua ordem era uma lei
Ninguém ali boquejava.
Romero sempre saía
Pois vivia adoentado
Ia pra sua fazenda
Nos confins do seu reinado
Deixava Eli na regência
E ficava sem cuidado.
Um dia a rainha Ester
Apresentou-se doente
E o seu mal agravou-se
De um modo de repente
E cada dia a moléstia
Piorava horrivelmente.
Romero estava nervoso
Eli triste e assustada
Em uma noite de junho
De rigorosa invernada
A rainha faleceu
Muito calma e sossegada.
05
O rei adorava Ester
Sua morte de repente
Fez o monarca sofrer
Um golpe atroz inclemente
Ficou fraco e abatido
Quem já vivia doente.
O rei triste e pesaroso
Com o coração enlutado
Sentiu o peso cruel
Da perda do ente amado
Deixou Eli governando
Ausentou-se do reinado.
Eli passou vários dias
Que não acertava nada
Chorava de dia à noite
No aposento trancada
Mas depois de alguns dias
Estava mais consolada.
Tomou conta da regência
Daquele seu modo antigo
Disse logo aos conselheiros
Se faz aquilo que digo
E quem não me obedecer
Sofrerá grande castigo.
Deixemos a princesinha
No reino como regente
Vamos encontrar o rei
Disposto e até contente
No reinado de Justino
Um seu amigo e parente.
06
Romero chegou doente
Mas ficou logo disposto
Pois no reino de Justino
Ele viu um lindo rosto
Que levou do coração
O seu profundo desgosto.
A dona desse tal rosto
Era a princesa Rosina
Que ficou na orfandade
Desde o tempo de menina
Seus pais foram assassinados
Tiveram uma triste sina.
Rosina era muito esperta
Todo príncipe que chegava
Sendo ela a mais bonita
Num instante a namorava
E por isso sua prima
Com ódio dela ficava.
E Rosina quando viu
O rei viúvo chegar
E interessar-se por ela
Ela não quis recusar
Achou ele muito velho
Mas queria se casar.
Romero já tinha feito
Setenta anos de idade
Mas era um velho disposto
Fugia a ociosidade
Fora calmo e virtuoso
Nos tempos da mocidade;
07
Romero pediu Rosina
Justino com gosto deu
E perante toda corte
Contratou-se o himeneu
O monarca neste dia
Pra sua filha escreveu.
Eli recebeu a carta
Ficou de tudo ciente
E disse consigo mesma:
Não acho isso decente
Meu pai casar com u`a jovem
Termina louco demente.
Eli respondeu a carta
Na manhã do outro dia
Lhe enviando parabéns
Sem demonstrar alegria
Romero quando leu disse:
Sei que ela não queria.
Rosina não gostou muito
E disse: ela é solteira?
– É, falou sério o monarca
Pensa de outra maneira
O que toda mulher sonha
Pra ela é pura leseira.
– Diz que só cobiça o trono
Isto é o seu sonho de vida
Odeia todos os homens
É por demais presumida
É assim, mas lhe adoro
É uma filha querida.
08
Romero voltou ao reino
Com a noiva em companhia
E toda corte o esperava
Era grande a alegria
Eli recebeu Rosina
Indiferente e sombria.
Beijou a mão do seu pai
E esse lhe apresentou
Rosina, a segunda esposa
E Eli mal abraçou
Fez ciente dos negócios
Do salão se retirou.
No outro dia Romero
Chamou Eli ao seu lado
E disse: vou me casar
Sinto-me muito isolado
Preciso de uma esposa
Para viver descansado.
– Está bem, falou Eli
Sei que está no seu direito
Mas segundo casamento
Nunca vi dá bom proveito
Ao meu modo penso assim
Mas ninguém pensa dum jeito.
Romero via que a filha
Não era de opinião
Que a segunda vez casasse
Mas não prestou atenção
A beleza de Rosina
Dominava-lhe o coração;
09
Foi marcando o casamento
Eli não disse mais nada
Rosina com o rei Romero
Havia de ser casada
A cidade começou
Ficar logo embandeirada.
Rosina era bonita
Inteligente e vaidosa
Seu guarda-roupa erra rico
Nisto era caprichosa
Andava como uma boneca
Toda faceira e mimosa.
Era uma leviana
Gostava de ser olhada
Por todo homem queria
Ser vista e bem reparada
Era fácil nos amores
Se fingia delicada.
Romero podia ver
Que a princesa Rosina
Não casava por amor
Sim, talvez por sua sina
A sorte quem dá é Deus
É ele quem determina.
Afinal chegou o dia
Do rei Romero casar
Era tanto convidado
Que fazia admirar
Fidalgos de toda corte
Não cessava de chegar.
10
Rosina foi pro salão
Estava bela e elegante
O seu vestido de noiva
Ficou todo deslumbrante
Ela deu o braço ao rei
Com um sorriso triunfante.
Eli não tinha vontade
De assistir o casamento
Foi a pedido do pai
Com grande constrangimento
Terminando a cerimônia
Saiu no mesmo momento.
A festa foi duradoura
Pois Rosina assim queria
Terminou depois de um mês
Quando alguém se aborrecia
O rei com a nova esposa
Tudo era riso e alegria.
Romero deliberou-se
Passar a lua de mel
No reino de Marquezan
Do seu primo Rafael
Lembrava-se da esposa
Achava aquilo cruel.
Chamou a filha e lhe disse:
Eli, tenho que partir
P`ro reino de Marquezan
Tenho amanhã que seguir
E ficas no meu lugar
Até o dia de eu vir.
11
Como não queres casar
Pretende reinar sozinha
Quando eu voltar do passeio
Hei de te fazer rainha
Minha coroa e meu trono
Dar-te-ei minha filhinha.
– É no teu aniversário
Que hás de ser coroada
Completas vinte e três anos
Oh! Que rainha invejada!
Quisera que neste dia
Te visse também casada.
Apesar de tão sombria
Eli sorriu docemente
E disse: meu bom papai
Eu quero viver somente
Pra meu reino e pra você
Sou feliz eternamente.
Eli beijou o seu pai
Num transporte de alegria
Ter um reino em suas mãos
Era o que ela queria
Homem, amor, vaidade
Pra ela não existia.
Romero com sua esposa
No outro dia embarcou
Rosina ia muito alegre
Mais contente Eli ficou
E a direção do reino
No mesmo dia tomou.
12
Os conselheiros souberam
Que Eli a princesinha
Dali a uns quatro meses
Havia de ser rainha
Quiseram então protestar
Mas outro jeito não tinha.
Eli apesar de ser
Prepotente e orgulhosa
Todo povo lhe chamava
A bonequinha mimosa
Diziam que era simples
Bonita, mas não vaidosa.
Então o povo dizia:
A nossa princesa é bela
Muito breve é coroada
Só quem manda aqui é ela
Não quer casar, e por isso
Inda mais gostamos dela.
Deixemos a princesinha
Na corte do seu reinado
Vamos encontrar Romero
Por Rosina apaixonado
No Reino de Marquezan
Feliz e bem descansado.
O rei Rafael seu primo
Comemorou a chegada
De Romero a sua côrte
Deu uma festa animada
E Rosina parecia
Uma boneca enfeitada.
13
Na noite da grande festa
Rafael foi disse assim:
Em honra tua, caro amigo
Vai brilhar nesse festim
Um escravo bailarino;
Deram de presente a mim.
De presente? diz Romero
Eu acho até engraçado
Se fosse uma bailarina
Achava mais acertado;
– Pois meu primo, diz Rafael
Vais ficar admirado.
– E porquê? disse Romero
Rafael aí sorriu
E disse: beleza em homem
Outro a terra não cobriu
Pra lhe falar a verdade
Você assim nunca viu.
Neste momento surgiu
Bem no centro do salão
Um jovem em traje de grego
Que fez chamar atenção
Tão belo como um Apolo
Causou admiração.
Rosina em sua poltrona
Assim que o avistou
Não pôde tirar a vista
A beleza a fascinou
Pelo jovem escravo grego
Num instante se apaixonou.
14
O escravo saudou a todos
Com extrema cortesia
Dançou com garbo e elegância
Rosina em chama se ardia
Uma paixão desumana
No seu terno olhar se via.
Ciron, eis o lindo nome
Desse escravo tentador
Alto, esbelto e elegante
Um Adônis sedutor
Lembrava uma estátua grega
No jardim do Criador.
Era forte e varonil
Tinha um riso fascinante
Os seus olhos, tinha um brilho
Misterioso e flamante
Um príncipe o invejaria
Tal o seu porte elegante.
Romero ficou olhando
E disse muito espantado
É verdade, Rafael
É bonito que é danado!
Seduz a toda mulher
Creia que estou abismado?
Rafael, disse Romero
Você pode me vender
Este escravo? pago logo;
O outro riu sem querer
Disse: pois não, caro amigo
Com gosto posso ceder.
15
– É pra dá-lo de presente
A minha Eli orgulhosa
Ela odeia todo homem
É por demais presunçosa
Não achas que vou bulir
Com uma gata raivosa.
O monarca Rafael
Deu uma boa risada
Disse: quando Eli pegá-lo
Dá-lhe uma surra danada
E diz que homem bonito
Só presta para empregada.
Quando a festa terminou
E todos se retiraram
Rosina e o soberano
Num rico aposento entraram
E antes deles dormirem
Muito tempo palestraram.
Disse Rosina a Romero
Nossa côrte é decente
Não existe diversões
E só vive tão somente
Pra festa religiosa
Num mutismo impertinente.
– E porque? disse Rosina
Não compra para levar
Esse escravo bailarino
A côrte irá delirar
A nobreza de Navarra
Gosta muito de dançar.
16
Sim, Rosina, diz Romero
O escravo está comprado
Vou leva-lo para a côrte
E vai ser presenteado
A minha Eli caprichosa
Não foi um plano acertado?
Rosina viu os seus planos
Caírem todos no chão
Pois o jovem escravo grego
Roubou o seu coração
E como ela então podia
Saciar a sua paixão?
– Mas Eli odeia os homens
(pensou Rosina consigo)
Ela logo arrenega
E o tem como inimigo
Ele será meu amante
E meu desvelado amigo.
Todo este pensamento
Como uma flexa passou
Na cabeça de Rosina
Que rindo pr`o rei olhou
Deu certinho o que pensei
E meigamente o beijou.
O rei com aquele carinho
Abraçou-a apaixonado
Não passava em sua mente
Que ia ser enganado
E que Rosina queria
Fazer Ciron seu amado.
17
O rei não quis demorar
Na côrte de Rafael
Estava ficando eterna
A sua lua de mel
Mesmo estava com saudade
Da filha doce e cruel.
Arrumou sua bagagem
Do primo se despediu
Levou consigo o escravo
Mas ninguém da côrte viu
No seu pomposo veleiro
Para Navarra seguiu.
Dez dias antes, o monarca
Para Navarra mandou
Uma carta para Eli
Ela ciente ficou
Da chegada do seu pai
E com festa lhe esperou.
Eli estava contente
Porque aquela chegada
Era os prenúncios felizes
De breve ser coroada
Só pensava em seu trono
E ter um reino e mais nada.
Romero então chegou
Bem feliz e prazenteiro
Falar com sua filhinha
Foi seu cuidado primeiro
Depois particularmente
Com Alonso conselheiro.
18
Sobre o escravo Ciron
Romero não disse nada
Queria dá-lo a Eli
Quando fosse coroada
Sim, no dia dos seus anos
Ia ser presenteada.
Todo reino preparou-se
Para uma festa pomposa
A coroação de Eli
Iria ser majestosa
O rei queria que fosse
Uma festa gloriosa.
Vamos falar em Rosina
Na sua grande paixão
Esperava com cuidado
Numa boa ocasião
Para saciar o capricho
Do imbecil coração.
Rosina fazia tudo
Pra descobrir onde estava
Ciron, o escravo grego
Mas de forma alguma achava
E soube que seu esposo
Escondido o conservava.
Rosina então chamou Zita
Sua dama confidente
E fez ela sabedora
De sua paixão ardente
Deu uma carta pra entregar
A Ciron urgentemente.
19
Zita saiu com a carta
Com cuidado e atenção
Pra satisfazer Rosina
Fazia arte até do cão
Fez mais de mil piruetas
Mas deu-lhe a carta na mão.
Ciron rasgou o envelope
E leu todo conteúdo
– Que loucura! disse ele
Sendo ciente de tudo
Da esposa do monarca?
E cruzou os braços mudo!
– Nunca! falou o escravo
Farei esta traição
Essa senhora está louca
Só sendo uma tentação
Ela quer ver-me na forca
Meu sangue ensopando o chão.
Disse a dama: e o que digo
A minha boa senhora?
– Que não! falou o escravo
E pode já ir embora!
E botou-lhe um olhar tão feio
Que Zita ali deu o fora.
Assim que Zita chegou
Rosina muito contente
Perguntou: quede a resposta?
Disse Zita friamente
Ele me disse que não
Tratou-me asperamente.
20
– Vou esperar diz Rosina
A Eli ser coroada
Pois a côrte em reboliço
Eu não posso fazer nada
Depois das festas então
Eu ponho em campo a jogada.
– Oh! Senhora! diz a dama
O escravo é sedutor
Não há mulher que resista
Oh! Que homem encantador
A Alteza tem razão
De estar cega de amor!
Rosina riu de contente
E disse: calma é segredo;
– Oh! senhora, disse Zita
Pode confiar sem medo
E mesmo não quero ir
Tão nova para o degredo.
Agora vamos tratar
Sobre a côrte e o movimento
O trono foi reformado
Era chegado o momento
A coroação de Eli
Era um deslumbramento.
A côrte estava repleta
Os hotéis superlotados
E nos castelos feudais
Tinham nobres hospedados
No palácio imperial
Tinha dez mil convidados.
21
Afinal surgiu o dia
Desejado da princesa
O céu estava dourado
Resplandecente a natureza
Eli saiu do seu leito
Bela em sua singeleza.
Às onze horas do dia
A princesa se encontrava
Com os trajes de rainha
Toda a côrte acompanhava
E para o salão do trono
Garbosamente marchava.
Sob as bençãos de Deus
E segundo o ritual
Eli leu o grande edito
Para o mundo oficial
E foi então coroada
Num delírio sem igual.
Eli completava anos
Neste belo e grande dia
Diante das homenagens
Indiferente sorria.
Romero ex-rei de Navarra
De prazer não se cabia.
O monarca então lembrou-se
Do escravo incontinente
Mandou buscar pelo o pajem
Logo imediatamente
Levou-o a nova rainha
E fez a ela o presente.
22
– Eli, falou o monarca
Há muito tempo comprei
Este escravo bailarino
Porém a ti não mostrei
É teu presente de anos
Não gostasses eu bem sei.
Eli fitou o escravo
Fez tremer no coração
Fez ela empalidecer
Altiva estender-lhe a mão
Ele ajoelhou-se e beijou-a
Ficando de prontidão.
– Obrigado, bom papá
Disse a rainha sombria
Eu aceito o seu presente
De ninguém aceitaria;
E disse para Ciron:
És o meu pajem de dia.
Entrou o escravo Ciron
A serviço da princesa
Que agora era rainha
E sua rara beleza
Fazia Eli revoltar-se
Trata-lo com aspereza.
Eli tratava Ciron
Com infinito desdém
Só falava asperamente
Pra ela era um ninguém
E mesmo quando fitava
Eli não se sentia bem.
23
Eli gostava de esportes
E quando ela ia jogar
O seu escravo Ciron
Tinha que lhe acompanhar
E o seu menor desejo
Tinha que executar.
Eli, como o leitor sabe
Todo homem a aborrecia
Mas aquele escravo grego
Quando ela o oprimia
Satisfação e remorso
No mesmo instante sentia.
Em uma tarde de inverno
Ela estava enfadada
Cheia de muito trabalho
Ciron vendo-a aperreada
Disse: majestade eu faço
Pode ir dormir descansada.
Ela fitou-o com ódio
Encontrou o seu olhar
Mas os olhos do escravo
Tinha o quê de dominar
Ela disse não precisa
De ninguém me ajudar.
Ciron pediu-lhe desculpas
Do salão se retirou
Mal chegou na ante-câmara
Um vassalo lhe avisou
A nossa rainha o chama
O escravo se assustou.
24
Ciron voltou assustado
A sua fisionomia
Tinha um cunho de tristeza
Eli fitou-o sombria
Disse: venha me ajudar
Com voz áspera e muito fria.
Eli explicou o trabalho
Ciron prestou atenção
Fez tudo como ela disse
Não houve reclamação
Era o pajem e ajudante
Mudou de situação.
Uma tarde Eli estava
No seu quarto se aprontando
E sua dama Geny
Estava lhe penteando
Muito triste estava a jovem
Sempre, sempre suspirando.
– Que tens? falou a rainha
A dama ficou calada
Disse Eli: tens quinze anos
E a ti não falta nada
És minha primeira dama
De todos admirada.
– Oh! disse a menina triste
São males do coração
O escravo da majestade
Cantou ontem uma canção
Que voz sublime... e senti
Por ele grande paixão.
25
Disse Eli: que pensamento!
És uma jovem prendada
Podes casar com um conde,
Escravo, não vale nada
Não digas mais isto a mim
Nem mesmo por caçoada.
Eli depois que aprontou-se
Pegou uma carruagem
Com ela ia Ciron
Com o seu libré de pajem
Uma dama muito velha
Ia também na viagem.
Enquanto a carruagem
Andava bem devagar
Eli tirou um espelho
Da bolsa pra si olhar
Ciron estava ao seu lado
Não lhe ousava fitar.
Mais adiante o cocheiro
Fez parar a carruagem
E disse: rainha Eli
O rio não dar passagem
Pra se ir por dentro dele
Precisas muita coragem.
– Passe senhor! disse Eli
Odeio homem mofino
O cocheiro obedeceu
Como se fosse um menino
Botou no rio o cavalo
Confiado no destino.
26
Quando os cavalos desceram
Que a carruagem entrou
A correnteza era forte
E com força carregou
Viajantes e cavalos
Aos solavancos levou.
Eli sabia nadar
Mais a grande correnteza
Com arrojo arrastou-a
Tirando toda destreza
Ciron tomou-a nos braços
Salvando assim a princesa.
Com força superior
Ciron alcançou a margem
Era forte e tinha força
Muita destreza e coragem
Saiu à margem do rio
Deitou Eli na folhagem.
Se vendo assim só com ela
Ciron foi e lhe beijou
Foi um momento feliz
E quando Eli despertou
Se vendo toda molhada
Com ódio lhe perguntou:
– Que fazes aqui comigo?
Disse ela indignada
Disse Ciron calmamente:
Trouxe a alteza desmaiada
Pois no rio a carruagem
Ficou toda esbandalhada.
27
Ela olhou para Ciron
Mas nada lhe agradeceu
Apenas lhe disse: vamos
O escravo obedeceu
Quando chegou na estrada
O cocheiro apareceu.
Vamos agora tratar
Do grande amor de Rosina
Louca de amor pelo escravo
Como quem não se domina
Pra se fazer sua amante
Seria até assassina.
Rosina então mandou Zita
Sua dama e chaleira
Com uma carta pra Ciron
Mas ela encontrou barreira
Voltou depois duma hora
Suada e muito ligeira.
– Oh! senhora: disse Zita
Eu não pude fazer nada
Se o rei descobrir isto
Manda matar-me enforcada
É melhor que a senhora
Vá num traje disfarçada.
Mal o sol se escondia
Quando a noitinha caiu
Rosina se aprontou
Com uma capa se cobriu
No oitão tomou um carro
E só Zita foi quem viu.
28
Romero ex-rei de Navarra
Morava noutro castelo
Distante da capital
Era um palacete belo
Com Rosina a traiçoeira
Pra ele tão doce elo.
E como Romero fora
Visitar um rei amigo
Rosina se aproveitou
Desconhecendo o perigo
E foi ver o jovem escravo
Sem ter medo do castigo.
Rosina saltou do carro
Tomou uma hospedaria
Fez um bilhete a Ciron
Com uma grande tapia
Dizendo: cheguei da Grécia
Tua irmãzinha Maria.
Ciron tinha uma irmãzinha
Rosina pôde saber
Pois só assim desta forma
Ela poderia lhe ver
E o seu profundo amor
De viva voz lhe dizer.
Momentos depois, Ciron
Numa alegria incontida
Bateu na porta julgando
Ver a sua irmã querida
Deparou-se com Rosina
Decentemente vestida.
29
– Que quer senhora: diz ele
Vendo Rosina trancar
A porta com violência;
Diz ela: quero falar;
Sua voz quente e amorosa
Tinha um quê de dominar
– Escuta amor, diz Rosina
Há muito te escrevi
Revelei minha paixão
Que por ti sempre senti
Mandaste dizer que não
Nem por isso me ofendi.
– Sou esposa do rei
Mas isso não vale nada
É um velho muito doente
Sinto-me só isolada
E quero ser tua amante
Tens em mim a tua amada.
Dizendo isto Rosina
Do escravo se acercou
Mas ele com olhar de ódio
Quatro passos recuou
E lhe disse : sua altezas
Comigo se enganou.
Olhe bem, sou um escravo
Alteza não ignora
Quer que vá parar na forca?
Tenha compaixão, senhora
Procure um seu igual
Dê licença eu vou embora.
30
– Que importa, disse: ela
Se és o homem querido
Que sempre idealizei
Achei-te, estava perdido
Não me despreze, Ciron
Eu tenho muito sofrido!
– Confie em mim, disse ela
Se quiseres irei contigo
Daqui para muito longe
Levo dinheiro comigo
Iremos viver felizes
Bem longe do inimigo.
– Senhora, disse o escravo
Eu não quero nem lhe ver
Faça a queixa que quiser
E bem o que entender
Pois mulher como a alteza
Eu dou um não com prazer.
– Ciron! Ciron!... disse ela
Como louca soluçando
Não renegues meu amor
Há tempos venho te amando!
Com ímpeto apaixonado
Foi com ele se abraçando.
Mas Ciron com violência
Dos braços se escapuliu
A chave estava no chão
Mas que depressa ele abriu
A porta do dormitório
E as carreiras saiu.
31
– Miserável rugiu ela
Cheia de ódio e furor
Hás de pagar com a vida
A desfeita deste amor!
Teu sangue vejo correr
Para lavar minha dor!
E Rosina se torcia
Como cobra envenenada
Mordia os dedos nervosa
Como louca endiabrada
Quando melhorou saiu
Em sua capa enrolada.
Rosina contou a dama
Todo fato acontecido
E disse: ele tratou-me
De um modo descabido
E digo, ele passou
Da hora de ter morrido.
Quando Romero chegar
(disse ela enfurecida)
Irei fazer sua cama
Não há quem lhe poupe a vida
Pois o rei faz o que quero
A minha ordem é cumprida.
Ciron sai as carreiras
E no palácio chegou
Eli há tempo esperava-o
Mas nada lhe reclamou
E para onde tinha ido
Também não lhe perguntou.
32
No outro dia de noite
Eli estava no salão
Repousava no divã
Tinha calmo o coração.
Quando ouviu alguém cantar
Uma plangente canção.
A janela estava aberta
E a noite estava fria
Uma lua muito branca
Lá no céu aparecia
Aquela voz para Eli
Um bem-estar lhe trazia.
– Quem canta? falou Eli
Sua dama suspirou
E lhe disse: vosso escravo;
Ela inda mais se irritou
E lhe disse: vá chama-lo
E o traga onde estou.
A dama lhe obedeceu
Eli ficou meditando
O seu olhar calmo e frio
Olhava a lua vagando
Neste momento Ciron
No salão foi logo entrando.
Ciron lhe fez reverência
Com cerimônia e respeito
Eli olhou-o de lado
Disse: não acho direito
Que o senhor viva cantando
Cantiga de tal conceito.
33
– Não cantes mais disse ela
O teu cantar me irrita
Embora que todos digam
Que tua voz é bonita
Acho fanhosa e sem som
Horrivelmente esquisita.
Ciron depois que ouviu
Retirou-se emudecido
Eli sorriu com desdém
Em vê-lo assim abatido
Mas a voz daquele escravo
Não saía do ouvido.
Toda raiva que ela tinha
No escravo se vingava
No outro dia amanheceu
Que ninguém lhe suportava
E era bem junto dela
Que ele sempre trabalhava.
Eli estava trabalhando
E sem querer se cortou
Com ódio, olhou pro escravo
E disse: hoje cantou?
– Não senhora, disse ele
E para ela fitou.
– E porque? disse Ciron
Ela fitou-o sombria
E lhe disse: quando cantas
Mais parece bruxaria
Tudo de mal acontece
Seja de noite ou de dia.
34
– Anda! diz ela irritada
E estendendo sua mão
Chupa o sangue deste dedo
Ciron prestou atenção
Levou-o a boca e prendeu
Fazendo logo a sucção.
– Engole: diz ela séria
E Ciron obedeceu
Então o sangue de Eli
Rapidamente desceu
À garganta do escravo;
Eli lhe disse: ofendeu?
– Não senhora, disse ele
Ao contrário, me fez bem
Atou a gaze no dedo
Disse ela com desdém:
Pode agora trabalhar
Não preciso de ninguém.
Ora, nessa noite, Eli
Sonhou que Ciron morria
Transpassado num punhal
E ela muito sofria
O vendo banhado em sangue
Em uma lenta agonia.
Ela acordou assustada
Com uma grande impressão
Saltou depressa do leito
Pálida e cheia de emoção
E chamou por sua dama
Em uma louca aflição.
35
– Majestade, disse a dama
O que é que está sentindo?
Eu sonhei, falou Eli
Com alguém aqui bolindo
Mande acordar o escravo
Que está no quarto dormindo.
– Diga-lhe que venha cá
Para fazer sentinela
Agora vou me deitar
E feche esta janela;
A dama lhe obedeceu
Retirou-se com cautela.
Ciron estava dormindo
No seu quarto alguém entrou
Era um guarda do palácio
Que com calma o despertou
E disse: sua majestade
Agora mesmo o chamou.
– Disse que fosse guardar
Agora nesse momento
Até a noite passar
No seu real aposento
Ciron sorriu e lhe disse:
Isto é medo ou fingimento?
Ciron botou o fuzil
E foi fazer sentinela
Sentou-se numa cadeira
Bem pertinho da janela
Enquanto Eli ressonava
No seu leito de donzela.
36
Mas Eli não ressonava
Entre o macio cetim
Ela olhava o seu escravo
Pra sua tez de marfim
Pra seus olhos como estrelas
Como jamais viu assim.
Ciron de manhã saiu
Estava bem pernoitado
Mas tinha visto a rainha
Num ressonar compassado
Com as mãos num mar de renda
Como um lírio abandonado.
Quando foi no outro dia
Eli estava abatida
Tinha as olheiras profundas
E um mal-estar na vida
Irritava-se com tudo
Indisposta e aborrecida.
Cada dia que passava
Eli sentia-se mal
Antigamente tão calma
Vivia em seu natural
Mas agora estava horrível
Uma coisa sem igual.
Nesta tarde Eli estava
Dando o seu expediente
Quando o escravo Ciron
Disse calmo certamente
Majestade, vosso pai
Quer falar-lhe urgentemente.
37
Eli olhou pra Ciron
E disse: mande ele entrar;
– Majestade, é só com ele
Ela não quis replicar
Saiu do trono e deixou
O povo a lhe esperar.
Eli quando viu seu pai
Com a feição diferente
Perguntou muito espantada:
O senhor está doente?
Beijou-lhe as mãos e lhe
disse:
Que fez quando estava ausente?
– Está pálido disse ela
Alguma notícia ruim?
– Sim, filha, disse ele
Teu escravo vai ter fim
Não sabes o que ele fez/
Ele tem ódio de mim.
– Bem sabes que fui passar
Uns dias com Rafael
Na minha ausência este escravo
Com seu instinto cruel
Fez-se amante de Rosina
Veja este triste papel.
– Diz ela que ele agrediu-a
Eu isto não acredito
Ele, um tipo sedutor
Conquistador e bonito
Forçou Rosina a cair
Em seu laço tão maldito.
38
– Diz ela que vai ser mãe
E contou isto chorando:
– Ciron é pai de meu filho...
E me pediu soluçando
O perdão, mas não lhe dei
E eu termino a matando.
– Não a mate, disse Eli
E quando ela tiver
A criancinha, o senhor
Então faça o que quiser
Embora ninguém confie
Em palavra de mulher.
– E não achas, disse o rei
Com ódio e indignação
Que a morte deste escravo
É o pago da traição?
Eli ficou pensativa
E disse: é, tem razão.
– Por isso ele há de morrer
E venho te avisar
Amanhã às cinco horas
O mando guilhotinar;
– Sim, - diz --- Eli – amanhã
Mandarei o executar.
O rei Romero saiu
E Eli ficou calada
Oh! Deus! diz ela consigo
Sentindo a alma gelada
Ciron morrer amanhã
Às quatro da madrugada?!
39
– E porque? falou Eli
Eu estou me revoltando
E sinto meu coração
E minha alma reclamando
Que o salve, que o salve!
Meu Deus, estarei amando?
Naquele momento Eli
Sentiu um grande pavor
O seu coração pulsava
Era a febre do amor
E uma lágrima furtiva
Caiu amarga de dor.
– O que faço? disse ela
Olhando para a criada
Não posso ver essa morte
Morrerei alucinada!
Caiu sem forças abatida
Bem no seu leito prostrada.
– Tenha força: disse a dama
Seja cruel, inclemente
Faça o que a majestade
Sempre fez antigamente
Mas o escravo Ciron
Fez a pensar diferente.
Eli tomou um cartão
E escreveu com cuidado
Mandou a ordem pra ser
O escravo executado
Bem em frente do palácio
Ia ser guilhotinado.
40
De noite chegou à ordem
Diz Ciron: que triste sina!
Morrer por não aceitar
Ser amante de Rosina
Dar de presente tão novo
A cabeça à guilhotina.
Como tinha de seguir
O escravo se calou
Para a escura prisão
Com o guarda ele marchou
Depois de cinco minutos
Eli no cárcere entrou.
Ciron pergunta a ela
Porque manda me prender?
Ela fitou-o nervosa
E lhe disse: vais morrer
E tudo que praticaste
Vais agora me dizer.
– Nada fiz! disse Ciron
Estou de tudo inocente!
E vendo falar assim
Eli fitou-o docemente
Sentiu sua alma viver
E seu coração contente.
– Eu soube disse Ciron:
Que a soberana Rosina
Disse que foi minha amante;
Mentiu! é uma assassina
Nunca a quis ela vingou-se
Botando-me na guilhotina!
41
– Então Ciron, disse ela
Posso mesmo confiar
Que é um falso testemunho
Que ela quer te levantar?
Sim, majestade, diz ele
Pode em mim acreditar.
Eli puxou sua capa
Lindo manto de veludo
Fitou bem para Ciron
Naquele olhar disse tudo
O escravo estremeceu
Mas baixou a fronte mudo.
Eli saiu da prisão
Triste e silenciosa
Entrou no seu aposento
Estava muito nervosa
Diz ela a situação
Para mim é melindrosa.
Todo povo já sabia
Desta triste execução
Apesar de ser tão cedo
Era grande a multidão
E o rei Romero foi ver
Do palácio no balcão.
Ciron subiu as escadas
Disposto para morrer
O padre lhe perguntou
Se algo tinha a dizer
Disse Ciron: nada tenho
Ninguém pode me valer.
42
Mas assim que o carrasco
Mandou Ciron repousar
A cabeça sobre o cepo
Se ouviu alguém gritar
Eli sedenta de ódio
Acabava de chegar.
– Suspenda a execução
Disse Eli num estertor
Sou rainha deste reino
E não conheço senhor!
A multidão lhe olhava
Gelada pelo terror.
Eli subiu as escadas
Num grito desesperado
O carrasco perfilou-se
Ciron ficou espantado
Ela disse pro verdugo:
Retire-se, desgraçado!
Ciron caiu aos seus pés
E beijou a sua mão
Disse ela: não te ajoelhes
Pois não é aí do chão
Que quero que tu me beijes
Sim, junto ao meu coração.
– Não sou mais tua rainha
Sim, tu és o meu senhor
Uma escrava que te oferta
Sua vida e seu amor
Ciron beijou-lhe entre gritos
Da multidão em furor.
43
– Eli, falou o escravo
Eras tu minha rainha
Vejo-te agora em meus braços
Leve como uma avezinha
Nunca julguei neste mundo
Que um dia tu fosses minha.
– Eu te amo minha Eli
Eu te tinha como uma flor
Te adorava em silêncio
Pois tinha de ti temor
Só Deus e meu coração
Sabiam do meu amor.
Ciron, Ciron! disse ela
Beijando-lhe apaixonada
Diz bem alto que me ama
Que ficarei confortada
Em ser a única mulher
Por ti querido adorada!
O povo vociferava:
Matem, matem o estrangeiro!
Nossa rainha está louca
Ele é um fino aventureiro
Com sua beleza quer
Enganar o mundo inteiro!
– Silêncio gritou Eli
Com voz bastante cansada
Ante aquela multidão
Bramindo desenfreada
E vendo a hora de ser
Pelo o povo apedrejada.
44
– Meu povo, falou Eli
Não consinto atrocidade
Este homem é inocente
Mata-lo é perversidade
Se o matarem morrerei
É esta a grande verdade.
Houve grande burburinho
E o povo protestou
O rei subiu as escadas
E para Ciron fitou
Pegou na mão do escravo
Na da filha colocou.
– Meus senhores, disse o rei
Atendam o ex-soberano
Sempre fui para o meu povo
Um rei cortês e humano
Mas peço fidelidade
Se não serei um tirano.
Minha filha sempre teve
Um gênio terrível e forte
Deus mostrou-lhe que no mundo
Cada qual com sua sorte
E foi amar um escravo
A levando até a morte.
– Este homem ia morrer
Por crime de traição
Mas como ele obteve
De Eli o coração
Eu perdôo, todos seus crimes;
E deu ao escravo a mão.
45
Houve um profundo silencio
Da multidão em geral
E o rei levou Ciron
Para o palácio real
O povo em massa aplaudiu
Num delírio sem igual.
O rei chegou ao palácio
Rosina estava presente
Caiu nos pés de Romero
Chorando convulsamente
E disse: fui traidora
Este homem é inocente.
Romero olhou pra Rosina
Com gesto de piedade
Pois ainda tinha a ela
Imorredoura amizade
E disse com ar severo:
Conta-me toda a verdade.
– Meu esposo, disse ela
Perdoa tudo que fiz
Foi trama do inimigo
Sinto-me muito infeliz
E tudo hoje faria
Para tornar-me feliz.
Este escravo sempre foi
Um cavalheiro de bem
Nunca fitou para mim
Razão eu dou a quem tem
Se eu mereço me mate
Já disse o que me convém.
46
– Disse que ia ser mãe
Somente pra me vingar
Por ele não me querer
E Rosina a soluçar;
Disse o rei: o teu perdão
Acho difícil alcançar.
– Se eu pudesse alcançar
Eu te seria fiel
Ainda que me tratasse
De um modo bruto e cruel
Eu sorveria sorrindo
A minha taça de fel.
– Majestade, diz Ciron
Ela merece o perdão
Deus não deu a Madalena
A divina redenção?
O demônio lhe tentou
Botando-a na perdição.
– É, papai, falou Eli
Dê o perdão a Rosina
Foram os reveses da sorte
Cada qual com sua sina
Veja bem, a minha sorte
É Deus quem determina.
O rei não disse mais nada
E a filha abençoou
E a Ciron, seu genro
Com ternura o abraçou
E com Rosina ao seu lado
Para o castelo rumou.
47
Daquele dia em diante
Rosina ficou mudada
Era uma mulher honesta
Virtuosa e recatada
Só vivia pra Romero
O seu castelo e mais nada.
E o belo escravo Ciron
Casou com Eli a orgulhosa
E aquela leoa brava
Pior que tigre raivosa
Para ele era uma escrava
Dócil, terna e carinhosa.
O casamento de Eli
Teve pompa sem igual
Houve festa o mês inteiro
No palacete real
Provei os bolos dos noivos
Tinham um gosto especial.
Assim
Eli a orgulhosa
Teve de
ser abatida
A
rainha de Navarra
Insensível
e presumida
Deu seu
amor a um escravo
E veja
o que é a vida.
48
RUFINO O REI DO BARULHO
Manoel D`Almeida Filho
Mais um drama sertanejo
Surgiu da inspiração
Dum trovador que ajuda
Na alfabetização
Das crianças camponesas
Dos caboclos do sertão.
Para versar aventuras
Esta pena tem orgulho
Por isso apresenta agora:
“Rufino, O Rei do Barulho”
Homem que nunca dobrou-se
Um pau que não deu gorgulho.
Rufino nasceu marcado
Pelas garras do destino
Sadio, forte e ousado,
Valente desde menino
Porém aos dezoito anos
Transformou-se um assassino.
O velho pai de Rufino
Era u m pobre fazendeiro
Trabalhador esforçado
Sertanejo verdadeiro
Porém era perseguido
Por não possuir dinheiro.
01
No sertão do Ceará
Cultivando as secas terras
Vivia o pai de Rufino
No meio de suas serras,
Enfrentando dos vizinhos
As mais temerosas guerras.
Um grupo de cangaceiros
Os vizinhos avançavam
Naquela fazenda pobre
E sempre assim tomavam
Alguns pedaços de terra
E com arame os cercavam.
O pobre pai de Rufino
Luís de Souza Aragão
Se dava parte à justiça
Perdia toda razão
Porque não tinha dinheiro
Não ganhava uma questão.
Os seus fortes inimigos
Levavam advogados
Perante a “lei do dinheiro”
Os crimes eram jugados,
Onde os ricos se exaltam
E os pobres são humilhados.
Assim, o velho Luís
Pouco a pouco ia perdendo
A sua propriedade
Dia a dia empobrecendo
E os vizinhos desalmados
Mais a mais enriquecendo.
02
Enquanto isso, Rufino
Estudava em Fortaleza
Seu pai com mil sacrifícios
Para pagar a despesa
Do colégio, trabalhava
Dia e noite com firmeza.
Rufino com quinze anos
Era um rapaz muito forte
Bastante desenvolvido
Mostrava bonito porte
Por isso era no colégio
Comandante do esporte.
Com diversos estudantes
Que tinham boas condutas
Rufino criou um grêmio
Com treinamento de lutas
Por um professor baiano
Que revisava as disputas.
Assim Rufino aprendeu
Dar ponta a pé e rasteira
Tapa, murro e cabeçadas
“Golpes de toda maneira”
Era com dezesseis anos
Professor em capoeira.
Em treinamento lutava
Para dar demonstração
Com dez, doze companheiros
Punha-os fora de ação
Batidos, esbodegados
Caídos por sobre o chão.
03
Uma feita em Fortaleza
Rufino ia passeando
Avistou quatro colegas
Com dez soldados lutando
Rufino entrou sem saber
O que estava se passando.
Em defesa dos amigos
Pegou um soldado louro
Deu-lhe um soco entre os dois
olhos
Que só ouviu o estouro
Da testa a ponta do queixo
Caiu a manta de couro.
Outro polícia partiu
Com o seu rifle empunhado
Rufino pegou-o com tudo
Deu um balão que o soldado
Subiu rodando e caiu
Como um sapo encangalhado.
Outro soldado pulou
Com a carabina armada
Rufino saltou de banda
E deu-lhe uma cabeçada
Jogou-o com doze metros
Em cima duma calçada.
Nessa hora os seus colegas
Que também eram treinados
Tinham dominado os outros
Estavam todos deitados,
Gemendo fora de ação
Feridos, ensanguentados.
04
Sem ter mais com quem brigar
Usando a maior perícia
Rufino disse: corramos
Que vai chegar mais polícia
Quando a patrulha chegou
Só encontrou a notícia.
Os populares disseram
Que naquele acontecido
Numa batalha de morte
Tudo aquilo tinha sido
Feito por cinco estudantes
Mas não tinha um conhecido.
Punir os cinco rapazes
Sem prova ninguém podia
Assim os dez praças foram
Parar na enfermaria
Receber o tratamento
Que cada um exigia.
Rufino com os colegas
Dominaram os dez soldados
E ficou por isso mesmo
Nunca foram procurados
Muito embora alguns ficassem
Ligeiramente arranhados.
Porém com essa vitória
No dia quatro de julho
Os estudantes unidos
Por um gesto de orgulho
Deram ao colega o título:
“Rufino Rei do Barulho”.
05
Por esse tempo Rufino
Fazia dezoito anos
Alegre cheio de vida
Sem pensar em desenganos
Nem que já se aproximavam
Inimigos desumanos.
Quando já se preparava
Para ir pra Faculdade
Na Capital da Bahia
Deu-se a infelicidade
No quadro da sua vida
A maior fatalidade.
O coronel Mustafá
Frio, sem ter compaixão
Inimigo de seu pai
Na maior devastação
Incendiou lhe a fazenda
Sem deixar vivo um cristão.
Com um grupo de capangas
Liquidou o fazendeiro
Luís de Souza Aragão
Por um modo traiçoeiro
A esposa e três filhinhos
E a família do vaqueiro.
Mataram bois e cavalos
Carneiros, bodes e vacas
Depois os corpos humanos
Esquartejaram com facas
Deixando os vários pedaços
Enfiados nas estacas.
06
Ninguém tomou providência
Na morte do fazendeiro
Isso porque nesse tempo
Imperava o cativeiro
Vencia aquele que tinha
Capanga e mais dinheiro.
Por ter ido a Fortaleza
Só o vaqueiro escapou
Quando soube da notícia
Nunca mais se apresentou
Rufino sabendo tudo
Uma vingança forjou.
Despediu-se dos colegas
Conduzindo algum dinheiro
Assim deixou a cidade
Seguiu sem ter paradeiro
Chegou em uma fazenda
Empregou-se de vaqueiro.
Como era corajoso
E tinha disposição
Conquistou em pouco tempo
Confiança do patrão
Que fez correr sua fama
Em todo aquele sertão.
Enquanto o tempo passava
Aumentava a confiança
Rufino se preparava
Com uma louca esperança
Juntando o que precisava
Para fazer a vingança.
07
Muniu-se de mais dinheiro
Um revólver e um punhal
Um cavalo corredor
Bom de gado especial
Só aguardava o ensejo
Para a vingança, afinal.
Toda a história do crime
Já sabia com certeza
Porque não era segredo
Nas zonas da redondeza
Mais cedo do que pensava
Teve uma grande surpresa.
Para uma apartação
Foi convidado Rufino
Que foi e na grande festa
A estrela do destino
Colocou-o frente a frente
Com o coronel assassino.
Ao coronel Mustafá
Foi Rufino apresentado
Como um vaqueiro valente
Bom derrubador de gado
Corredor experiente
Honesto e capacitado.
De fato na grande festa
Rufino pôde provar
Não correu uma só vez
Para a rês não baquear
Quando puxava na cauda
Via o mocotó passar.
08
O coronel Mustafá
Ficou tão maravilhado
Com as façanhas do moço
Mais a mais apaixonado
Que chegou a convidá-lo
Para ser seu empregado.
Rufino com muito gosto
Aceitou logo o convite
Coitado do Mustafá
Com o seu triste palpite
Preparava a sua morte
Levando uma “dinamite”.
Chegando lá na fazenda
Logo nos dias primeiros
Rufino era o exemplo
Entre todos os vaqueiros
Causando até ciumados
No meio dos cangaceiros.
Mas é que o coronel
Só confiava em Rufino
Não se lembrava que era
Um vil, covarde, assassino
Que atraído seguia
Para a cova do destino.
Assim Rufino já era
O cabra de confiança
Do coronel Mustafá
Jamais lhe vindo a lembrança
Que ele só aguardava
O momento da vingança.
09
Até que os dois saíram
Para correr o cercado
E por acaso chegaram
No ponto determinado,
Na velha tapera, onde
Rufino tinha morado.
A convite de Rufino
Os dois ali se desciam,
Que disse: os nossos cavalos
Até que isso apreciam,
Vamos descansar um pouco
Enquanto as selas esfriam.
Rufino fez-se inocente
Como quem não sabe nada,
Perguntou ao coronel
– De quem foi essa morada
Que está me parecendo
Ter sido há dias queimada?
Disse o coronel: aqui
Morou um velho encrenqueiro
Vagabundo miserável,
Infeliz aventureiro,
Onde só vivia brigando
Querendo ser fazendeiro.
Fiz tudo para que ele
Me vendesse essa porqueira,
Mas como era teimoso
Sempre fazia barreira,
Até quando me zanguei
Foi a sua derradeira.
10
Mandei matá-lo com tudo
Inclusive os animais,
Ele a mulher e três filhos,
Tiveram mortes fatais
A família do vaqueiro
Passaram dores iguais.
Depois do “serviço” feito
Os pastos incendiado,
Os corpos ainda foram
Por ordem esquartejados,
E os pedaços foram postos
Nas estacas enfiados.
Como defuntos não falam
Para falar a verdade,
Depois fui a Fortaleza
Com toda felicidade,
Anexei suas terras
A minha propriedade.
Rufino disse: o senhor
Acha que fez muito bem,
E não teme por ventura
Ter escapado alguém
E venha tomar vingança
O esquartejando também?
– Escapou porém a mim
Não causa o menor abalo,
Um maluco em Fortaleza
Eu já mandei procurá-lo,
Porém não foi encontrado
Fugiu, não pude matá-lo.
11
Tem um cabra o procurando
Breve será encontrado,
Não tenho o menor sobroço
Vivo despreocupado,
Se vier me procurar
Breve será liquidado.
Até o nome esqueci
Parece ser Severino;
O rapaz afastou atrás
E disse: sou eu Rufino,
Agora pegue nas armas
Para morrer, assassino!
O senhor mandou matar
Os meus pais covardemente,
Ainda meus três irmãos
Uma família inocente,
Agora vai pagar tudo
Vou matá-lo frente a frente.
Não buscarei seus parentes
Para ficar mais vingado,
O senhor paga sozinho
Vai ser morto, esquartejado,
E ficar como meus pais
Nas estacas enfiado.
O coronel deu um pulo
E disse: eu matei seu pai,
Sua mãe e seus irmãos
Agora é você que cai,
Para pagar sua audácia
Atrás deles também vai.
12
O moço disse: o senhor
Vai cair no meu embrulho,
Pagar o crime que fez
Perder todo seu orgulho,
Nas mãos deste seu criado
“Rufino o Rei do Barulho”.
Pode puxar suas armas
Porque eu vou liquidá-lo,
Dá-lhe pontapés e quedas
Até quando machucá-lo,
Para poder começar
Inda vivo esquartejá-lo.
Já com a arma na mão
O coronel atirou,
Mais ligeiro que um raio
Rufino se desviou,
Deu uma rasteira no velho
Que o mata-pasto acamou.
Na queda do coronel
Rufino logo investiu,
Pegou com revólver e tudo
Para os ares sacudiu,
Aparou-o na cabeça
Que o corpo velho rangiu.
Jogou-o em cima dum toco
Na cabeçada que deu,
O velho embora ferido
Não reclamou nem gemeu,
O revólver caiu longe
O punhal também perdeu.
13
Levantou-se desarmado
Já querendo dar ataque,
Rufino disse: eu agora
Vou pegar-lhe o cavanhaque,
Arrancar fio por fio
Depois lhe dá muito baque.
Vou massacrá-lo a gosto
E depois de machucado
Vou esquartejá-lo vivo
Para ficar bem vingado
E o senhor sentir a dor
De está sendo esquartejado.
Dizendo assim avançou
Com aspecto de louco
Pegou-o no cavanhaque
Dando pontapé e soco
Queda chute e cabeçada
Pensando ainda ser pouco.
O coronel vendo a morte
Abriu a boca chorando
Rufino disse: bandido
Agora está me pagando
Deu-lhe um trompaço que ele
Caiu de bruço arquejando.
Rufino com rapidez
Puxou um facão de aço
Para abrir o velho vivo
Começou pelo cachaço
Cortando bem devagar
Até o fim do espinhaço.
14
Era cortando e dizendo:
– É bom ser esquartejado?
Por sua culpa assassino
Eu faço isso forçado
Só para vingar meu pai
Cruelmente assassinado.
Porém, morra satisfeito
Leve carta a satanás,
Com isso fico vingado
Não procuro nada mais,
A sua família toda
Por mim ficará em paz.
Porque com a sua morte
Meus pais ficarão vingados,
Não vou matar seus parentes
Para aumentar meus pecados;
Pois jamais devem pagar
Os justos pelos culpados.
Dizendo isso o
facão
Com toda força desceu
O velho já quase morto
Apenas se estremeceu
Aberto de meio a meio
Sem um gemido morreu.
Rufino cortou-o em cruz
Em golpes amiudados.
E os quartos foram postos
Nas estacas espetados;
O rapaz olhando disse:
Os meus pais estão vingados.
15
Pegando a pena escreveu
Um bilhete sem tardança:
“Eu sou Rufino Aragão
Que fiz com esta matança,
Em defesa dos meus pais
Uma completa vingança.
Quem tentar ir procurar-me
Leve uma vela na mão,
Deixe o inventário feito
Seja ouvido em confissão,
Se despeça dos parentes
Até a ressurreição”...
Pôs o bilhete seguro
Num dos quartos pendurados,
Juntou os ossos dos pais
E dos seus outros vingados
Abriu uma cova rasa
Mas deixou-os sepultados.
Rufino depois montou-se
No seu cavalo e partiu
Atravessando os sertões
Até que enfim caiu
Num dos maiores perigos
Que um sertanejo já viu.
Por hora vamos deixa-lo
Seguindo no seu corcel
Para as portas do abismo,
Até darmos a fiel
Descrição do achamento
Do corpo do coronel.
16
Os dois que saíram juntos
Quando não foram chegados,
Os capangas da fazenda
Ficaram desconfiados
E durante quatro dias
Eles foram procurados.
Só no quinto dia à tarde
Os capangas avistaram
A festa dos urubus
Quando lá perto chegaram
Pelos pedaços da roupa
O velho identificaram.
Um cabra achou o bilhete
E quando acabou de ler,
Disse: numa coisa desta
Nada podemos fazer,
Porque quem procura cobra
Corre o risco de morrer.
Todos responderam: é mesmo
Desse ninguém vai atrás.
É um lobo carniceiro
Pior do que Ferrabrás,
Quem fez uma coisa desta
Mata até o satanás.
Juntaram os ossos do velho
Noutra cova sepultaram,
Quando chegaram à fazenda
Com o bilhete mostraram,
Dizendo o que tinham feito
Toda a história contaram.
17
Entre o povo da fazenda
Quando a notícia espalhou-se,
Pela frieza dos cabras
A família conformou-se
Mesmo porque o rapaz,
Como um mistério encantou-se.
Vamos agora encontrá-lo
Seguindo a sua jornada
Nas travessias desertas
Sem respeitar madrugadas
Até que com cinco dias
Saiu numa encruzilhada.
A estrada abriu-se em duas
Sendo que uma passava,
Por uma larga cancela
Onde uma placa pousava,
Com uma palavras que
Quem lia se arrepiava.
Na placa estava gravado
Em letras este argumento:
“Quem passar esta porteira
Cai na lei do sofrimento
Pode até arrepender-se
Do dia do nascimento”.
Depois que Rufino leu
A placa, disse: eu acerto
A vida agora ou entorto,
Por dentro deste deserto,
Ainda sendo o Inferno
Irei conhecer de perto.
18
Partiu abriu a cancela
Passou saiu galopando,
No seu fogoso cavalo
A estrada devorando,
Adiante viu numa árvore
Uma coisa balançando.
Perto viu um esqueleto
Numa corda pendurado,
Provando que o dono dele
Tinha morrido enforcado,
Com outra placa pregada
Dando o seguinte recado:
“Pode voltar inda é tempo
Veja como foi meu fim,
Pode salvar sua vida
Olhando bem para mim,
Teimando fique sabendo
Pode terminar assim...”
Rufino parando olhou
Consigo mesmo dizendo:
Que coisa misteriosa
Está me acontecendo?...
Porém alguém que me vença
Eu só acredito vendo.
Açoitando o seu cavalo
Pelo esqueleto passou,
Com o vento produzido
A ossada balançou;
Mais adiante numa curva
Com outro aviso encontrou.
19
Desta vez, um esqueleto
Numa cruz estava cravado,
Bem no meio da estrada
Com o aviso gravado
Noutra placa bem legível
Um letreiro avermelhado.
“Pare, não passe daqui
Examine o meu estado,
Continuando a viagem,
Como eu vai ser pregado
Vivo numa cruz assim,
E morrer crucificado”.
Rufino lendo om letreiro
Nenhum sobroço sentiu,
Deu rédeas ao seu cavalo
Que como um raio partiu,
Pulou por cima da cruz
Que o esqueleto caiu.
O cavalo galopando
Quando já ia suado,
Rufino avistou em frente
Um terreno descampado,
Quarenta ou cinquenta casas
Parecendo um povoado.
Quando entrou no arruado
Viu nas casas os curiosos,
Com olhares assombrados
Parecendo perigosos,
Rufino sentiu está
Entre maus e criminosos.
20
Mais adiante numa esquina
Viu um grande barracão,
Parecido com um bar
Muitas bancas num salão,
Rodeadas de indivíduos
Outros perto do balcão.
Rufino ia a galope
Chegando a porta riscou,
Que os cascos do cavalo
Na calçada fumaçou,
Pulou e deu boa tarde
Porém um só não falou.
Depois de olhar em volta
Rufino falou assim:
– Perderam a língua ou estão
Querendo zombar de mim?
Eu sou o braço da peste
Pra amansar cabra ruim!
Mesmo assim ninguém falou
O rapaz entrou no “peito”,
Disse ao cabra do balcão:
– Me traga um copo sujeito
E um litro de aguardente
Que eu estou daquele jeito...
Sem dizer uma palavra
O capanga obedeceu,
Rufino meiou o copo
A todos ofereceu,
Como ninguém disse nada
Ele virou e bebeu.
21
Nisso os cabras se olharam
O grupo se combinou,
Um do bando foi até
O balcão e se encostou,
E bem num pé de Rufino
Com toda força pisou.
Depois pediu outro copo
Disse: agora vou beber,
Com você para que possa
A sua morte escolher,
Nas amostras da estrada
O jeito que quer morrer.
Quando foi virando o copo
Com um gesto carrancudo,
Rufino mediu-lhe a cara
E deu um soco sisudo,
Que entrou de boca adentro
Copo com cabeça e tudo.
No murro o cabra caiu
Já morrendo sufocado,
Com vários dentes partidos
Estrebuchando engasgado,
Engolindo com cachaça
Dentes com vidro quebrado.
Nesse momento Rufino
Viu a quadrilha enfrentá-lo,
Todos os cabras presentes
Partiram para pegá-lo,
Dizendo: vamos batê-lo
Depois crucificá-lo.
22
Rufino pulou por cima
Caiu no meio do terreiro
Mas já estava cercado
Pelo grupo cangaceiro,
Onze cabras criminosos
Cada qual mais carniceiro.
E partiram como feras
Rufino fez que caiu,
Deu uma rasteira rodada
Mas do canto não saiu,
Os cabras caíram todos
Que a poeira cobriu...
Agarrados embolando
Quase cegos na poeira,
Quando um se levantava
Recebia outra rasteira,
Caía em cima dos outros
Assentando a cabeleira.
O capanga que estava
Dando conta do balcão,
Correu, abandonou tudo
Foi dar parte ao patrão,
Da desgraça acontecida
Na porta do barracão.
Agora vamos saber
A causa desse lugar,
Existir, onde Rufino
Sem saber se foi parar,
Nas mãos de um assassino
Que vivia de matar.
23
Era um rico aventureiro
Chamado Napoleão,
Que há muitos anos tinha
Fugido duma prisão,
Perseguido da justiça
Foi parar neste sertão.
Napoleão foi pirata
Antes de ser condenado,
Por crimes de contrabando
Num lugar tinha deixado,
Entre joias preciosas
Muito dinheiro enterrado.
Fugindo, foi, arrancou
Seus tesouros escondidos,
Depois escolheu um grupo
Entre os piores bandidos,
Obedientes ao crime
Do amor destituídos.
Napoleão satisfeito
Com essas almas malvadas,
Embrenhou-se nos sertões
Em zonas desabitadas,
Cercou uma grande área
De terras desabitadas.
Por ordem sua os capangas
Construíram habitações,
Roubando encheram os cercados
De diversas criações,
Também derrubaram matos
E fizeram plantações.
24
Depois iam às cidades
Como pessoas decentes,
Arranjavam namoradas
Casavam com excelentes,
Mocinhas e as traziam
Para o “inferno” inocentes.
Capitão Napoleão
O chefe era chamado,
Para imprimir mais respeito
Também havia casado,
Por todos obedecido
Fielmente respeitado.
O chefe tinha três filhas
Três “pedaços” palpitosos,
Duas haviam casado
Com dois cabras perigosos,
Porém a caçula tinha
Os modos misteriosos.
Dizia que não achava
Rapaz que simpatizasse,
Duvidava encontrar um
Por quem se apaixonasse,
Porque só queria um homem
Que ao seu pai dominasse.
Desse lugar tenebroso
Eis a breve descrição,
Vamos pegar o capanga
Descrevendo ao capitão,
O que havia acontecido
Na porta do barracão.
25
– Capitão agora mesmo
Lá nos chegou um rapaz,
Que brigar daquele jeito
Só o capeta é capaz,
Ou é um filho da peste
Ou irmão de satanás.
Enfrentando os nossos homens
Nunca vi outro daquele,
Deu pancada em todo mundo
Ninguém pôde bater nele,
Estão lá esbodegados
Todos que enfrentaram ele.
Ouvindo, o capitão disse:
– Estou com satã de testa,
Porque um homem sozinho
Fazer uma coisa desta?
Só se veio do inferno
Para fazer uma festa!...
Porém de qualquer maneira
Eu irei agora vê-lo,
Com todos os meus rapazes
Para juntos combate-lo,
Haja o que houver teremos
De qualquer forma vencê-lo.
Dizendo assim caminhou
Os seus cabras convidando,
Acompanhado de muitos
De longe foi avistando,
Rufino calmo sentado
Na calçada descansando.
26
O capitão ao chegar
A bagaçada foi vendo,
Doze cabras arriados
Alguns ainda gemendo,
Um morto de dente aberto
Outros ainda morrendo.
Napoleão deu um grito
Vendo Rufino sentado:
– Quem é você de onde veio
É gente ou endiabrado,
Como fez essa desgraça
Sem poder ser dominado?
O rapaz disse: quem sou
Posso dizer com orgulho,
Sou humano, sou valente
Desmancho qualquer embrulho,
Sou chamado em minha terra:
“Rufino Rei do Barulho”.
Respeitei sempre os lugares
Por onde tenho passado,
Essa besteira que fiz
Foi para ser respeitado,
Porque com vida, jamais
Serei desmoralizado.
Cercado pelos capangas
Rufino nem levantou-se,
Nesse momento, correndo
Isabel aproximou-se,
Era a caçula do chefe
Com o seu pai abraçou-se.
27
A moça que do seu quarto
A conversa tinha ouvido,
Do capanga com o pai
Disse num gesto atrevido:
Se o cabra for homem mesmo
Farei dele o meu marido.
E quando caiu nos braços
Do seu pai Napoleão,
Perguntou como uma louca:
– Onde está o valentão?
O velho mostrou Rufino
Inda sentado no chão.
Para o assombro de todos
Só quando Isabel olhou,
Sem demonstrar sentir medo
Rufino se levantou,
O velho olhou os capangas
De um a um consultou...
Porém não teve um sequer
Que desse um só passo avante,
Rufino na vista deles
Aumentava a cada instante,
Como um fantasma lendário
Já parecia um gigante.
Todos olhavam Rufino
Parados diante dele,
Porque nunca tinham visto
Um macho doido daquele,
Não tinha quem demonstrasse
Coragem de tocar nele.
28
Vendo-se quase sozinho
O velho falou assim:
– Rapaz o que você fez
Assombrou até a mim,
Mas na minha unha vai
Pagar tintim por tintim.
Eu tenho aqui três rapazes
Que deposito fiança,
Você vai lutar com eles
É esta a minha vingança,
Se conseguir dominá-los
Terá minha confiança.
Armas não serão usadas
Para ter mais graça à luta,
Será feita, corpo a corpo
Livremente à força bruta,
De um a um para ver
Quem é que ganha a disputa.
Isabel disse: papai
Esse moço eu creio nele,
Vou ser o juiz da luta,
A vitória será dele,
Se ele topar comigo
No fim casarei com ele.
Isabel era simpática
Muito risonha e formosa,
Lábios bem feitos corados
Voz sonora e maviosa,
Dentes alvos como a pérola
As faces da cor de rosa.
29
Nesse instante de suspense
Rufino ouvindo a voz dela,
Olhou-a de cima a abaixo
Apaixonou-se por ela,
Porque nunca tinha tido
Outra ocasião daquela.
E disse a Napoleão:
– Mande chamar os rapazes,
Que na vista dessa moça
Quero vencer seus sequazes,
Porque com fé em Jesus
Eu venço mil satanases.
Os cabras eram chamados:
“Treme Terra” e “Traz a Morte”,
“Acende a Vela” o terceiro
Cada que fosse mais forte,
Os três eram conhecidos
O trio bamba do Norte.
“Treme Terra” era um assombro
Como o leitor há de ver,
Pesava noventa quilos
Confiava em seu poder,
Quando pisava no chão
Fazia a terra tremer.
Traz a Morte tinha um metro
E oitenta e três de altura,
No corpo era um gigante
Com monstruosa grossura,
Quando o seu braço descia
Abria uma sepultura.
30
Acende a Vela era um tipo
Mau, perverso e arrogante,
Com um só murro matava
Um touro ou um elefante,
Um homem nem se falava
Morria no mesmo instante.
Eram esses os rapazes
Que logo foram chamados,
Para lutar com Rufino
Porém não eram treinados,
E sim, apenas estúpidos
Valentes e confiados.
Chegando o capitão disse:
– Quero agora que vocês,
Lutem com este rapaz
Sendo um de cada vez,
Rufino disse porém
Eu só tuto com os três.
Os três capangas zombando
Deram uma boa risada,
E disseram: este infeliz,
Morre duma bofetada,
Rufino disse: bandidos
A nossa hora é chegada.
Os cabras se balançaram
O rapaz se preparou,
Quando partiram Rufino
Com rapidez se abaixou,
E com uma só rasteira
Os três no chão derrubou.
31
Os cabras não esperavam
Luta daquela maneira,
Também não compreendiam
A arte de dar rasteira.
E nunca tinham visto
Uma perna tão ligeira.
Caíram os três embolando
Porém com disposição,
Tentaram se levantar
Mas no meio da confusão,
Em sucessivas rasteiras
Caíam comendo o chão.
As quedas se sucediam
Pareciam brincadeira,
Quando um se levantava
Tomava nova rasteira,
Caía em cima dos outros
Que levantava a poeira.
Porque quando aproximou-se
Do rapaz ele investiu,
Fincou-lhe os pés nos peitos
Que Acende-a Vela subiu,
Uns cinco metros rodando
Como uma flecha caiu.
Bateu no chão a cabeça
Até o pescoço entrou,
Rufino disse: coitado!
Aquele se espatifou,
Olhando a moça, sisudo
Para o capitão falou:
32
– Capitão os seus rapazes
Não aguentaram uma hora,
Já não posso perder tempo
Pois com pouco vou embora,
Se tem mais cabra apareça,
Que eu comecei agora...
Os cabras que assistiam
Aquela luta feroz,
Saíram todos correndo
Quando ouviram aquela voz,
Dizendo uns para os outros
A coisa vem para nós!
Neste momento Isabel
Abraçou-se com Rufino,
Dizendo: foi Deus do céu
Que com seu poder divino
Mandou você clarear
A noite do meu destino.
Rufino disse: porém
Precisa a aprovação,
Do seu pai se ele quer
Com gosto a nossa união,
E se aceita ficar
Sobre a minha direção,
33
Napoleão respondeu:
– Não tenho mais outro jeito,
Perdi a moral de tudo
O que quiser eu aceito,
Mesmo sob o seu governo
Viverei mais satisfeito.
Com a resposta Rufino
Disse: agora mando eu,
Reuniu a capangagem
Para enterrar quem morreu,
Depois tratar dos feridos
Ninguém desobedeceu...
Mandou arrancar as placas
Da porteira e da estrada,
Enterrou os esqueletos
Acabou a palhaçada
Desarmou os criminosos,
Liquidou a capangada.
Deu uma ordem severa
Que foi logo obedecida,
Para que houvesse paz
Surgiu uma nova vida;
Com respeito, amor, justiça
Naquela terra esquecida.
Foi erguida uma igreja
Sacerdotes convidados;
Batizados, casamentos
Lá foram realizados,
Todos ficaram felizes
Vendo os maus regenerados. FIM
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